Lili, a boneca: uma história de amor e horror. 

Você já imaginou ter a sua vida inteira programada antes mesmo de vir ao mundo? Você já imaginou levar uma vida subjugada, submissa e ainda agradecer por isso? Pense em como seria nascer em um mundo onde seus desejos, suas vontades e seus sonhos estivessem completamente condicionados a uma voz, a uma presença que ditasse cada um de seus passos? Lili sabia… Talvez você não compreendia, mas esta é uma história amor (amor?). Sim, amor, desses avassaladores, quentes, intensos, insanos e torturantes! Ah, Lili, se tu soubesse… não amaria mais ninguém. Mas não se culpe, não, não se culpe. Se tem uma coisa que você carregou na vida, o nome disso é culpa. Culpa de ser quem você é; culpa de existir; culpa por não ter feito faculdade; culpa por amar; culpa por transar antes dos 18. Vagabunda, te chamam hoje, mas não sinta culpa… Você agora descansa, Lili. Vou garantir que todos, até o fim desta história, não te julguem. É minha palavra de honra!

Antes de contar esta triste história de amor, gostaria que todos conhecessem Lili. Liliane Dos Reis Silva: Dos Reis porque a mãe era católica e Silva porque foi a única coisa que herdou do pai que nunca viu. Mas não importa; quantas meninas, iguais a ela, também nasceram de chocadeira? De mãe solteira, de mulheres “da vida”? Realmente não importa. Você conheceu Liliane? Certamente você a conheceu, só não está se lembrando. Quando foi que Liliane se tornou Lili? Isso é um mistério, mas desde pequenininha era chamada assim. Bonitinho o apelido, não acham? Por falar em infância, que tal começar essa história por aí?

Bem no iniciozinho, quando ela ainda não existia como ser – se é que algum dia ela existiu – , tudo era cor de rosa: tapete rosa, cama rosa, lençol rosa e tolha pink… Tudo muito bonito, adornado, colorido, vivo (vivo?). Coisas de menina, sabe? Só que Lili era um pouco estranha, às vezes queria brincar de carinho com os irmãozinhos – sim, Lili teve dois irmãos homens, orgulhos da casa: um médico e outro advogado. Ela não estudou é verdade, mas terminou o ensino médio e ia bem como garçonete. De tanto repetiram que carrinho “é coisa de menino”, que “você não pode brincar com isso”, só restaram as bonecas. Durante muito tempo elas foram companheiras fiéis, inseparáveis.

Lili teve várias: crianças, adultas, adolescentes, todas lindas, loiras, magras e brancas como neve. De tanto conviver com bonecas, Lili desejou se transformar em uma. Ela queria porque queria ser uma boneca linda, de cabelos loiros, óculos escuros na cara, roupa rosa e mais uma serie de adornos. Ah, Lili, eu não te culpo, você não sabia que vida dói e que nossos sonhos são pulverizados da noite para o dia…

Em uma manhã qualquer, Lili, nos seus dozes anos, acordou e percebeu que uma enorme mancha vermelha agredia seu lindo lençol rosa impecável. O mundo dela caiu, a pobrezinha ficou arrasada. As bonecas olhavam com nojo e desprezo; a mocinha já não pertencia mais ao mundo delas. Arrasada, chorou, chorou e sangrou mais. Desesperada, pediu alento para a mãe. A mulher ficou preocupada, sentia que sua menina, sua princesinha estava indo embora…

Lili não se abateu, não desistiu do sonho de ser boneca! Foi em frente, aceitou que era agora uma nova categoria de boneca, uma boneca com seios, cílios grandes e de salto alto. Não apenas a moça havia notado que estava diferente: os coleguinhas (meninos) também notaram. Linda, jovem e com cara de anjo, não demorou muito para despertar interesses para além dos portões da escola. Ela sentia o próprio corpo se transformando, como uma lagarta que se transforma em borboleta. O que não sabia é que junto com essas mudanças, novos desejos, novas aspirações iriam também lhe fritar na pele. Os peitos inchavam, coçavam e ficavam mais sensíveis ao toque; as partes pudendas tornaram-se peludas, com aspecto elástico. Lili sentia vontades estranhas, se acariciava sozinha, mordias os lábios e sentia a nuca arrepiar.

Não demorou muito e a nossa boneca já não era mais “menina”, era uma mulher completa. Foi Paulo quem ensinou a ela as maldades da vida, foi o primeiro homem (homem?) que ela teve. Doeu, doeu muito, ardeu, sangrou, não foi prazeroso, mas ela se manteve firme até o fim da transa. Aos poucos, Lili foi encontrando o jeito, já não doía mais, mas também não era gostoso, na verdade nunca foi. Aos 15, depois das diversas aventuras na cama, decidiu que seria outro tipo de boneca; uma boneca dessas que se encontram no sexy shop é o que queria ser. Mas não decidiu isso assim do nada: depois de levar uma sova de Paulo, aquele a amou pela primeira vez, decidiu que só daria prazer e dor aos homens, mas amor jamais!

A mãe descobriu a história e a colocou na rua; disse que “não sustentaria vagabunda”. Mas Lili é guerreira, não desistiu de ser boneca. Foi direto para casa de uma amiga, mas logo saiu de lá terminou num bordel. Lá aprendeu o que é a vida: tomou porrada, porre, levou porra na cara, mas aprendeu. Sabia roubar carteiras, fazer os caras gozarem rápido para descansar entre um programa e outro… e muitos outros truques que só ela conhecia.

Cansada da vida de puta – era assim que a chamavam, mas não sabia por que – decidiu mudar de vida, recomeçar. Conheceu um boy numa balada, os dois treparam e logo estavam juntos, morando num casebre fudido na periferia. Sentiu algo parecido com felicidade, mas não durou muito e em pouco tempo estava em pé de guerra com amásio. Cachaceiro, Zé – que era pedreiro – sempre chegava mamado. Numa quinta-feira qualquer, Zé cismou que a mulher o traía e decidiu que iria “sapecar bala naquela vaca”. E quase conseguiu, mas Lili era esperta. Quando o marido apontou o revólver, abriu o berreiro e pediu pelo amor de Deus que não a matasse, que o amava loucamente, que sem ele não poderia viver. Como todo corno (sim, ele era corno, não estava apenas cismado) desabou em prantos. Foi nesse momento em que ela rasgou o bucho do safado com um canivete velho que trazia nos peitos. Torceu, torceu sem dó e viu a alma do desgraçado se apagar nas retinas dele… Chorou, chorou muito, mas já estava feito, restava agora fugir e foi que fez.

Lili agora era criminosa, criminosa antes dos 18, vagabunda desde os 15 – assim diziam. Um dia, na rua, olhou pro céu e xingou o desgraçado que a criou e assim a concebeu para o mundo. Uma mulher que só quis ser boneca, que só quis se enquadrar dentro daquilo que viu e ouviu a vida toda! Por que, Lili? Por que, Lili? Por que te fizeram assim? Já não chorava, estava apenas em estado de choque.

Lili não foi boneca como sempre sonhou: foi morta, brutalmente assassinada, esquartejada. Não teve uma morte física (por mais que desejasse), teve uma morte em vida, ainda no ventre. Antes de nascer foi assassinada pelas vontades compulsivas da mãe, esquartejada pelos padrões, trucidada pelo olhar emborrachado das bonecas e das coleguinhas estereotipadas. Lili não teve vontade, não teve prazer, não teve sorriso, só existiu como uma figura bonitinha, objeto de prazer e nada mais. Ah, Lili, nesse seu velório, não tenho nenhuma palavra que possa te confortar – não te garanto nem mesmo o céu, Lili!!! Eu sei, você também conheceu a Lili, sim, puxe na memória. São muitas “Lilis” por aí, basta olhar. Mortas em vida, ou mortas em alma, não importa: sempre há uma Lili entre nós. 

O amor é um sentimento tão lindo.

Sabe Zé, pensando hoje eu fico impressionada com minha força. É incrivelmente maravilhoso ter passado por um inferno nos tempos passados e hoje estar aqui, mais mansa, mais leve, de bem com a vida e tudo o que nela se faz presente.

Eu sou forte, Zé. Eu sou tão forte quanto aquela árvore que balançou em meio à tempestade, mas continuou ali, firme. Como pode? Depois de ser ferida da pior maneira possível, pela mesma dor, dia após dia, eu estou aqui, liberta, solta, feliz. Eu sou forte Zé. E eu não mereço mal algum.

Zé, hoje eu vejo ele com ela, envolvidos entre aquela nova história de amor, e eu espero que ele esteja imensamente feliz e satisfeito. Porque com o tempo a gente aprende que mesmo com a dor, o amor é lindo. Seja entre eles, entre o casal da padaria, o filho da Dona Maria e seu novo amor. Entre a Joaquina e a Ana. O amor é lindo. O amor tem que ser vivido. O amor precisa existir pra dar cor ao mundo. O amor. Entre todas as formas possíveis. Não importa onde, quando, entre quem ou o que for: se há amor, é lindo. Simples assim.

Foi isso que me deixou forte, Zé. O tamanho da minha vontade pelo amor entre todos os cantos do mundo. Eu quero que todos se amem. Apesar de todos os pesares. Apesar do amor já ter me machucado. Eu quero que todos sintam a magia de por alguns segundos perder o chão. E eu preciso ser forte todo dia pra não esquecer nunca que eu não devo desistir. Eu preciso estar sempre aqui, firme e forte para amar novamente. Pois o amor é um sentimento tão lindo. Eu o quero sentir novamente. E eu sou forte. Eu espero. Um dia o amor chega tomando conta de tudo que há em mim. Enquanto isso, eu fico feliz por todo o amor que vejo por aí. Pois o amor… Ah, é um sentimento tão lindo. O mundo precisa dele.

IMG_7288

E ele veio com tudo

Era um momento qualquer, um dia qualquer e um lugar qualquer. E ele veio com tudo. Em um momento inesperado, ele me tomou como um todo. Ah, o amor. Vi-me dominada por aquela felicidade intensa de começo-de-um-tal-de-amor, sabem? E está aí a graça. Fazem centenas de dias, e a felicidade em tê-lo aqui continua a mesma. Essa felicidade intensa, tão intensa… Essa mesmo, essa de dar pulinhos, de se ver sorrindo do nada, de se perder em pensamentos felizes.

Eu encontrei o amor e a felicidade juntinhos, e comigo eles resolveram andar. Lado a lado.

Eu o amo tanto. Amo aquele jeito, o volume daquela voz, aquele sorriso. Amo o toque daqueles dedos sobre minha pele. Amo o eco de nossas risadas juntas pelos corredores do prédio verde. Amo aquelas manias estranhas. Amo acordar com aquele beijo de bom dia. Amo aquela calmaria em meio a todo o caos da vida.  Amo aquele resto de café que ele deixa na caneca. Amo aquelas birras.

Amo tudo nele. Eu amo o amor e a felicidade que ele trouxe pra mim. Amo aquele coração enorme e amo fazer dele a minha casa. Dizem que todos tem um lugar no mundo. Se for assim, o meu lugar é ao lado daquele coração, pois ao lado dele o meu se torna pleno e manso.

Ah, ele veio mesmo com tudo. Rápido, tomando conta. E permaneceu. E que permaneça… Mais e mais. Por toda vida.

IMG_7288

Cabelo curto, um ato de resistência

Nunca pensei que um corte de cabelo me faria tão bem. A gente corta, pinta, quer sempre mudar, porque a gente se ama e quer sempre estar de bem consigo mesma, além de gostar de experimentar trezentas coisas novas que façam nos sentir renovadas.

Eu cortei o cabelo curto e isso mudou a minha vida. Mudou porque é prático e eu nem preciso pentear, foi uma facilidade pra esse pouco tempo que a gente já tem e usa contando os minutos no ponteiro do relógio. Diminuiu a uma hora que eu usava pra ficar pronta antes de sair. É lavou, secou, tô pronta.

Mas, cortar o cabelo, mudou muito mais o meu modo de lidar comigo mesma, a minha relação entre mim e quem eu sou. Um empoderamento fascinante. Eu me sinto maravilhosa todos os dias porque homens me olham como se eu estivesse pecando, como se fosse um erro, como se eu quisesse mudar as regras que foram impostas a mim. E quero. Afinal “Cabelo curto igual de homem”, eu respondo: “Cabelo curto de mulher! Que não tem medo de rótulos, mas que está cansada deles. Sou livre demais pra seguir um padrão!”.

Já percebeu que um cabelo curto é tão polêmico quando nem deveria ser? Você só quer a liberdade de escolher, de deixá-lo como quiser, de não se render ao consumo, às horas de chapinha, ao preço do shampoo mais caro, mais americanizado, capitalista, que te faz comprar, comprar e comprar.

Cortar o cabelo curto é rever padrões. Padrões de beleza, de consumo, de liberdade, de poder. Cortar o cabelo é sentir-se cada dia mais mulher, bonita, que não esconde o rosto à luta.

Você não precisa ser aprovada, não precisa de um aval da sociedade de que o que você escolheu serve para o mundo, para os conceitos, para a “moda”. Você só precisa sentir-se bem e feliz com a conquista que a tesoura mágica trouxe para a sua vida. E você não estará menos completa por isso. A sua feminilidade é tão forte que não se abala por uma simples mudança, muito menos por uma opção. Cortar o cabelo curtinho é um ato de resistência, de que precisamos incomodar aqueles que nos rotulam por isso e constranger quem ousar dizer que isso nos torna menos mulher. Ser mulher é muito mais que cabelo, maquiagem e depilação. Ser mulher é estar à frente de todas as adversidades e poder enfrentá-las de peito aberto, sorriso no rosto e cabelo curto, se quiser, quando quiser. A regra é fugir às regras, aliás: meu cabelo, minhas regras!

IMG_7098-1

Carta para um amor que se perdeu pelo caminho

Pode ser que você nem se lembre que ainda possui uma caixa de correios, mas ainda prefiro regar a esperança de contar com a ajuda do destino para te colocar novamente em meu caminho. Mas também já pode ser tarde demais. Talvez você já tenha se encontrado em caminhos onde ninguém vai te esperar no final, vai saber… Eu só queria que você soubesse que eu continuo por aqui, no mesmo lugar, no mesmo endereço e com a velha esperança de que você chegue para ser o que nenhuma outra pessoa foi.

Não deixe que o medo de amar novamente te impeça de chegar até aqui. Eu também já fui assim, e em vez de evitar que eu não me machucasse novamente, eu só colecionei cicatrizes que apareciam quando já era tarde demais para me arrepender por não ter arriscado. Eu sei que as pessoas nos confundem, e que quase não existe mais terra firme nesse mundo de sentimentos que se perdem com o passar do tempo. Mas e se a terra não for o nosso lugar? E se tivermos que tirar os pés do chão para nos aproximarmos do que está a nossa espera?

O amor necessita de quem o enxerga com esperança. Não desista por ter se decepcionado, não tenha vergonha de ter quebrado a cara várias vezes; pelo contrário, junte os cacos e recomece, não abrir mão do amor não é insistência, é coragem. E foi essa mesma coragem que me levou a escrever para você, pois mesmo que você não leia, mesmo que essa carta se perca pelo caminho, a minha esperança é que você ainda tenha coragem suficiente para perceber que, se der mais uma chance para o amor, você não estará sozinho.

 

Com amor,

 

você sabe quem.

Assinatura Neto Boteco

Ele tinha outra, não tinha?

Assim como o sol que invade nossas retinas todas as manhãs, a verdade sempre arruma uma forma de aparecer. E vai doer pra caralho ao saber de tudo que eu sei pequena, mas por isso eu aqui estou com coração intacto pra te mostrar que o tempo toma conta de tudo se você se permitir. Talvez agora não existam palavras para curar esta dor insuportável que invade teu corpo sem pedir permissão. Então chora sim, menina. Chora e deixa as lágrimas derramarem este rio de tristezas que teu peito não consegue segurar. Chora, pequena. Rasga as cartas, queima as fotos, quebra os vidros, destrói os quadros, mas mantém teu coração intacto.

Vai doer moça, talvez a dor perdure por um tempo, e se foi amor de verdade, vai doer mais um cadinho, entende? Mas o coração aguenta. Ele já passou por tanta coisa, não foi? Logo logo ele – esse rapaz – só vai ser mais um sorriso bonito entre tantos outros risos sinceros mundo afora. Tua vida não se resumia a ele, pequena, isso eu posso lhe jurar. Então, assim que teus olhos secarem e a tristeza tiver se despedido do teu coração, é seu dever – apenas seu – colocar um sorriso no rosto em meio a tudo isto, combinado? Sorriso é terapia pra tudo menina. Mas você já sabe. Sua mãe já sabe. Eu sei. Até teu porteiro sabe.

Ainda tem aquela festa pra ir com tuas amigas. Tem aquele vestido novo que nem provou ainda. E sei que quando você coloca um sorriso o mundo se torna um lugar mais alegre pra você e quem anda ao teu redor. Ainda tem tantos braços querendo dividir abraços. Vai por mim, enquanto você chora por um cara, há mil outros por ai afora querendo te fazer sorrir.

Toda esta dor vai passar pequena, e você vai saber quando for a hora de dizer adeus à tristeza e de recomeçar suas alegrias, pois o coração se faz de bobo, mas sempre sabe a hora de sorrir novamente. O tempo passa e a gente aprende que, infelizmente, nem todos são o que dizem ser. Então precisamos passar por algumas decepções para poder se encontrar a felicidade. Afinal, os erros do passado são lições para o futuro.

Ainda tem tantas histórias pra serem contadas, menina. Tem tantas alegrias pra se viver. São tantos sorrisos pra dividir. Ainda tem tantos momentos e instantes da vida que serão guardados eternamente em tua retina.

Então põe aquele vestido novo. Cobre teus lábios de vermelho-pecaminoso. Banha-se em teu melhor perfume e não farrapa com tuas amigas desta vez. Esbanja um sorriso no rosto de oito graus e…

O resto pequena, você sabe melhor do que ninguém o que fazer.

Pedro

Amor, hoje não quero conversar.

Não, meu bem. Não tem nada de errado contigo. Muito menos comigo, com a escola, com o trabalho ou com minha família. Não levantei com o pé esquerdo e nem tive pesadelos. Não vi nada que tenha me deixado com ciúmes ou irritada. É só que hoje eu não quero conversar.

Quando eu chegar em casa, não me faça mil perguntas, não tente me entender ou consertar o que não foi estragado. Se tu queres mesmo me ajudar, então que o faça: assim que me ver entrando pela porta, me abrace. Mas não aquele abraço de “oi, como tu tá?”, eu quero aquele abraço de “agora tu estás segura”, transmitindo a paz e o conforto que só tu me proporciona. Mesmo assim, espero que não pareça desfeita da minha parte mas, em algum momento, eu vou me desfazer dos teus braços e ir pro quarto. Talvez fique um pouco deitada, em silêncio e depois vá pro banho. Mas eu vou voltar. Já de pijama, cabelo molhado e uma carga de perguntas nas costas, eu vou me acomodar no teu peito. Vou procurar por asilo, carinho, respostas… E tudo isso eu vou achar sem nenhuma palavra. Porque hoje, amor, eu não quero conversar.

Ao invés de te fazer companhia eu vou me perder em mim mesma. Não adianta falar comigo, querer saber das contas ou contar sobre o novo cão da vizinha, eu posso até estar olhando pra ti, mas minha cabeça vai estar em mim. Não queira também optar por me ignorar. Tenho consciência que não seja tão fácil de entender o porquê da pessoa que tu amas não querer dialogar, mas desde o princípio eu te avisei que nunca foi fácil conviver comigo.

Difícil não quer dizer impossível, amor. Se tu souberes transmitir o aconchego que necessito significa que fiz a escolha mais-que-certa em amar-te. E caso tu não conseguires fazer o mesmo, tudo bem, só significa que tu és humano. Desde que hoje tu me deixes quieta pra acalmar essa batalha violenta acontecendo aqui dentro, tudo vai ficar bem, e amanhã eu te prometo que iremos conversar.

bobsin

Uma história sobre o nada

Somos muitos os seres medíocres, ou pífios, espalhados sobre a imensidão terrena. Divagamos sobre a catástrofe de existir; mentimos para sustentar a vida. Minha janela, cercada por quatro paredes de concreto compacto, não vê o sol faz tempo. Acostumado com as sombras, sempre deixo as cortinas fechadas – talvez os ácaros que ali residem sejam o que há de mais vivo nesse lugar. É impressionante a capacidade que temos de nos adaptar a baixeza das coisas, de nos adaptar a insuficiência da vida. Aceitamos o “mais ou menos”, o “tanto faz”, sem um pingo de luta, de resistência. E a vida não perdoa: desafia, estapeia nossas fuças com força, nos empurra escada abaixo, mas levantamos, batemos a poeira, fingimos que nada aconteceu e seguimos em frente… o problema é que sempre em direção ao nada.

Há muito sou continuo de um banco público, mas os métodos, os números, as equações, o cartão de ponto, a repetição enfadonha da função me faz ter nojo da vida burocrática e tributável. Um sonho que cultivei desde os tempos de faculdade, agora é meu tormento. De que me serve agora o meu projeto de vida? Do que adiantou planejar os meus dias com antecedência? De nada! Não ganho mal, mas não sou rico; não trabalho muito, mas poderia trabalhar meio período; tenho plano de saúde, mas estou sempre doente…

Já na meia idade, não carrego nas costas – para não dificultar minha caminhada – expectativas de uma nova sociedade: fui derrotado nessa guerra, mas o inimigo me deixou vivo para definhar em vida. Madalena, minha esposa, é uma mulher que admiro; o cinismo dela impressiona: distribui sorrisos e maldiz o próximo sem mudar de feição e sem mudar de cor. Eu deveria ser assim, como Madalena, afinal de contas, só a mentira é capaz de manter os laços sociais ativos. Maldita hora que despertei do limbo da existência. Antes, esse afeto não me vinha à cabeça; hoje sou massacrado pelo exercito impiedoso da consciência – como queria estar no sono bendito da mentira-social e das boas convivências.

 

 

Li ainda jovem – nos tempos em que acreditava nas coisas – que “existem duas formas de chantagem universal: a violência e o entretenimento, uma e outra servem sempre para a mesma coisa: manter o homem simples longe do centro dos grandes acontecimentos”, acho que foi Ortega y Gasset quem disse, não tenho certeza, mas minha memória não é mais a mesma. Confesso que estou incluso no pacote dos homens simples, mas não me sinto mal por isso, não, muito pelo contrário: gostaria de ser ainda mais simples do que sou agora. Queria eu acordar de madrugada, ir trabalhar, voltar de noite, dormir exausto, sonhar com o final de semana, pensar nas férias com desejo e morrer de tédio no gozo de tirá-las. Só não queria ter a consciência que tenho agora, que tortura e não deixa dormir. Estou farto de correr atrás de uma saída para tudo!

Voltando pra casa, dia desses, reencontrei Catarina – um amor antigo, mas que ainda traz sentimento. O tempo parece não ter passado para ela; fiquei sabendo que teve netos, que se divorciou e vai “muito bem, obrigada”. Catarina é diferente de Madalena, me parece mais viva, mais independente e cheia de sonhos, apesar de estar, assim como eu, caminhando para a velhice. Tem o espírito jovem, no entanto, ter um espírito jovem não te torna mais feliz que os demais, talvez isso só te torne mais bobo, mas esse também não é o caso de Catarina. Como não nos víamos há muito, resolvemos tomar um café, na Pracinha do centro e falar sobre o tempo passado. Imaginei que o nosso antigo relacionamento estaria de novo em pauta, mas isso nem passou perto da boca dela. Terminamos a conversa a frio, com a sensação de que nunca mais um desejaria ver o outro.

O mundo é mesmo uma lástima, uma desgraça que definha diante dos nossos olhos, basta olhar para as crianças famintas da África, as mulheres estupradas dia após dia. Santo Deus! Não viverei mais nesse mundo! Recuso-me a fazer parte deste circo de horrores criado por um ser divino que zomba de nós a cada esquina, que me esfrega nas barbas todo o seu poder e sua total falta de compaixão e complacência com suas criaturas – que por mais fétidas e imundas que sejam são suas criaturas! Hoje mesmo dou cabo ao meu sofrimento: assim mesmo, de corda no pescoço e tudo mais!!! Quero ver esse Deus – que se diz poderoso – me impedir. Hoje provo para ele e sua corja de cachorros devotos a minha liberdade suprema. No caminho de volta pra casa, articulava minha despedida de Madalena, de totó (nossa cachorrinha, que talvez seja de quem eu vá sentir mais falta), de mamãe, de meu irmão e de minha netinha, a quem não desejo que vivas por muito nesse mundo-cão. Próximo da entrada do prédio, uma velha maltrapilha mendigava. A mulher me agarrou com força as barras da calça e murmurou alguma coisa que ignorei. Isso não é problema meu! Que ela lide sozinha com a própria desgraça, que eu lido com a minha.

Logo que cheguei a meu apartamento, preparei meu haraquiri, cuidadosamente, escolhi local, me despedi de Madalena (sem que ela percebesse que era uma despedida), dei um beijo em totó, que percebeu que algo errado se passava comigo e repeti a ação com os demais.  Antes de concluir minha libertação, decidi acender meu último charuto, sentia que devia a mim mesmo um momento de prazer mundano antes de me despedir, momento em que uma enorme luz branca, forte e agressiva rasgou as cortinas de minha janela e deixou turva a minha visão.

No meio do clarão, havia a figura de um homem, que a princípio pensei ser o Capeta, mas era na verdade um anjo – e pelo jeito um importante! Confesso que por alguns instantes fiquei contente, mesmo que isso fosse estranho, afinal estava marchando para a morte. Conversamos:

― Por que desejas tanto deixar este mundo?

― Por aqui só há desgraça, sofrimento, tédio, cansaço, contas a pagar…

― Achas que no paraíso será melhor?

― Sim.

― Proponho um desafio, aceitas?

― Qual será minha recompensa, caso vença?

― A felicidade eterna, o amor absoluto de todos os seres do universo, contemplar a face de Deus!

― Manda! Estou disposto a rifar caro minha pele! ― Nem perguntei qual seria meu castigo em caso de derrota.

O anjo – que não revelou a mim seu nome – propôs-me passar sete dias sete noites no paraíso. Uma proposta que achei maravilhosa e idiota, tudo ao mesmo tempo. Só que, para cumprir o desafio, anjo teria de me matar, pois os vivos não habitam (mesmo no céu) o mundo dos mortos. Topei, segui em frente!

No terceiro dia de paraíso, descobri que a mesquinhez da felicidade humana não tem limites: um homem feliz (em demasia) é sinônimo de desgraça. Os muros de ouro do paraíso, as virgens que coloriam de beleza o céu e tudo que nele havia não era capaz de me alegrar. Todos, absolutamente todos sorriam, o tempo todo, parecia hipnotizados, drenados pela energia do lugar. O tédio por aqui reina… Se isso é o paraíso, imagine o inferno?

O anjo voltou, perguntou se eu queria retornar a vida, respondi sem medo de errar que sim, sim eu queria de o mundo-cão e desgraçado dos humanos e que quando eu morresse não voltasse mais para aquele lugar, nem mesmo caísse nas garras de Satã, mas que apenas me transformasse em pó, pó era tudo que desejava ser. De volta ao apartamento, trinta minutos haviam se passado e, sem perceber, eu caíram num sono profundo. Compreendi que só há redenção na vida, quando há esperança. Mas onde estava a minha?

Coloquei totó na coleirinha, fiz uma quentinha (com arroz, frango, salada e feijão preto) e parti atrás da velha que há pouco tinha pedia socorro. Minha esperança, minha redenção estava nela… A pobre coitada comera tudo com olhos felizes, que nem importei com a catinga de pinga e sovaco sujo que exalavam dela. Vi naqueles olhos negos cansados tudo que me faltara até então: compaixão! Até totó sentiu-se satisfeita com o passeio. A danadinha me resolve ainda atravessar a rua correndo! Volte aqui totó…

Silêncio, sirenes, choro, morte!

Abelardo, esse que vos falava, morreu vitima de atropelamento… O sangue quente ainda escorre pelo asfalto, enquanto uma multidão assiste horrorizada a cena catastrófica. Aquele que desejara tanto morrer, hoje deixou o mundo dos homens, das mazelas, das tristezas, das dores, mas deixou também o mundo da esperança, das gargalhadas, do recomeço… Abelardo morrera feliz, disseram algumas testemunhas. No velório, poucos amigos e familiares acompanharam o cadáver até que a última pazada de terra cobrir o caixão do  Abelardo finado, entre eles, a velha maltrapilha que recebeu dele sua última refeição, pois ela ainda espera o próximo que, desejoso por vida, derrame sobre ela um pingo de esperança!

Fim…

flavio

O fim do amor não é o fim da linha. 

Dizer adeus nunca é fácil. Aceitar o fim. Sentir saudade sem a chance do encontro. Sentir doer sem saber o remédio da cura. Sim. Porque cada um se cura de um jeito e no seu tempo. Mas, o tempo, nem sempre, é o melhor remédio. Deixar para trás todas as promessas que foram feitas e agora não serão mais cumpridas. Abandonar os sonhos feitos a dois, a casa perfeita, o futuro que parecia tão certo. Cara, como parecia certo. Esquecer um amor que parecia ser o único. Era ele. Era ele.
Fim.

Se eu pudesse pegar sua mão e te fazer entender que isso acontece. Que o fim é inevitável nem que seja o do “até que a morte nos separe”. Se eu pudesse te mostrar que o mundo não acaba com o fim de um amor, eu mostraria. Se eu pudesse te levar de volta ao passado e te dar a chance de dizer todos os adeus que você não disse, eu levaria.

Se você acreditasse que quando eu digo que isso vai passar eu sei do que estou falando. Sabe… É melhor deixar ir quem já não quer mais ficar. As pessoas mudam, os sonhos mudam e, na maioria das vezes, não é culpa de ninguém. Não é que o amor acaba. É que o amor sozinho não sustenta nada. Dizer eu te amo é bonito e soa bem, mas é vazio quando dito assim, longe de outros sentimentos, como o carinho, a admiração, o respeito, a amizade.

Muita coisa vai se perdendo no caminho do que a gente chama de amor. Por brigas bobas, desconfianças inúteis, ciúmes infundados, cobranças. O amor continua ali. Pronto pra seguir, lutar, encarar, mas se enfraquece cada vez que um sentimento fica para trás.

Se você conseguisse entender. A gente luta enquanto pode, mas chega uma hora em que a luta é só com a gente. E é inútil. A gente se cansa sem ter sentido, continua sem ter para onde ir.

Respira. Eu sei que o ar está rarefeito, mas respira. Para. Pode chorar, desaba. Todos nós já desabamos por algo e a dor de perder um amor não é menos dor que nenhuma outra. Mas, é uma dor que pode ser superada. Basta querer.

Se eu pudesse te mostrar que lá na frente vai ficar tudo bem, que a dor passa, a saudade vira uma saudade bonita e saudável, eu mostraria, mas eu não posso.

O que eu posso dizer é que o fim do amor não é o fim da vida ou da linha. Você vai ter que recomeçar, talvez voltar alguns passos e se encontrar de novo. Vai sentir doer, achar que não passa, vai ter vontade de ser qualquer outra pessoa só pra não sentir a dor. Mas, devagarzinho, dia após dia, você encontra a cura e vai melhorando. Deixando para trás todo o peso de ter fracassado em algo que era inevitável. Acredita de novo. Alguns amores parecem certos e são. Mas, são certos para ensinar algo. E, às vezes, esse algo é justamente aprender a ir embora. Então, aprende. E vai. Sem medo. A vida continua, o amor também. É só enxergar.

Seu inverno já passou

Finalmente chegou a primavera, trazendo novos sorrisos, novas flores e um amor. Um amor que deveras você nem se importou em sentir a tempos atrás, aquele amor chamado amor próprio que outrora se peregrinava no chão das ruas desertas embriagado de más companhias e sem rumo como as folhas do outono passado. Naquele tempo cinzento que você resolveu não viver, mas sim, sobreviver! Convivendo com migalhas e se alimentando de desilusões. Mas chegou o tempo de renascer, não te preocupas que algumas marcas se vão com o tempo e as que ficam te protegem. É hora de brotar, se vestir de autoestima, aprender com os erros e te permitir errar também, afinal, ninguém é perfeito. Você também vai florir, transparecer coragem e se destacar em tantas outras em aspectos únicos que toda aquela outra estação te fez mudar e lhe ensinou a enxergar melhor as primordiais prioridades. Porque assim como aquele cheiro vivo das flores do campo te invade e sacia seu ser, a esperança lhe invadirá, e isso, menina, ninguém vai conseguir tirar de você.

Se você chegou até aqui é porque é forte e nenhum inverno rigoroso ou outono incerto foram capazes de parar você, porque seu coração é grande, um pouco desconsertado, mas foi feito em altas temperaturas, acostumado (ainda mais agora) a aceitar apenas o recíproco, aquele que não machuca ou abandona, porque de gelo você aceitará aquele que vier no teu copo de whisky.

E então vera que as vezes é necessário perder para saber como vencer, mas quando você é forte pode seguir sozinho para um novo começo. Afinal, você finalmente sentiu que seu inverno longo e rigoroso já passou…