O rapazinho, apenas de cueca, se esgueira para fora do quarto da moça. Uma breve caminhada até a cozinha, um copo de água e pronto: já pode voltar.
No caminho, no entanto, dá de cara com o pai da menina. Sentado em uma poltrona e olhando para baixo, pergunta:
– E você, quem é?
– João, prazer.
– Pensando bem, nem sei porque te perguntei seu nome. Provavelmente, nunca mais iremos nos ver.
– A chance é grande, realmente.
– Minha filha só tem feito isso ultimamente. Dorme com sujeitos diferentes quase todo fim de semana. Já nem consigo mais dar bronca, aconselhar… Agora, só me resta suspirar mesmo. Errei muito na criação dessa menina.
João se aproxima e pede licença para sentar ao lado do desolado pai. Meio a contragosto por causa da cueca, o progenitor frustrado permite a movimentação do algoz e os dois começam a conversar.
– O que te faz pensar que errou na criação dela?
– Ora, veja você: ela provavelmente não tem ideia de quem é, o que faz, onde mora… Com sorte, vai lembrar seu nome amanhã.
– (Riso contido) De fato. Eu só sei que ela se chama Julia porque, quando me contou, mencionei que era o mesmo nome da minha irmã.
– E posso saber qual a graça?
– Toda! Sua filha e eu sentimos atração um pelo outro, mais nada. Evidente que poderíamos ter ficado conversando horas, nos conhecendo, trocando ideias, mas, naquele momento, tudo que queríamos era dormir um com o outro. Dois adultos que, livres e solteiros, foram fazer o que tinham vontade.
– Você falando me lembrou daquele velhinho que morreu agora pouco… Como é mesmo o nome dele? … Bauman! Isso! Sabe, essa superficialidade das relações, a efemeridade, a falta de compromisso. Onde estão os alicerces do amor numa sociedade assim?
– De fato, o conceito do Bauman é muito interessante e pertinente em nossos dias. Porém, faço apenas uma ressalva: a superficialidade não é característica própria nossa, muito pelo contrário: tornamos ela mais exposta, mais sincera e mais verdadeira.
– Como assim?
– Te explico: devo ter uns 50 casais de amigos, conhecidos. Namorados apaixonados, que postam fotos comemorando datas de aniversário de relacionamento, viagens de casal, almoços com as famílias reunidas. Até aí, tudo lindo.  Porém, não existe UM desses casais que já não tenha se traído. Eu, que nada tenho a ver com eles, sei disso. Já vi, presenciei, estive junto na hora ou soube. Que tipo de “alicerce” é esse que não resiste a uma mera tentação?
– …
– Quer mais um exemplo? Por que os puteiros e casas de massagem estão sempre lotados? Já viu a quantidade de cara casado que vai lá? Você mesmo deve conhecer bastante gente que frequenta, senão o próprio senh…
– Respeito, rapaz. Não abusa.
– Desculpa. Enfim, estávamos acostumados a “relacionamentos sólidos” que, em sua maioria, eram compostos por traição, mentira, abuso, comodidade por si só… Tudo isso porque estamos envoltos nessa concepção monogâmica fechada, que não permite o diálogo, a contraposição de ideias.
– Hmm…
– Hoje, cada um monta a relação que quer ter de acordo com o seu próprio livre arbítrio. Não dizem que o amor mais importante é amor próprio? Então, hoje as pessoas estão se amando mais. E quando você se ama, torna-se livre, até mesmo para amar outra ou outras pessoas. Se ser superficial é ser honesto com quem se relaciona, prefiro viver na superficialidade das minhas escolhas do que agonizar nesse simulacro de amor romântico idealizado que tanto deixa as pessoas tristes e frustradas.
– Rapaz… Olha, você me fez repensar até certas coisas dentro do meu casamento. Ficaria feliz se pudéssemos nos ver de novo.
– Isso eu não posso garantir. Sendo bem sincero.

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Gabriel Cassar

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