Alvorada

Estava na janela e olhava na direção da Baía de Guanabara. A vista é cercada por alguns prédios, mas, ainda assim, consideravelmente ampla. Era início de manhã, a alvorada já reclinava sobre as montanhas e refletia sua luz nas águas. Um tom alaranjado ganhava forma. Era como tinta derramada no papel de um mar que sacode no balanço de suas águas de ressaca.
Ao fundo avisto Niterói. Avisto a Ponte e os carros que passam sobre a Ponte. Não avisto, mas  imagino alguns motoristas dentro daqueles carros. Um automóvel que passa acelerado pelo caminhão na altura do vão central é conduzido por um pai de família que estaria retornando de uma viagem a serviço em São Paulo, e preferiu encarar a estrada de madrugada pra poder levar os filhos pequenos à escola e matar as saudades. Em um carro mais atrás há uma mulher de aproximadamente trinta anos, e estaria a pensar em seu noivo de maneira bastante saudosa, pois moram em cidades distantes a não se veem há um mês, e ela dirige sonhando com o dia em que ele virá morar junto dela, pois assim  decidiram. O ônibus leva um trabalhador que teria despertado às quatro da manhã pra poder estar às sete no trabalho sem problemas de engarrafamento, e no fim do expediente irá direto à faculdade, com todo o cansaço obviamente exposto em seu semblante, mas  relutando por acreditar em dias melhores. E assim fico imaginando a história de cada pessoa dentro daqueles automóveis. Penso também naqueles que ainda tentam construir suas histórias. Aquelas pessoas tristes, rumando com uma certa dor, talvez sem saber  por quê, e que encontrem nessa bonita paisagem um pouco de conforto, e na estrada, as respostas de que precisam.

Da janela localizo um ponto preto no meio da Baía. Um pontinho solitário, quase invisível ante aquelas águas, que num esforço maior de visão noto tratar-se de um pescador. Um simples pescador aguardando pacientemente, com sua rede estirada, o que o mar há de oferecê-lo. Que seja uma pesca farta, assim torço, pois logo despertei em mim uma gratuita estima por esse homem, que faz dessa bonita atividade, a pesca, sua maneira de vencer na vida. Que ele continue dono de todas essas águas banhadas de alvorada, recebendo as bênçãos de um raiar de sol que desnuda o marear. E que algum dia, quem sabe, eu também possa ser dono de meus amanheceres, num barquinho distante que desbrave as madrugadas. E que no amansar das nuvens e no clarear das alvoradas, no meio de todas aquelas águas e de toda uma solidão, alguém, de uma maneira absolutamente sincera e comovente, resgate uma boa lembrança de mim.

Você poderia ter me beijado de todas as maneiras

Você poderia me beijar na boca coçando minha nuca, como é seu gosto, e eu retribuiria com um carinho leve do lado esquerdo da sua cintura, só porque sei que você se arrepia toda logo de cara. Você poderia me beijar o pescoço, passando a língua bem devagar e me gerar aquele transe de virar os olhos e saltar a alma. Você poderia me beijar o rosto pra logo em seguida mordiscar minha orelha, trazendo o meu corpo pra junto do teu. Você poderia me beijar com força e com a mão no meu pau, pra que assim nos alimentássemos novamente do suor do outro. Você poderia me beijar voraz e longamente, como se estivéssemos destruindo paradigmas, como se esse beijo fosse o marco maior de um acontecimento revolucionário, como se o nosso quarto fosse a Champs Élysées em pleno Maio de 68 numa cena à la “Os sonhadores” de Bertolucci, como se daqui a cem anos os livros lembrassem do nosso beijo sendo o ápice de um momento histórico. Sim, você poderia ter me beijado de todas essas maneiras. E de outras milhões também. Mas você me beijou a testa. E eu fiquei ali parado, olhando pra ti como quem não entendia nada, mas na verdade entendia tudo. Meio atordoado, saca? Você, como se lesse todo o emaranhado de sentimentos que me circundava, olhou calmamente no fundo dos meus olhos e sorriu, tomada por uma bonita paz.

Algo ou muito ainda entendo sobre o amor

“Eu te amo sem acreditar em mim.” Foi o que repeti depois de despir-me de tua pele, com a porta e janelas do nosso mundo entreabertas, um vento frio que nos varria com uma força que não permitia-me adormecer. Olhei pra ti e exatamente em teus olhos verdes me enxerguei. Eu era você refletida em mim. 

Como pode o amor resumir-se à mera reflexão de nossos corpos?

Como pode o amor ser aquilo que nunca poderíamos ser? 
Havia uma penumbra, ainda existia a presença um do outro, o cheiro um do outro, ainda existia as verdades e as mentiras um do outro. Meu amor, acredite, eu sou o que você agora enxerga, sou o que a vida chama de destino preparado pra nós dois. O amor define-se por indefinições, compreenderei seus medos e incertezas  quando desejar bater a porta. Não há como negar: outros dias chegarão. Se tenho alguma certeza nessa vida, a certeza é apenas essa, de que outros dias chegarão e aqui continuaremos. Afinal, a vida nos revela certas verdades, e você foi e continuará a ser cria dessas revelações.
Ainda temos muito a nos descobrir,  a nos interessar, a nos odiar, a nos contemplar. Digo isso sem medo de amanhãs, digo por tudo que já passamos e por o que há de nos surgir. Não há dúvidas de que nos conhecemos suficientemente  bem a ponto de não temermos certas intempéries desses dias correntes, a mim não importa as circunstâncias desse nosso amor dissimulado e destemido. O acaso não nos dita regras. O acaso é apenas um e você não é apenas única, você é o diferencial daquilo que defino entre o medo e a alegria. 
Teus olhos verdes sentem o gosto de nossos corpos desavergonhados e crentes  um do outro. Seu vestido é preto e fino e pouco esconde tua pele; nada comento, mas reparo em ti como se você fosse a derradeira sobrevivente de uma guerra ao retornar ao lar depois de sabe lá Deus quanto tempo. Olhar-te me faz pedir perdão por algo que não faço ideia do que seja, mas decerto que a vida resume-se a um amontoado de perdões, e nessa estatística estamos incluídos. Meu bem, te peço: feche os olhos e abrace minhas semanas, meus meses e minha vida. Embora eu saiba que sentimentos frágeis não deveriam fazer parte de nós, sei também  que somos um muro de titânio quando juntos. Desafiamos pré-conceitos quando temos nossos corpos colados. Somos abrigo contra a fria brisa que ainda nos invade pela porta e janelas entreabertas, e eu te protejo com toda a verdade que ainda resta em mim. Protejo-te com a clara e sincera certeza de que algo ou muito ainda entendo sobre o amor. 

Da vida só peço você

Da vida não peço muito, apenas assistir a algum filme do Lars Von Trier largado contigo no sofá de casa num domingo à tarde quase noite com meia-dúzia de pãezinhos de queijo um pouco torrados e uma coca-cola com gelo e limão, pouco se lixando que no dia seguinte será segunda-feira e que o trânsito estará o velho caos de sempre.  
 
Da vida não peço muito, apenas te olhar acordando com aquela cara de ressaca, levando uns dois ou três segundos pra lembrar de onde teríamos ido na noite anterior, tentar abrir os olhos sem muito sucesso, perguntar pra mim a hora e eu dizer que já passou das onze e você resmungar tão docemente que tá cedo pra cacete e voltar a dormir.
 
Da vida não peço muito, apenas sair contigo pra tomar um sorvete na praça mas cair uma chuva daquelas bem na hora que abrirmos a porta pra sair, e então ficarmos olhando o temporal pela janela meio frustrados mas achando graça da nossa ideia de tomar sorvete debaixo de um temporal, e rir muito só de imaginar nós dois alagados naquela praça, abraçados, encharcados e com um sorvete na mão. 
 
Da vida não peço muito, apenas deitar contigo em alguma grama bem rasteira e bem bonita em algum lugar desses bem bonitos também, num fim de tarde, fazer um pique-nique pra relembrar a época de infância, e você rir e me sacanear porque em vez de sucos eu tenha resolvido beber cerveja. “Onde já se viu tomar cerveja comendo comidinhas de pique nique” e mesmo assim você beber comigo brindando e olhando as estrelas que já começam a acender o céu. 
 
Da vida não peço muito, apenas tomar banho de cachoeira com você em algum lugar bastante isolado lá perto da divisa entre Rio e Minas, você pensar umas cinco vezes se entra naquela àgua geladíssima e eu te dizer que é gelado só no início e que logo acostuma, você pegar na minha mão, pular na água e bater os dentes brrrrr que frio mas logo se adaptar, parar debaixo da queda da cachoeira e ali pensar na vida enquanto aceno pra ti e ganho um sorriso de retribuição. 
 
Da vida não peço muito, apenas beber um capuccino em algum desses cafés pelo centro simplesmente pra podermos olhar um pro outro de forma que todos os ponteiros do universo parem nesse momento, e então termos certeza de que o destino nos escolheu pra sermos um do outro e que cumprir esse desejo é o que realmente pode nos fazer felizes. E fará.
 
Da vida não peço muito. Apenas tudo. Apenas você. 

Amor de livraria

Já imaginou um amor de livraria?
 
Eu já.
 
Um amor que se inicia lá pelas sessões de literatura, sob a bênção de Machado de Assis, de Rubem Braga, de Vinícius de Moraes.
 
Um amor inspirado em toda a atmosfera que só uma livraria pode transmitir. Uma volta ao mundo. Um encontro capaz de guiar qualquer autor.
 
Ah, bem que eu iria gostar…
 
Não são poucas as horas que passo dentro de livrarias, folheando livros e descobrindo novos autores. Sento na  poltrona e às vezes leio um livro inteiro. Abduzido dessa cidade, transportado pra qualquer parte do mundo ou da galáxia. E numa dessas, ainda esbarrar com um novo amor. Sim, podem me chamar de sonhador, mas já idealizei essa situação. E por várias vezes.
 
Algo como um acidental esbarrão pelos corredores devido à atenção voltada para a leitura. Ou as mãos se encontrando por acidente na tentativa de pegar o mesmo livro ao mesmo tempo. Algo pode ser mais marcante do que um mesmo gosto literário?
 
Acho que não.
 
Encontrar um amor enquanto se perde na leitura. Ela está ali, desligada do mundo, despretensiosa em absoluto, apenas preocupada em ajeitar os cabelos pra que não caiam sobre as páginas do livro. Tão dentro de si, quase que acolhida em colo de mãe, com o coração tão cheio de paz e de sorrisos fáceis, que entregam o quão tomada está pela leitura, e nesse momento ela é unicamente alma, adentra às páginas e por vezes entrega um suspiro que comove, um suspiro tão natural de quem deseja todo o amor contido naquele romance. E, acreditem, nesse mundo não há nada mais belo do que uma mulher lendo um livro. É o arranjo perfeito. As lojas de cosméticos que me perdoem, mas tô pra ver produto de beleza mais charmoso e natural.
 
Que lindo seria o casual se tornando eternidade. Entre uma e outra prateleira, em cada estante, em cada sessão, tô pra ver lugar mais propício. Barzinhos? Boates? Que nada. Acredito no amor que não sabe que é. Que não não faz poses, que enxerga a beleza mais natural e instintiva, que sabe mergulhar nas histórias e transformar toda ficção no romance mais sincero e verdadeiro. E ao final do dia, não devolver o livro à estante. Levá-lo não somente pra casa, mas pra toda a vida, e assim perceber que somos nós quem escrevemos as histórias mais bonitas, e pra nossa sorte, sem imaginar qualquer final. 
 

Gostar sem pressa

Quando lembro de você, imagino um filme de nós dois. Penso em você falando comigo ao telefone, nas nossas histórias, nos seu olhar feliz quando eu dizia algo que você achava tão engraçado que chegava a chorar de tanto rir. Lembro também das semanas que ficávamos sem nos falar. Talvez obra do acaso. Talvez culpa do tempo. O tempo às vezes é o pior remédio. Dilacera vontades. Mas sempre soubemos desbravá-lo corajosamente e nos reencontros nos fazíamos de primeira vez.
 
Pura vontade de se ver. De marcar encontros e transformar a ansiedade em preliminares. De te ajudar a escolher o mais belo vestido. De já se saber feliz desde ali. A verdade é que sempre acreditamos um no outro. Seus olhos contavam o que as palavras timidamente escondiam dentro de ti. Sempre soubemos o que dizer, ainda que o silêncio encurralasse-nos. Não era vergonha. Era verdade. E as verdades não são essencialmente escancaradas.
 
Admiro seu jeito doce de menina. Suas responsabilidades de mulher. Seu sorriso quando olha pra mim. Sabe que pra você sou todo ouvidos, olhos, sorrisos e coração. Sou todo em plenitude. Sou até o que eu não conseguir ser. Sou porque sei que também és. E isso é coisa somente nossa. Temos nossa própria árvore pra fazer sombra e escalar. Temos nosso próprio sol pra que jamais apaguemos um ao outro. Temos nossa própria noite porque sabemos aproveitar a escuridão.
 
A vida tem dessas coisas. Dessas atitudes essencialmente humanas e honestas um com o outro. O saber de se gostar sem pressa. Sem ataques. Apenas nós dois e o sentimento, nos ares da inocência desse mundo, mundo esse que ás vezes parece tão pequeno pra nós dois. E ainda que o tempo passe, sei que encontro-te em cada esquina, em cada livraria, em cada primeiro amor, em todo e qualquer sonho bom. 

Por que muitos homens desejam mulheres sem passado – Diálogo com Georges Simenon

Georges Simenon teria pensado no modelo perfeito da versão feminina.  

“Betty – Uma mulher sem passado”, película de Claude Chabrol baseada no romance de Simenon, encontrava-se levemente empoeirado num canto daquela também empoeirada locadora. Admito ter ficado intrigado com o sugestivo título, obrigando-me a fazer uma adaptação para uma outra visão, diferente do livro e do filme. 

Betty – Uma mulher sem passado.

Teria Simenon percebido o quão revelador se faz tal título?  

Uma-mulher-sem-passado…

Oh, grande mestre do Noir, você já está aí do lado de Deus, joga um lero nele, uma conversa fiada, agiliza o nosso lado, o lado dos machos malandros de integridade moral intocável, não te custa nada. 

Joga umas Bettys cá pra gente. Se puder, enche esse mundo de Bettys. Traz logo um tsunami. 

O que? A vizinha? Impossível. 

Aquela da academia? Sem condições. 

A colega de trabalho? Piorou tudo. 

Traz aquela que não conhece nem a mim nem ninguém, a predestinada, aquela que está lá atrás do arco-íris. 

Poxa, velho Georges, não me olha com essa cara não. Daí de cima dá pra enxergar muito bem. Eu lá tenho culpa se os homens acovardaram? 

Aquela mulher que surge indefesa e assustada, pedindo informação pra encontrar a estação de metrô, pois acabou de chegar de uma cidade distante e não conhece nada nem ninguém. Essa sim. A Betty do imaginário masculino. Essa não tem passado. É prematura. Bateu com a cabeça e apagou todos preconceitos masculinos. Ela não tem ex-namorado presente que consiga estressar.  Não tem amigas chatas pra falar que  o cara se veste mal ou bebe muito. Nunca se relacionou com amigos ou parentes nossos em linha reta ou colateral até o quarto grau. Não oferece resistência. Ambos nasceram ali, nó início do encontro, pra começo  de conversa. 

Na defasada visão masculina, a mulher que mora ao lado já teria seu campo minado. É velha de guerra. Vive ao nosso redor, por mais que não percebamos. Nem ela mesma. Não é mais acaso. É conveniência. Quando se encontram, apresentam-se por mero protocolo. Um levanta a ficha do outro em questão de segundos. 

Grande mestre, note o que esses homens andam fazendo! Uma verdadeira fuga das mulheres de nosso convívio direto ou indireto, como  se temessem alguma delação, como se um “histórico” amoroso equivalesse a uma ficha de antecedentes criminais, como se um contato anterior fosse um pecado mortal, uma passagem sem escalas para a condenação. 

Desdenhamos das mulheres ao nosso lado para procurarmos aquela deusa onírica, aquela  vinda direto do paraíso, feita sob cálculos e medidas pontuais a nossos desejos machistas.   

Pegar? Sem problemas. Uma, duas,  três vezes…

Levar pra cama? maravilha!

Criar vínculos e sentimentos maiores? – Opa, calma lá! Você é ex do cunhado do amigo do meu vizinho? Já ficou com o primo do enteado do filho do Zé da padaria?? Dá licença, já deu minha hora…

E desaparecemos. De ego ilibado e coração vazio. 

Muitas vezes não cedemos a uma iminente e eminente história de amor por medo de reações e de olhares tortos. Por receio de pessoas que sequer conhecemos. Colocamos o orgulho à frente do amor. Assumimos certos medos por demais desnecessários. Quase que um trauma. 

Assumir um compromisso é prestar contas com o futuro. Jamais com o passado.

Preocupar-se com o que ainda não aconteceu e quiçá acontecerá é pura falta de ocupação. O relacionamento não deu certo? Não deu, oras. Que seja por todos os motivos que caibam nesse mundo, desde briguinhas triviais a dolorosas discussões, mas nunca por razões criadas em nossos devaneios machistas. Afinal, alguém por aí já ouviu falar em amor sistemático?

Georges, Georginho se já me permite, desculpe perturbar seu sono eterno. Perdoe-me por aludir sua Betty às Bettys do imaginário masculino. Juro que foi só um desabafo. Morreu por aqui.