Sobre acreditar e saber o que é o amor

O que é o amor?, questionou-se Emília num impulso que a acometeu logo pela manhã. Ela sempre acordava pensativa, mas quase nunca conseguia se lembrar de tudo o que perguntava a si mesma ao fim do dia. Sabendo que tinha pouco tempo para sua investigação, decidiu entrevistar alguns entes queridos e anotar em seu caderninho, mas antes, algo lhe veio à mente.

Pensou em seu cachorro, Bob, um vira-lata brincalhão e sadio que encontrou na rua e, que depois de segui-la por dois quarteirões, a convenceu de que merecia mesmo um lar. Seu coração ele já havia conquistado só pelo olhar, mas ela sabia que precisava da permissão dos pais e, por isso, relutou em levá-lo pra casa de início.

Bob era leal, amoroso e nunca guardava rancor, mesmo quando ela demorava a chegar. sempre a postos abanando a cauda e mostrando os dentes como se quisesse sorrir. Ele foi aceito pelos pais por causa dela e todo o seu discurso sobre como um cãozinho pode sofrer nas ruas, isso para Emília era amor: saber que o outro precisa de nós e acolhê-lo, mas ela precisava saber se era mesmo isso, se havia mais alguma coisa que ainda não tivesse pensado ou vivido.

Sem chegar à uma conclusão, perguntou à sua romântica mãe, ao pai adepto de futebol, à avó doceira e ao avô apreciador de automóveis e cada um lhe dá uma resposta, todas diferentes. A mãe responde mostrando à ela o velho álbum de família, com fotos desde sua infância e a do marido, até as fotografias em que eles estavam na idade em que se conheceram. O lugar do primeiro beijo, o jantar de noivado, o belo casamento e até os exames de gravidez, tudo ali significava amor,  era o resumo perfeito.

O pai exitou um pouco antes de dar a resposta, primeiro porque estava em frente à televisão e não queria perder nenhum lance do jogo, mas algo em si falou mais alto, abaixou o volume  da tv e, olhando para a filha, respondeu:

– Amor é o que eu sinto por você, filha! Daria minha vida pela sua. Eu e sua mãe  trabalhamos todos os dias para dar a você o futuro que merece. Somos uma família por isso, porque há amor aqui.

A menina sorriu, mas seguiu empenhada em colher mais informações, pegou sua bicicleta e foi até a casa da avó no final da rua e, da porta, já pôde sentir o cheirinho de café coado. A senhora esguia, de cabelos brancos e olhos brilhantes, contou sua história de vida, mostrou algumas fotos, e finalmente disse:

– Minha querida, o amor é o nosso combustível, é tudo o que nos dá força e nos faz ainda querer levantar todas as manhãs. Se eu não tenho tanto amor dentro do peito, talvez não tivesse hoje a vida que tenho, nem essas pessoas ao meu redor

Após ouvir atentamente tudo o que a avó dizia, respirou fundo e se levantou. Era chegada a hora de perguntar ao avô.

Ela já havia tomado seu café, beliscado um bom pedaço de bolo, e por isso, foi liberada pelos olhos atentos da senhora que  jamais a deixaria ir sem antes se alimentar.

Emília se despediu da avó, pedalou por alguns minutos por uma estradinha sem asfalto, e avistou de longe o local em que o viu pela última vez.

– Ah! Vovô, nem precisa me dizer. Amor é o que sinto agora, porque mesmo que o senhor tenha partido, sinto sua presença e isso me basta. Gostaria de tê-lo comigo, mas prefiro ficar sem você a vê lo chorar e sentir dor, sei que onde está não há mais sofrimento.

Voltou pra casa sabendo que não importa como explicamos ou falamos sobre ele, o amor existe e é tão poderoso que cada um explica do jeito que sente. Mais do que nunca, naquele dia, soube que poderia confiar no amor até seu último suspiro e que são infinitas as maneiras de representação, mas o mais importante é que todas elas trazem acalento.

Mas por que, mesmo sendo tão simples, sentimos necessidade de explicar o que é o amor? Não nos basta sentir, assim como bastou para Emília? A verdade é que, a medida em que vamos crescendo, acabamos deixando de lado a simplicidade de muitas coisas, inclusive as mais importantes para nós.

Eu sei, parece muito fácil acreditar no amor de uma mãe, de um pai presente, e até mesmo no amor de quem já se foi, porque, indiscutivelmente, nossa maior dificuldade é, quase sempre, em relação à crer ou não no amor romântico, na veracidade dos​ sentimentos​ de quem escolhemos para nos dar a mão.

Acreditar no amor? Sempre. Acreditar nas relações humanas? Só quando sentir que realmente vale a pena. Parece fácil pra você? Não, realmente, não é. Sabemos que, nem sempre, estaremos certos e que decepções fazem parte da vida, mas nunca, ou quase nunca, estamos preparados para quando isso acontece com a gente. Sentir na pele dói, é delicado, mas, infelizmente, faz parte do pacote. Ninguém pode nos dar a garantia de um amor sem dores, porque até mesmo um amor tão puro como o amor materno, corre o  risco de fazer sangrar.

O que precisamos, acima de tudo, é não dar espaço demais para o medo, porque ele nos faz ter limites e saber a hora de parar, mas em excesso nos paralisa e tira toda a graça em existir, porque nos rouba as possibilidades de experiências.

Não, não é tão simples como parece, as frases feitas podem até encantar, chamar nossa atenção, mas se não tocar a alma, não irá funcionar. Na tentativa de entender melhor as situações que vivenciamos, procuramos dicas, conselhos e até a opinião de pessoas próximas, mas a verdade é que o que importa mesmo é a nossa visão sobre o que nos acontece, a forma como encaramos e o que pode ser absorvido como lição para o nosso processo de amadurecimento.

Antes de crer em alguma coisa, é preciso antes, assim como Emília, sentir, pois o sentido é tudo o que nos move.

O amor vai muito além daquele entre casais e antes de amar o outro, é crucial que nos amemos e é aí que se deve prestar  atenção para ser capaz de enxergar a linha tênue entre acreditar no amor e acreditar no ser que amamos.

O amor é daqueles em que primeiro é preciso acreditar para depois pensar melhor em como agir, se deixarmos de acreditar nele, o que será de nós?

Não é o amor que nos decepciona, são as pessoas e principalmente, nós mesmos, porque colocamos expectativas em uma relação que nem mesmo nós sabemos se será tudo aquilo que sonhamos e queremos. Sempre devemos confiar no amor, porque não é ele quem nos trai, somos nós, o outro, ou a nossa estranha mania de achar que tudo tem que ser perfeito quando nada na vida é.

Se alguém me perguntar: “até que ponto acreditar no amor?” Com a ternura que tia Emília me ensinou, responderei: até o ponto em que seu coração esteja em paz, mesmo em pleno voo, porque se nada sabemos do futuro, o que nos cabe então é amar antes que seja tarde.

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Toda manifestação de amor é um poema

De todas as histórias possíveis do mundo, minha preferida é a que ainda não foi escrita por ninguém e paira no fundo dos pensamentos de uma mente povoada pelas lembranças de afeto. É necessário escrevê-las, mas alguns detalhes ainda são imunes ao entendimento. Indomáveis, as letras fogem e é necessário mergulhar em direção a elas e penetrar surdamente  no reino das palavras, lá onde estão os poemas que esperam ser escritos, como disse certa vez,  nosso grande poeta Drummond, que é chamado assim, poeta, porque sabia trabalhar muito bem as emoções que queria expressar e as palavras , mesmo as mais arredias.

Mas o que faz algo se tornar poesia? Eis a resposta: O amor. Em suas infinitas formas, cores e aromas, até mesmo quando se acredita que está ausente, é ele que conversa com a alma de quem se atreve a fazer da vida um livro, com capítulos nem sempre felizes, é claro, com muitos revezes, mas, acima de tudo, repleto do que nos faz suspirar e agradecer.

De onde veio essa minha resposta? Eu também duvidava como muitos, que a vida poderia ser mais bonita e que isso dependia de mim, do meu olhar, então me permiti arregaçar as mangas e escrever até que a caneta não fosse mais útil, numa tentativa corajosa de transformar sensações em palavras e acrescentar pontos e vírgulas em uma história que eu não sabia o final, pois se tratava do que ainda estava vivendo. Não me comparo a Drummond na técnica e engenho, mas sei que o que escrevi e ainda escrevo, servirá para, pelo menos, dar mais vida ao que sinto e porque não, alcançar o que mais almejo, tocar as pessoas que leem. Essa foi a minha maneira de descobrir o que é a poesia​ de uma forma geral e não simplesmente me dar por satisfeita com o muitos acreditam​: que ela seja apenas o que cabe no papel. Muitas vezes  ela não rima, não​ é escrita, não fala propriamente do amor,  mas pode ser canto, mensagem, uma peça, ou um gesto. Ela é, sobretudo, arte. Tudo o que é capaz de encantar, assombrar e denunciar, porque ela também pode ser séria e triste como alguns fatos da vida.

Cada qual tem a sua forma de descobrir o que é poesia para si e, assim como é possível ver no cotidiano, um poema pronto, é completamente possível converter o que já faz parte de nós em manifestação artística e com uma pequena história real posso comprovar o que digo:

“Em uma daquelas tardes que parecem comuns, o neto presenteou sua avó com um lindo poema, com versos simples e tocantes. Infelizmente, ele veio a falecer, anos depois, em decorrência de complicações da Aids e sua mãe começou a juntar todas as coisas que pertenciam ao filho, para mais tarde montar um acervo. Ela sabia que a avó guardava com muito carinho o poema que seu filho a tinha presenteado. Pediu então à ela que recusou, dizendo que era um presente e que não poderia simplesmente entregar à outra pessoa. Quando a avó também veio a falecer, a mãe recebeu uma caixinha, onde estava presente este poema. Gostando muito do texto, ligou para um grande amigo e parceiro do filho e perguntou se gostaria de idealizar a música. O amigo passou uma noite em claro lendo aquelas palavras e conseguiu  finalmente transformá-las em canção e disse que ficaria perfeita na voz de Ney Matogrosso. E realmente ficou.”

Essa é a história por trás de Poema, a canção que leva os versos que Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, escreveu para sua amada avó.

Quando amamos verdadeiramente alguém parece loucura querer representar esse amor em algo que se pode ver ou ouvir, mas é completamente possível afetar as pessoas com o que vem de dentro e são essas algumas das muitas, e não menos verdadeiras, definições de arte: trabalhar sentimentos, colocá-los para fora de seu ninho, abrir o coração e transformar os sentidos.

Podemos provocar reflexões, sorrisos, lágrimas, chamar atenção para algo que quase ninguém vê, aquecer o íntimo de alguém ou, simplesmente, como fez Cazuza, se declarar e dar vazão ao que estava, há muito, em seu livre e quente coração.

Ao entregar o poema à avó, o ilustre neto não ofereceu somente palavras, ofereceu o que tinha de mais bonito.

Como seria bom se os dias só fossem feitos apenas de alegrias… Mas bem sabemos que​ nem tudo se resume às​ nossas vontades e quereres. Tudo se torna tão mais fácil quando não enxergamos os obstáculos como dragões invencíveis…

Talvez um dos grandes papéis da arte seja mesmo esse:  abrandar nossos sofrimentos, restaurar esperanças, nos fazer enxergar novas perspectivas, reacender chamas castigadas pelo frio, assim como fez Cazuza, que enfrentou um período de trevas, mas tinha a Poesia​ lhe dando as mãos, mostrando que o fim pode ser apenas o início do eterno.

Eu não preciso explicar a ninguém o que é, de fato, a Poesia, cada um tem a sua forma de enxergá-la, perceber sua substância. Entre tantos questionamentos que me rondam, algumas certezas eu carrego no peito: toda  manifestação de amor é um poema, mesmo que nem todo poema fale de amor. A vida é feita da mais pura Poesia que se mostra em cada canto, com toda a sua simplicidade, que só se torna visível quando penetramos surdamente no reino do mais puro sentir, com as asas abertas da imaginação e com portas e janelas escancaradas para o que nos acaricia a alma.

Continuo sonhando e admirando a história que ainda não estampou o espaço da folha em branco, penso nos detalhes, mergulho no escuro iluminado pelas letras que podem construir as palavras que têm o poder  de representação suficiente para o que sinto agora. Sento e espero, pego a caneta, escolho o papel, me vem a primeira frase, o restante do processo cabe ao tanto de Poesia que carrego em mim, o ingrediente essencial para escrever as histórias que ainda não foram escritas.

Quem sabe um dia eu escreva, antes do que imagino, uma novela, um conto, ou um roteiro de cinema. A você, cabe apenas saber que quando eu manifestar o meu amor, eu quero que sintas como a leitura de um poema: simples, breve e certeiro.

 

Confira a letra e vídeo da canção:

Poema
Cazuza

Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com seu carinho
E lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via um infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim (que não tem fim)

De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.

Você, uma bagunça na casa e no coração

Você me confunde completamente e de maneira tão intensa que eu chego a me afogar nas lembranças das palavras que me disse quando nos conhecemos. Tínhamos o mundo em nossas mãos e tudo era possível, desde que você estivesse aqui, pelo menos era assim que eu me sentia, era como você me fazia sentir.

Hoje, após pouco mais de dois anos, eu já não concordo com a sua maneira de amar, nem com o modo que você usa para demonstrar isso, mas ainda assim, não me canso de pensar naquele quarto de hotel, naquele dia, naquele momento ao abrir a porta e dar de cara com o seu sorriso. Ali nos reconhecemos como duas almas sedentas do novo, foi naquele dia que o sol brilhou mais forte pra mim e tudo o que era frio não existia mais. Foi a primeira vez que me despi, não só das roupas que joguei pelo cômodo, mas de todo o medo que me impedia de conhecer alguém mais a fundo, de mergulhar de cabeça em uma relação.

Naquele encontro que nunca ninguém irá tirar de mim o gosto, fazia apenas uma semana que eu tinha lhe visto pela primeira vez. Era apenas o começo de uma sucessão de surpresas.

Com uma rapidez quase que insana, me entreguei e às vezes me pergunto, o que seria de mim se talvez tivéssemos esperado mais, se haveria ainda o nós se eu tivesse pensado antes de agir e não são poucas as vezes em que chego a conclusão de que não estaria mais aqui porque teria visto antes o tamanho da encrenca, teria sentido o cheiro de coisa maluca no ar.

No entanto, eu sentia que aquilo tudo era de verdade, era tudo real e para mim que tinha um coração cheio de buracos e feridas, isso era o que mais importava porque eu não queria mais me afogar naquilo que eu sabia que não seria fácil de tirar de dentro do peito: meus medos. Era a minha chance de ser feliz enfim, mesmo que você fosse o oposto de tudo o que eu havia sido desde então.Bem pensava que o que se sente não precisa de sentido, por isso é que os sentimentos são vitais em nossas vidas, é impossível viver de fato sem sentir.

Tudo o que passamos é tão humano e absurdamente visceral, não é mesmo? Pois eu gostaria que você se perguntasse: eu sei o que sinto? Isso tem nome? Tenho certeza de que a resposta não viria tão rápido, e se viesse, seria tão confusa quanto as palavras que teimo em escrever agora. Palavras que dão vida a um papel branco e que dominam por completo a folha manchada de vinho que acabou se tornando grande demais para ser um simples bilhete que não pretendo enviar pra você porque acabo de ver que essas letras que formam meu discurso são tão minhas que somente eu preciso lê-las. São parte indispensável do que eu preciso entender para tomar uma atitude e seguir.

Mesmo podendo conversar comigo, é necessário escrever, realizar essa tarefa tão ligada à libertação dos demônios internos e das dúvidas, é preciso arrancar de mim essa emoção que já passou do ponto. Essa fruta podre que impregna o ar com seu cheiro. Uma mistura agridoce como a nossa história.

Hoje eu sei que por muito tempo eu te quis porque você me bagunçava toda. Uma algazarra boa  se fazia entre os dois seres tão livres. Nos entendíamos tão bem entre os nós atados por entre os nossos dedos e pernas, bocas e línguas se encaixando que era notável nosso pertencimento um ao outro. E era aí que eu sempre perdia a noção da hora.

Tudo sempre foi uma festa pra nós e nem era preciso estar em Paris, protagonizávamos o concerto entre dois instrumentos em volume alto.Fazíamos amor e café e não era necessário explicar absolutamente nada, mas hoje, justamente hoje, eu me pergunto: como chegamos aqui, meu amor? O que foi que deixamos acontecer com a gente?

Eu que sempre gostei da tua desordem, hoje quero um pouco de paz. Preciso de limites e que me diga se tem alguma ideia pra nós, se sabe como desfazer esse emaranhado de excessos que nós deixamos entrar pela porta sem querer, por descuido ou desleixo.

Eu sempre tentei me manter sóbria em relação às suas loucuras, sempre achei que isso fosse passar, que era apenas porque éramos jovens demais e jovens nunca sabem o que estão fazendo direito, é o que dizem os adultos.

Me lembro que sempre que eu me sentava e insistia em perguntar pra onde estávamos indo, esperando que me desse atenção, você cantarolava uma música qualquer fingindo não ouvir e eu pedia pra parar, irritada com a sua falta de maturidade, mas o que eu nunca pedi foi pra você ir embora. Não agora, não assim.

Hoje, mesmo de saco cheio de esperar pelo muito que não veio, eu me lembrei que o amor é tão maior que tudo isso, tão maior que merece uma segunda chance, merece algo melhor. Uma casa arrumada, pelo menos dentro de nós.

Tudo era tão lindo nesse apartamento até eu perceber que quem limpava toda a  sujeira era eu, sozinha, por isso, daqui pra frente, quero você comigo levantando os sofás​, varrendo a sala, trocando os lençóis bagunçados, quero o apoio que sei que você pode me dar.

Ninguém me dava ordens, mas eu acatava regras que nem havia criado, porque eu educava um homem feito sem perceber.Eu não quero ficar sem você, mas não quero mais a vida que tínhamos.Quero é sair desse espaço, largar esse marasmo, essa bagunça toda da casa e do coração, mudar a cor do meu cabelo, tomar um banho fresco de chuva e saber que eu tenho um lar pra voltar e alguém lá dentro disposto a enfrentar o mundo ao meu lado.Vem comigo, eu te convido para o meu jeito de bagunçar a vida, agora será do meu jeito e de acordo com a minha loucura. Vamos descobrir o mundo, jogar nossas roupas no chão e nos amar, quebrar copos depois de bêbados, encher a casa de amigos, rir até cansar, mas no final da noite, quando estivermos exaustos, seremos dois pra separar os cacos do resto do lixo, seremos dois para acordar no dia seguinte e lavar o banheiro, seremos dois para o bom e o ruim da vida, para o belo e o feio, porque somos um misto de loucura e caos, mas você sabe que podemos ser mais do que isso. Se quiser, o recomeço é agora. Me dê sua mão, o caminho começa por aqui.

A história de alguém invisível

O que leva alguém a abandonar a própria vida?

 

Irremediavelmente apunhalado pelas costas, seguia em frente, cruzava, rua por rua, a cidade pequena demais para os próprios sonhos partidos. Era inevitável sua caminhada, já não havia mais o que pudesse fazer a não ser notar escorrer entre os dedos o castelo que se empenhava em construir durante os doze anos em que viveu ali. Era como se ele mesmo tivesse partido ao meio junto às paredes rachadas dos sonhos que desmoronaram bem à sua frente.

Naquele bairro não cabia mais a sua fantasia e era necessário partir, simplesmente partir, sem despedidas ou qualquer tentativa de explicação, porque nada do que dissesse faria sentido a quem não vivia o mesmo assombro que o perseguia.

Quem leria sua carta se a deixasse sobre a mesa, escrita em letras de forma, tortas, com caneta quase sem carga, cansada, marcada feito ele mesmo? A essa altura já não sabia mais o porquê havia escrito se o papel continha apenas duas frases desconexas que, provavelmente, complicariam ainda mais o entendimento. Ao longo do caminho, foi que ele se esqueceu do conteúdo da carta e o real motivo de tê-la escrito, mas agora não importava mais. Estava consumado e o que haveria de acontecer cedo ou tarde, aconteceria e de alguma forma ele sabia, carregava a certeza de que não tinha volta.

As bolhas que se formavam nos pés começaram a incomodar o desbravador da própria tristeza, tanto que resolveu parar e se sentar no meio fio. Ficou descalço e sentiu, não um alívio comum, mas um alívio seco. A carne não reclamava mais, mas havia outra ferida que nem mesmo ele poderia alcançar agora.

Os gritos e risadas em alto volume das crianças em seu caminho para a escola começaram a incomodar tanto quanto as bolhas dentro do sapato velho. Era o esquerdo que tinha incomodado mais. Era sempre com ele que pisava primeiro, como se contrariasse todas as crendices e superstições, gostava de fazer parte da margem, mas não poderia prever que seu futuro seria o mesmo de tantos outros. Não sabia que seria parte daquele retrato do cotidiano de forma definitiva.

Um andarilho, cujos sonhos foram assassinados pelas circunstâncias, sentado no meio fio, sujo e sem itinerário. Um ser humano que agora coçava a cabeça como quem procura respostas para perguntas que ainda não conseguiu formular, pois prefere não pensar mais sobre o que o trouxe até aquele destino.

Há cinco dias não conhecia a sensação da água escorrer pelo corpo. Por um instante, que pode ter durado horas, sentiu um frescor descer pelo pescoço e algumas gotas penetrarem sua camisa surrada. Despertou-se do delírio com um grito. Se viu sentado em frente à escola das crianças barulhentas.

O grito era da menina que bebia a água fresca do bebedouro do pátio  e se assustou com o homem maltrapilho que a observava sem piscar os olhos negros e cansados. Era tarde para explicações, ela já havia corrido de medo. Acaso sua figura era capaz de causar tamanho espanto?

Já não lhe bastavam os açoites dos flashes de pequenas memórias que o perseguiam a cada maldito dia de sua insistente existência? Como fugir de si ? Como não ser visto como alguém que traz o mal?.Fugiu do mundo e agora o mundo era quem começava a fugir dele e uma simples garotinha, depois de tanto tempo, finalmente o enxergou e ele podia ver que ainda era de carne e osso, mas sua aparência era como uma ameaça aos olhos de alguém que pouco sabe da vida e suas realidades tão doentes. Ele era então uma figura assustadora e feia. Havia ainda forças para oferecer perigo à alguém? Trapo humano que se transformou ainda não era visível. Não como desejava.

O caminho para um destino fabuloso

Um destino fabuloso, quem não quer? Mas atenção, eu não me refiro aqui ao destino de viagem, embora, de uma maneira bem clichê, a vida possa ser comparada à uma espécie de “jornada” em que a gente pode mudar o roteiro sempre que necessário, mas, como se sabe, por mais que se planeje tudo nos mínimos detalhes, imprevistos acontecem e podem virar sua vida de ponta cabeça e te levar para outros rumos, alguns, nunca imaginados.  

O destino que aqui menciono é o sinônimo de sina, sorte, fado, aquilo que vem pela frente e que, em muitos casos, é descrito como os acontecimentos que estão predestinados. Não são poucos os que não acreditam na existência de um futuro “programado” e cada ser humano, correntes filosóficas e religiões têm concepções distintas sobre seu significado. Alguns consideram que é uma força misteriosa que determina os acontecimentos vivenciados pelas pessoas, outros que cada ser possui o livre arbítrio, ou seja, há liberdade de escolha e cada qual deve arcar com as consequências de seus atos e forma de vida.

Na literatura, um indivíduo descrito como “senhor ou dono do seu próprio destino” é uma pessoa livre, que tem consciência de suas responsabilidades, e que não tem medo de arriscar. Segundo Dalai Lama, “a verdadeira transformação espiritual dos seres está nas pequenas e fundamentais atitudes do dia a dia, independente do credo, do estilo de vida, das preferências sexuais ou políticas que possa ter”.

Todos nós queremos que o que está pra chegar seja bom, queremos ser felizes, sentir que as escolhas que fizemos valeram a pena. Encostar a cabeça no travesseiro aliviados, sem remorsos ou preocupações, mas acontece que, muitas vezes, esquecemos que não temos o poder de controlar toda e qualquer situação.

Há dias em que estamos tristes porque alguma notícia ruim chegou de supetão e roubou nosso sorriso. Em outro estamos de pé, sentindo o agradável gosto da gratidão e há aqueles que correm sem aviso prévio e, quando menos se espera, já é Natal e muita coisa ficou por fazer. Aquele amor não veio, não comprei sapatos novos, não mandei o cartão de aniversário para aquela pessoa querida que não vejo há anos, mal completei a longa lista de afazeres do dia e não cumpri as promessas de fim de ano que escrevi naquele papel que nem me lembro onde guardei.

Bem sabemos que não há como permanecer em eterno estado de poesia sem que nada nos surpreenda para o pior, mas existe uma forma, ou melhor, várias, de fazer com que a vida se torne cada vez mais prazerosa de ser vivida, reduzindo os problemas à pedras no caminho, que acabam auxiliando no nosso processo de aprendizado. Daquelas que nos fazem tropeçar, mas que nos dão a chance de sacudir o pó, continuar ou dar meia volta e escolher outro caminho.

Sempre que penso em contornar o rumo da vida para o lado positivo e transformador, me lembro de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, 2001), filme de Jean-Pierre Jeunet, que conta a história de Amélie (Audrey Tautou), que viveu uma infância reclusa, afetada pela trágica morte da mãe e a distância afetiva do pai, em seu solitário universo povoado de criatividade e imaginação. Tímida, já adulta, passa os dias a observar o cotidiano alheio e o próprio, sem saber que é uma mulher sábia porque, apesar de se esconder porta adentro, possui um modo de vida simples, mas revolucionário: ela cultiva os “pequenos prazeres”.

Do francês: Les petits plaisirs, esses pequenos prazeres são, de uma forma resumida, o contentamento que se sente nos simples fatos do dia, em cada gesto, que traz cor ao cotidiano, como: mergulhar a mão em sacas de grãos, partir a camada de açúcar queimado do crème brûlée com a ponta da colher, fazer ricochetes na água do Canal St. Martin ou prestar atenção nos sons da cidade.

Para Amélie Poulain, esses costumes são sua fonte de alegria. Sensações aparentemente banais, que esquecemos de reparar, e que nos mostram que a vida é mais doce e verdadeira quando nos atentamos aos seus detalhes.

Por mais estranho que possa parecer, e apesar do nome, a simplicidade não é algo tão fácil de se cultivar, já que vivemos em uma sociedade de exageros, onde ter mais dinheiro, mais roupas ou mais curtidas é sinônimo de felicidade e sucesso.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain vem para quebrar com essa ideia, exaltando a naturalidade da vida. Seus personagens são apresentados de acordo com as coisas que eles mais e menos apreciam em suas trajetórias, nos mostrando que nós, muitas vezes, caímos na rotina sem prestar atenção no que vivemos de fato e passamos a achar que não há sentido em existir sem os “grandes feitos” que o mundo admira e que envolvem poder, mas que pouco acrescentam à nossa alma.

Amélie é uma pessoa que aprecia as singelezas da vida, mas que ainda precisa conhecer mais do mundo, pois não se permite arriscar e conhecer o novo.

A oportunidade de mudar de direção bate à sua porta quando, certo dia, encontra uma caixa escondida em seu banheiro e, pensando que pudesse pertencer ao antigo morador, decide procurá-lo ­e encontra Dominique (Maurice Bénichou). Vendo sua alegria ao reaver o objeto, fica impressionada, e acaba construindo um novo ponto de vista e, a partir de pequenos gestos caridosos, ela passa a ajudar as pessoas que a rodeiam, dando um novo sentido para sua existência.

O enredo nos mostra que não importa o quanto estejamos seguros no nosso mundinho, apreciando as coisas belas somente pelo lado de dentro, nós não estamos isentos das surpresas e  necessidades humanas. Somos de carne e osso e, portanto, perecíveis e, se deixarmos, a vida correrá junto ao tempo e não conseguiremos mais alcançá-la. Amélie sempre soube que o que é, de verdade relevante, está nas coisas simples, mas necessitava de mudanças, já que apreciava a riqueza escondida na rotina, mas, ao mesmo tempo, estava presa a ela e era chegada, então, a hora de agir.

Ao encontrar a enigmática caixa e sentir profunda curiosidade em saber a quem pertencia, ela entendeu o momento como um aviso, um chamado para embarcar em uma situação completamente nova que acabou por se tornar sua mais emocionante e transformadora aventura. Mas, e se ela não tivesse se interessado em saber sobre a história da caixa? E se a tivesse deixado no mesmo lugar, sua vida passaria por todas essas reviravoltas?

Todos os dias recebemos sinais, mas se não estivermos abertos para vê-los, eles de nada servem. Ao procurar o dono do objeto misterioso, Amélie aceita o desafio e então percebe que há no cotidiano, não só a beleza que nos encanta, mas o inédito, a novidade que nos aparece através de pequenos sinais escondidos que nos convidam a conhecer e encontrar outros propósitos para se viver.

Assim como diz uma das mais importantes mensagens do filme: “são tempos difíceis para os sonhadores”, mas o fato é que, muitas vezes, quem acaba por deixar o dia a dia mais complicado do que realmente é, somos nós mesmos e a nossa falta de coragem e sensibilidade. A vida convida, mas somos nós quem fazemos acontecer, saindo da nossa zona de conforto. É importante que nós enxerguemos os encantos do cotidiano, mas não é justo conosco que nos percamos ali. Os nossos pequenos prazeres dizem muito do que somos e isso significa que o mundo depende mais dos inúmeros pequenos atos do que dos grandes para ser transformado, pois o caminho para um destino fabuloso vem do sonho e da vontade de evoluir, mas também da simplicidade e disposição para enxergar o que realmente importa.

Ninguém morre de amor

O amor não mata, não destrói, não enlouquece e nem aprisiona. O que é nocivo ao ser humano, e à toda criatura capaz de sentir, é a noção da impotência que temos diante de certos acontecimentos que fazem parte da vida. O ciúme, o sentimento de posse, inseguranças, medo e uma lista enorme que não merece ser mencionada, são apenas alguns dos motivos pelos quais muitas relações acabam e junto delas, ou até mesmo antes, o amor.

Sempre haverá aquilo que não podemos controlar: um desentendimento, um término de namoro, o fato de quem amamos se apaixonar por outra pessoa ou sua partida sem aviso prévio. O que nos mata não é fato de não ter dado certo ou de perdermos, mas a certeza de que acabou e que não voltaremos a ter o que tanto amamos. No meio dessa dor, desse luto necessário, esquecemos que ainda temos a nós mesmos e temos o controle sobre o modo como olhamos para tudo o que nos acontece e como encaramos nossas escolhas.

Tudo tem uma consequência e aprender a lidar com ela é um desafio sim, mas é daqueles que nos fazem mais fortes e dizem muito sobre o que somos e sobre o que ainda pretendemos nos tornar. Para viver é preciso, de fato, coragem, há muitas batalhas que travamos ou que nos são impostas pela vida, mas isso não precisa ser o que nos limita. Não podemos viver sempre com medo do que virá, medo de perder ou de se magoar.

Ninguém pode quebrar nosso coração se a permissão não vier de nós, pois é dentro da gente que está a ferramenta necessária para transformar algo que pode nos ferir em algo que nos faça crescer. Quem acredita que é possível morrer de amor vê a vida como uma guerra constante em que é preciso sempre estar à postos, na defensiva, já que crê que corre o risco de se machucar a todo instante e que, a qualquer momento, o que é bom pode desmoronar feito um castelo de areia. Enxergam o amor como uma faca de dois gumes, ora cortando o que nos faz mal, ora dilacerando nossa alma.

Quem já experimentou do mais puro amor, sabe que o que sangra não é o amor em si, mas todas as cobranças e sentimentos pequenos que podem tomar posse de nós, se não houver cuidado, e acabar com aquilo que construímos de bom. Temos tanto medo de perder quem amamos, que acabamos, de fato, perdendo, mas por nossa própria culpa, pelas desconfianças e fantasmas que nós mesmos criamos e que acabamos permitindo que cerquem nossas relações, formando um cordão de isolamento que termina sufocando nosso par, e então, culpamos o amor por tudo o que ele não é capaz de fazer: destruir.

Muitos acreditam que para amar de verdade é preciso ter a pessoa ao nosso lado, que é preciso seguir uma série de regras de comportamento, como um contrato e suas condições, e se esquecem de que o real propósito do amor é edificar o ser humano, auxiliando nossa caminhada rumo ao que, de verdade, nos faz inteiros e felizes.

 

O amor, por ser um sentimento nobre e puro, não pode fazer mal a ninguém, quando ele começa a fazer mal é porque já não mais trata de amor, é apego. É porque nos deixamos contaminar pelos sentimentos ruins que, infelizmente, não são difíceis de serem encontrados, por seres como nós que ainda não são imunes ao mal. Esses sentimentos estão sempre por aí, esperando para serem experimentados, eles viciam, apesar de amargos, e se apossam de nós e, se nada fizermos, acabam por nos moldar de acordo com seus caprichos mesquinhos.

Em determinados momentos, já ouvi casos como: “fulano se matou por amor, não aguentou a separação”, ou ainda: “ela começou a definhar depois que o namorado foi embora, parou de se alimentar, não tinha mais forças, nem vontade de viver”, e tenho absoluta certeza de que nenhuma dessas pessoas morreu por causa do amor. O que leva alguém a querer tirar sua própria vida, não é amor, e sim a falta dele. É uma enorme injustiça culpá-lo por nossa autodestruição e acredite: se te faz sofrer não é amor.

Salvo as relações em que uma das partes está gravemente doente, ou acaba falecendo, deixando uma linda história a dois, mas até nesses casos, o amor não destrói, ele parece fazer doer, mas é ele que fica depois do fim, e é somente ele que é capaz de nos fazer levantar e seguir em frente, é ele que pode curar e aquecer o coração com as boas recordações, pois quem amamos segue vivo enquanto houver amor.

O amor está em todo lugar, basta estarmos abertos para sentí-lo. O problema é que temos pressa demais, e correndo, não somos capazes de enxergar que, muitas vezes, ele está onde menos se espera. Desde a menor flor do jardim até o mais alto monte, aí debaixo do seu nariz, você nasceu com ele, todos nascemos. Ele nos é dado desde o primeiro toque de vida no ventre materno, no primeiro olhar da mãe que pega seu filho no colo pela primeira vez, na paciência paterna ao ensinar algo novo à criança que começa a engatinhar, no primeiro momento em que colocamos nossos olhos naquela pessoa e em tudo o que nos faz bem.

Há tantas outras coisas para se fazer por amor ao invés de se maltratar, principalmente transformá-lo em ações, usá-lo para ajudar alguém que necessita, transformá-lo em canção ou poesia…Precisamos entender que se mata aos poucos não é amor, se dói não é amor, se não é capaz de transformar pra melhor, não pode ser amor.

Mas o que você que escreve este texto sabe sobre amor? Também eu, já passei por desencantos, já me senti traída, senti raiva e sei que corro o risco de passar de novo, porque sou humana e imperfeita, assim como você que está lendo agora. Somos passíveis de erros e sofremos porque sabemos ainda muito pouco sobre questões tão simples que, de tão deixadas para depois, de tão mistificadas, parecem muito complexas, mas é como diz Criolo em uma das suas mais populares canções: “As pessoas não são más, mano, elas só estão perdidas. Ainda há tempo.”

O amor é a única coisa que levamos desta vida ligeira que complicamos todos os dias, e as únicas coisas que são, realmente, nossas: é o que sentimos e o que fizemos disso.

O amor é um sentimento muito nobre para figurar como o vilão de qualquer história, ele ensina as lições que precisamos aprender, nos aponta direções, nos melhora e nós permanecemos eternos quando amamos e quando somos amados. Quem ama, jamais morre de amor, só morre quando deixa de amar.

 

Carta de despedida encontrada em um hotel de beira de estrada

Não me despeço de você, me despeço do que eu costumava me tornar quando estava ao seu lado. Me despeço da dor e de tudo o que me mantinha guardada, privada de mim.

De tudo o que eu atirei pela janela de manhã, quando acordei e vi a cama vazia com seu cheiro insistente. Perturbador.

Isso que eu sinto não pode ser amor, nem nenhum outro sentimento divino. Ou pelo menos que alguém acredite ter sido criado por Deus. Ele não existe para os desesperados como eu.

Atirar-me pela janela como fiz com as lembranças não mudará o que aconteceu, não resolverá o quebra cabeças.

Tantas vezes me ajoelhei aos pés de um  santo de altar, que nem mesmo acredito, na vaga esperança de apagar as pegadas do medo e da loucura que se apossaram de mim.

A verdade é que eu não suporto mais essa realidade distorcida, pagar o preço de não ter mais ninguém a quem suplicar  e ser obrigada a crer numa fé que não é minha, encarar de frente o terror do cotidiano que me mata aos poucos.

Ter que oferecer a preço a única coisa realmente minha que me sobrou depois de ter você.

Minha liberdade não te pertence. A estrada cuidará da caminhada e eu de esquecer que ainda sangro.