Melhor ao som de “Café”, A Máquina e o Homem

 

O dia ia ser cheio de reuniões complicadas com gente chata. O trabalho não ia bem, aliás. Já tinha consciência formada de que precisava sair do emprego, mas não podia. Os boletos chegariam e eu precisava ser responsável. Eu não era mais nenhuma criança para cometer imprudências.

Minhas noites eram vazias. Já não estava na idade virar a madrugada e ir trabalhar direto. Os trinta se aproximavam e a energia se esvaía com rapidez. Eu chegava do trabalho, via mais meia dúzia de notícias tensas e ia dormir.

Eu tive um único amor, sabe? Daqueles de verdade, de tremer as pernas e o coração cada vez que meus olhos encontravam os dela.

Naquela manhã, eu entrei apressado na padaria e pedi café e qualquer lanche. Abri o jornal na página de economia e comecei a arrancar os cabelos. O café chegou e eu sequer olhei para a garçonete para agradecer.

Exausto antes mesmo de começar a jornada, levantei a cabeça e passei as mãos nos olhos como quem desiste quando vê o tamanho real de um problema.

Foi o momento que a vida escolheu pra me presentear com o que ela faz de melhor. O inesperado.

Um vento quente de verão tomava o ambiente e balançava as cortinas. Na dança dos tecidos, a bailarina mais improvável apareceu.

A neblina que saía da xícara encontrava a minha visão turva e incrédula.

Oito anos depois.

Ainda mais bonita.

A dona dos meus pensamentos, aquela que eu prometi a mim mesmo que nunca perderia. Os anos tinham passado, é verdade, mas ela continuava linda como sempre. Eu é que tinha mudado. As rugas de preocupação acumuladas só com coisas que não importavam tinham me transformado num jovem senhor.

Meu celular começou a tocar desesperadamente. Clientes queriam saber como eu contornaria mais um problema, mas nada mais importava.

Minhas pernas ganharam vida própria e quando percebi, minha xícara e eu já estávamos perto dela.

Ela levantou os olhos do jornal assustada, mas o susto virou ternura.

Ambos estávamos diante de um pedaço distante do passado.

Eu movido pela saudade.

Ela pela nostalgia.

Pedi licença para sentar. Balbuciei palavras desconexas que intencionavam um pedido de perdão que ela não entendeu.

Foi ela que, com um abraço, disse tudo o que precisava ser dito.

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Júnior Ghesla

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