Seu pedido veio certeiro:
– Me deixe em paz!
Dito de modo firme, com os olhos marejados de lágrimas, a voz embargada de um choro soluçado de quem acabara de se recompor. Por alguns segundos, a minha única reação foi de me sentir paralisado dos pés à cabeça, sem compreender ainda aquele rompante exaltado em sentimentos tão bagunçados vindos dela.
Por um instante olhei em direção à saída de sua casa. A porta entreaberta permitia que uma brisa suave invadisse a sala. Estávamos a sós ali. Recém chegados de um turbulento afastamento entre os nossos caminhos. Era como se o mundo de ambos houvesse virado de ponta cabeça e, mesmo que nossos olhos, corpos e corações implorassem um pela presença do outro, o que se passava dentro de nós precisava reencontrar seu equilíbrio. Equilibrar-se por dentro para permitir-se do lado de fora.
– Eu só quero que você me deixe em paz…
Sua voz continuava embargada, em um tom mais baixo e os olhos ainda fitando os meus. Havia ternura neles, mas havia também medo. Era um pedido de socorro, como se estivesse quase entregando os pontos em uma guerra longa e cansativa contra um mundo que tentava, a todo custo, derrubá-la. Ela é uma das mulheres mais fortes que eu conheço. Parecia se vestir todos os dias com uma armadura pesadíssima para enfrentar mais uma batalha. Se escondia atrás de um sorriso largo, mas o peso dessa máscara começava a deixar claros sinais de que algo não estava bem. Daí então me abraçou e não conteve as lágrimas.
– Por favor, – voltando a soluçar – só quero paz…
Eu já tinha entendido. Quando decidimos nos afastar, a ideia de que distantes poderíamos nos recompor e voltarmos mais fortes parecia ser a melhor opção. Mas ali, frente a frente, vimos que estávamos errados. Seu pedido nada mais era que um desejo de ser resgatada de um abismo que não parecia ter fim. Um abismo que eu também tinha me jogado e não conseguia mais sair. Juntos seríamos mais fortes para enfrentarmos nossos medos. Juntos teríamos, um no outro, o nosso porto seguro. Seu pedido de paz nunca foi para eu deixá-la partir, mas um pedido para ficar e acalmar todo o seu caos.
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Vitor Vilas Boas

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