Sobre quando sou dominado por aquilo que não dominei

Neutro. Comportado. Rapaz sereno, tranquilo, de pensamento longínquo e aparência comum. Neutro. Ocultado entre tantos outros, espreita calmamente de sua posição. Aparece quando lhe é conveniente. Surge de repente com uma brincadeira boba ou uma desculpa qualquer e logo se vai, sempre volta ao seu lugar. Sabe onde é o seu lugar, sabe esperar.

Ele cresce. A medida em que o tempo passa, as brincadeiras se acumulam e os sorrisos tomam diferentes formas. Ele cresce à medida em que as cores mudam e o sentimento se vê questionado em meio a lamentos.

Muito mais forte. Ainda sabe esperar, paciente.

Olha pra gente com aquela calma de quem quer questionar. Sabe esperar. Espera. Neutro, rapaz ainda tranquilo, agora com um sorriso esquisito continua a espreitar. Vai e vem, vem e vai, mas sempre volta para o seu lugar.

Eu acho.

Anda aparecendo com uma certa frequência. Já não brinca mais tanto, sinto que quer perguntar, mas segue esperando. Esperando pelo que? Esse sorriso debochado, olhar desconfiado, sempre acreditei que ele estava lá, mas começo a pensar que ele nunca saiu daqui.

Não acredito.

Ele ainda está aqui. O rapaz não é neutro, tomou conta de tudo, assumiu meus sentimentos, transformou riso em lamento e já não posso controlar. Convido-o a ir embora, mas insiste em ficar.

Deixo.

Deixo que fique sem saber o porquê. Sinto que preciso dele. Preciso que me diga o que sabe sobre você. É complicado, com ele do meu lado me sinto esperto. Ele está aqui, estamos amigos, juntos somos cúmplices de algo, mas ninguém pode saber. Nem mesmo eu.

Tento puxar conversa, conseguir alguma informação, enquanto busco respostas ele me devolve mais indagação. Rapaz irritado. Não sai do meu lado e não me deixa pensar. Pior. Já pensa por mim, já fala por mim, age por mim, grita por mim. Ele não sou eu, mas fica cada vez mais difícil de aceitar, cada dia mais difícil de diferenciar.

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Te quero por perto, quero tua ajuda, quero poder me ajudar, mas tenta entender. Ele me diz que você quer me levar para algum lugar onde não devo ir, diz que devo escutar, observar, que devo ficar, que não posso acreditar em nada que não seja ele. Que não seja eu. Infla meu ego. Alimenta uma falsa razão, confunde minha mente e enfraquece meu coração.

Rapaz explosivo. Já não consegue se controlar, corre riscos por motivos fúteis e sem sair do lugar. Eu já estou no meu canto, neutro, comportado, rapaz sereno de olhar longínquo e aparência comum. Neutro. Ocultado diante de mim mesmo, espreito angustiantemente da minha posição.

Tento aparecer, mas pareço não ser conveniente.

Tento, por momentos, surgir de repente com alguma brincadeira boba ou uma desculpa qualquer, mas logo me vou. Ele pediu. Está tudo sobre controle, ele disse. Eu posso descansar, ele tomará conta de tudo. Posso voltar para o meu lugar.

É confuso. Sou confuso. É estranho.

Estou lá e cá, sou ele e sou eu. Sou nós. Sou teu, sou só.

Esse rapaz já esteve aqui antes. Reconheço ele agora. Lembro de como expulsar, preciso expulsar, preciso voltar. Preciso ir até ele e mostrar seu lugar.

Irei.

Fui.

Expulsei. Assumi o trono e a meu próprio controle retornei. O rapaz voltou a ser tranquilo, lá em seu lugar. Adormecido, sim, mas nunca sem deixar de espreitar.  Extasiado pelo sucesso esqueci de reparar. Cheguei tarde, conquistei, mas perdi quem eu considerava amar. É difícil sentir e mais difícil é explicar. Entendo que cheguei tarde e que me deixei levar.

Ciúme bobo, deixei esse rapaz me controlar. Deixei que tomasse de mim tudo aquilo que mais lutei para conquistar. Espero que um dia entenda, espero que nunca esteja em meu lugar. Ele é tão calmo e sereno que é quase impossível desconfiar.

Perdão.

Sei que não teremos uma próxima vez e que sou culpado pelo que ele lhe fez, pelo que nos fez. Mesmo ele sendo eu, eu fui ele todas as vezes em que duvidei.

alan

Ninguém, além de nós

Lembro das coisas que me disseste e isso é o que tem quebrado o silêncio da tua falta. Lembro dos momentos em que a calma nos faltou e nos perdemos em nossos próprios desejos.

Somos jovens e é tudo tão novo, é tudo diferente e é tudo normal, intenso, forte e devastador. Somos cabeças duras, teimamos até onde der. Tememos, sofremos e tudo o que queremos é não demonstrar.

É esquecer.

É chorar.

Mas sem ninguém saber.

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Ninguém, além de nós, pode saber que somos incapazes, que falhamos e como qualquer pessoa normal e que podemos fraquejar. Não. Temos um ao outro, temos a nós e, mesmo assim, insistimos em brigar, em fugir, em recuar.

É normal.

Quem já apanhou tanto tem medo de voltar a brigar.

Somos jovens.

Meu desejo é de que possamos aprender a confiar. Que nos seja permitido tentar com todas as forças. Lembro das coisas que te disse e das que ouvi de ti por muito tempo irei lembrar.

alan

Sou tempestade, ela é copo d’água

Sinto, amo, vivo, grito, choro e voo tanto quanto a mocinha dramatiza nos capítulos que precedem o final da novela. Sou intenso e as vezes até eu penso ser demais. Sinto dificuldade quando não me acompanham, quando não me sentem, quando não sentam ao meu lado na poltrona do ônibus que leva a galera guiada pela emoção.

Eu sou tempestade.

Ela é quieta. Sofreu, sorriu, viveu, sentiu e voou tanto quanto o mocinho correu atrás da sua prometida nos capítulos inicias da mesma novela. É tranquila. Não é de ficar exibindo o que sente. Pelo contrário, sua face só mostra uma única expressão e, por isso, as vezes a comparam com indiferença. Coitados. O fato de não esbravejar o que se sente não significa que não sente. Só significa que prefere sentir sozinha, sem pitaco, sem interferência, do seu jeito e à sua maneira. É apenas seu o modo de sentir.

Ela é copo d’água.

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A minha inquietude chamou sua atenção e fez redemoinhar seu coração. A calmaria dela fez reduzir meu trovejar e acalmou a chuva forte que caia sob minhas emoções. Eu demorei para entender a profundidade de águas tão quietas e confesso que até hoje não entendo.

Ela demorou para compreender minha necessidade de fazer tudo tremer e tenho certeza que ainda não entende por completo. Construímos algo até aqui e em meio a muita tempestade em copo d’água fizemos a tempestade parar no copo e o copo criar a tempestade.

Tem funcionado. Tem dado errado.

Como todo relacionamento, é feito de construção, tentativa, erro e aprendizado. Cada qual sente de um jeito e tira do sentir o proveito que julgar válido. Todos sentimos, todos queremos, todos tentamos e todos erramos, mas cada um tem seu meio – único – de mostrar o que se deseja mostrar.

alan

A primeira vez em que fui para o inferno

Não era quente. Não era frio. Não era nada, mas também não era vazio. Era cheio de coisas que vazias que tinham tudo. Tinham tudo aquilo que eu não precisava ter. Não via dias, não via noites, tudo não passava de nada e lá eu estava, só, com tudo.

Parece confuso, confesso, mas eu tentava fugir daquilo que eu não sabia o que era. Ia para qualquer direção à espera não sei do que e um espaço pequeno era tão grande que dois passos requeriam dias de um esforço que não fazia parte de mim.

É complicado.

Demorei a compreender e até hoje não sei se compreendi.

Eu estava no inferno, sentia, mas não sabia dizer com clareza onde que ficava ou como chegara e com o passar desses todos que não eram nada eu mergulhava numa agonia de fantasias e histórias que, mais tarde, entendi: eu mesmo que inventara.

O inferno era dentro de mim.

Eu fui o seu senhor. O meu senhor. Nada eram os meus problemas, aqueles dilemas aos quais eu concedia a honra de me tocar e, como mágica, meus cansaços, iras, descasos e preocupações ocupavam tanto espaço que eu mesmo, imagine, fiquei pequeno.

Era pesado.

Era complicado sair e quando mais força eu fazia para empurrar, para tirar, pra sair, mais preso eu acabava por ficar. Estava ali. Sozinho. Dentro de mim mesmo e com nada além de mim pensando em tudo o que devia por fim e não pusera.

Até compreender que para sair eu deveria me livrar de todo aquele lugar levou tempo. Me livrar daquilo tudo não seria problema, eu dizia, mas o difícil é que para me livrar desse todo eu precisaria, primeiro, me livrar de mim.

Não totalmente. Não, não desse jeito.

Eu precisava do eu que me prende. Do responsável por me aprisionar o riso, por me fazer chorar, por me martirizar. Eu precisava me livrar de mim.

Eu tentei.

Consegui sair, mas voltarei para lá.

Por mais que eu consiga limpar todo aquele lugar um resquício sempre há de ficar e esse acumulo de nadas que me preenchem a mente insiste em voltar e me levar. Um dia talvez eu aprenda a lidar com inferno que é enfrentar a mim mesmo, ou talvez decida somente aceitar.

Essa foi somente a primeira vez em que eu fui para o inferno, sai, mas luto contra essa (não)vontade que me faz querer voltar.

alan

Deixa pra lá

Seis horas.

O celular desperta e tocando incessantemente tenta me fazer despertar. Pobre rapaz, não sabe que seus três primeiros horários programados só me servem de aviso. Não que eu não ouça, não acorde ou apenas os ignore. Até abro olhos, miro-os para o lado, a vejo, sorrio e volto a fechá-los.

Abro os olhos para ter certeza de que não é sonho, mas fecho-os para sonhar.

Sonho com nós dois e acordo contigo e, ah, te olhar já é o bastante para completar meu sorriso.

Jeitinho de menina, sono profundo, carinha de quem ama a princesa Elsa e vive cantando Let it Go. E canta. E deixa ir. Pequena, mas com o coração grande. Guarda para ti todas as aventuras, todos os risos e amarguras que tua intensa vida – recém começando – já pôde proporcionar e é nesse mesmo olhar que, lá no fundo, se consegue enxergar os traços de tanta coisa, de tanta história, de tanta memória.

Let it go, let it go.

Can’t hold it back anymore.

Deixa ir pequena. Deixa o pesadelo passar, deixa o sono voltar, deixa a gente dormir, deixa a gente acordar. Deixa que vá, que esqueça de voltar, deixa o que não te faz e volta para o nosso lugar. Quero que esqueça, pequena, de tudo o que não te faz corar, daquilo que não for necessário pra gente amar. Deixa ir, pequena, deixa que vá tudo aquilo que não valha a pena segurar.

Deixa pra lá.

Deixa pra lá.

Deixa o despertador chamar, esqueço dele tocando perdido nesse sentimento bom que é poder te olhar, te ver, te ter, te amar todas as manhãs ao acordar.

alan

Uma sinopse sobre o cansaço

É difícil começar. É difícil continuar. É difícil terminar.

Só não é difícil reclamar. Enquanto clamo por razões para não fazer, não faço e, ainda, permito que meus dias se limitem a nada mais do que uma longa espera pela noite e, minhas noites, uma viagem veloz de volta ao fim da fila.

Muito barulho? Reclamo.

Silencioso demais? Reclamo.

Esqueço de aproveitar os momentos e viver as histórias as quais sou exposto. No meu rosto o semblante denuncia a agonia e a luta que travo internamente. De um lado o peso de saber que estou perdendo e de outro a – já pouca – vontade de voltar a vencer.

Se chove? Reclamo.

Se é o sol quem brilha? Reclamo.

Essas gotas amaldiçoadas encharcam as roupas, inundam as ruas e levam as nuvens do céu. Em meio a esse véu de água reclamo até afogar a mágoa que trago por não saber mais para onde correr. O sol ilumina, clareia, aquece, mas cega meus olhos com um brilho tão forte que minha mente já quase esquece que posso muito mais do que reclamar.

Levanto indisposto, deito cansado. Tem dia que calço os pés trocados e saio todo errado antes mesmo do dia começar. Tropeço na escada, piso na água e vejo a catraca do ônibus trancar com a minha mochila lá. Não crio, não penso, não escrevo, não vejo, apenas danço conforme a necessidade exigir e a (falta de) vontade mandar.

De arrasto.

Não sou eu no comando. Os dias findam, as semanas se vão, o mês já não é o mesmo, mas continuo com o aperto no coração. Coisa estranha é estar cansado de tudo sem ter feito nada. Coisa estranha é acordar de madrugada com a cabeça lotada de coisas que não sei o que são.

Eu, cansado, escrevo sobre nada pois nada me serve de inspiração.

Floreio e chego à conclusão nenhuma, converso sobre pauta alguma e não faço ideia sobre o que tenho pensando. Provavelmente tudo se resuma ao mesmo nada que tenho escrito, já que nada tenho dito em função de coisa nenhuma.

alan

Maré de um sentimento estranho

Geralmente meus escritos são sobre coisas que vivo, que anseio e que sinto naquele exato momento. Acredito ser mais fácil escrever em meio ao turbilhão, passar as ondas de sentimento para as letras e ver se elas chegam à costa de quem lê com a mesma força. Um exercício de reflexão, de autoconhecimento e entendimento a respeito daquilo que sinto e faço. Vinha funcionando, até então.

Há dias ansiava por colocar em letras aquilo que apertava meu coração.

Pense em um surfista amador em uma praia com ondas maiores do que as que ele é capaz de pegar. Então. Eu, surfista, só assistia as ondas passarem com o desejo de pegar, mas com aquele sentimento de que não posso. Aquilo me faria mal e eu sabia.

Me permiti pensar, sozinho.

Me permiti amar e seguir amando por todo o caminho.

A quem lê peço perdão pelo vacilo, o sentimento ao qual me refiro, mas esqueci de esclarecer é o ciúme. Palavrinha nojenta, tão comum. Sei sequer quando a aprendi, mas sempre me permiti usar. Segundo o dicio.com (primeiro site a aparecer quando procurei por “ciúmes dicionário” no Google) a definição de ciúmes se dá com o seguinte:

s.m. Emulação, inveja; zelo de amor.
Pesar, despeito por ver alguém possuir um bem que se desejaria ter: o ciúme o atormenta.
Receio de que a pessoa amada se apegue a outrem.

RECEIO DE QUE A PESSOA AMADA SE APEGUE A OUTREM.
Doeu.

Réu confesso. Naquela noite o astro fui eu. Num linguajar popular: dei um show.

A cansei e canso todas as vezes em que permito que minha mente – um tanto quanto criativa – me atormente e simule situações, visões e me bombardeie com emoções que me façam desconfiar.

Acreditava ter levado tempo para conquistar seu amor, mas lembrei que o que temos é construído entre dois, por dois. Foi, sim, tanto tempo quanto um surfista leva para chegar a um nível superior ao amador, mas quando chegamos, amor, cada onda tem valido a pena.

Cada mergulho depois de um erro, cada queda e cada pico de adrenalina alcançada. Tudo tem valido a pena quando olho ao redor e vejo o suor de dois corpos quase incandescentes. Eu erro, sinto ciúmes, amo e aprendo em cada segundo que somo junto dela e, assim, munido da vontade de ter e continuar tendo sigo querendo que seu rosto seja a primeira visão do meu amanhecer.

alan