Naquela noite eu senti que podia, enfim, ter te esquecido. Foi por isso que vesti minha melhor camisa, me banhei no meu melhor perfume e ensaiei na frente do espelho o meu melhor sorriso.

Naquela noite, eu queria te esquecer provando o sabor de outras oportunidades.

Os amigos passaram aqui em casa e, quando apaguei a luz e tranquei a porta, pensei em quanto tempo fazia que eu não saía assim, sozinho, sem saber ao certo qual era a programação. Justamente eu, que tanto amava a rotina, sucumbia à boemia por ter esgotado todas as opções anteriores.

Antes, eu mergulhei no fast food e nas noites viradas vendo séries. Antes, eu ouvi aquele disco que a gente tanto gostava até decorar cada arranjo. Antes, eu chorei até a última lágrima do estoque dos meus olhos para ter certeza que eu tinha batido no fundo do poço e que, agora, só podia subir.

A noite foi agitada. Foram muitas luzes, muita música, muita bebida, alguns sorrisos desconhecidos e uma consistente sensação de alegria artificial. O álcool nos enche de ilusões ainda maiores que aquelas que fabricamos na realidade.

Eu sabia da banalidade de tudo que estava vivendo naquelas horas.

Eu sabia que toda aquela gente em roupas de marca e rindo muito de piadas sem graça provavelmente estava tão infeliz quanto eu. Se eu perguntasse, eu sei que negariam até o fim. Ninguém quer assumir o próprio infortúnio.

Ainda assim, eu consegui deixar a música, a bebida e algumas promessas precipitadas de amor eterno me preencherem por alguns minutos. Em um ato inédito, consegui me concentrar mais no que estava fazendo e menos no que me esperava lá fora.

O sorriso que era forçado começou a ser natural, a música que era ruim passou a ser boa, um eu que eu não conhecia parecia estar despertando.

Perto das seis da manhã, voltei para casa como um adolescente depois da primeira festa. Parecia que me renovava a cada passo que dava. Rejuvenescia cinco anos a cada degrau vencido. Retomava o controle a cada volta no trinco da porta.

Bastou entrar para tudo voltar ao normal.
As luzes da noite não substituíam o farol que vinha dos teus olhos. A roupa cara com bebidas importadas não substituía o moletom surrado com a panela de brigadeiro.

Acima de tudo, nenhum outro abraço chegava aos pés do teu.

Não adiantava submeter meu corpo às batidas da música eletrônica se, antes, um único olhar transformava meu coração em pedal duplo de heavy metal.

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Júnior Ghesla

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