A chuva cai lá fora e o teu barulho me acalma mais que um bom comprimido contra ansiedade.
Até que, como uma visita inesperada, você chega – e não é de mansinho, mas arrombando a porta mesmo.
Não precisa de convite, não preciso nem chamar pelo teu nome, você sempre vem.
Tomo uma dose de loucura e, de repente, me deixo levar pela tua presença.
Te olho com olhos famintos, grudo minha boca na tua como se elas fossem uma só e envolvo meu corpo no teu com a fúria de todos os anos dessa vontade – quase que irracional – que eu tenho de você.
Me entrego, me queimo no teu fogo e me afogo na tua sede (de mim).

Então, quando o cansaço chega, deitamos ofegantes e exaustos um ao lado do outro.
Meu cabelo bagunçado, as bochechas rosadas e o teu suor iluminando a tua testa.
Te olho, desta vez com a razão que parecia nunca ter me pertencido, e sei que, ao mesmo tempo em que já nos perdemos por completo, nunca nos perdemos lá dentro.
Somos consumidos pelo desejo silencioso que nos habita, pelos colecionáveis “e se…” que carregamos como uma bolsa de mão que acompanha a gente em todos os lugares.
Fazemos segredo da existência do outro no peito, do cheiro impregnado no travesseiro, da marca que faz morada além da pele. E parece que nessa mania de abafar o que fomos e o que poderíamos ter sido, pertencemos ainda mais um ao outro.

Acordo com o barulho do despertador.
Abro a janela e não vejo chuva, só o início de um dia ensolarado.
Olho para a cama e não vejo você, mesmo que ainda esteja presente em mim.
O celular toca. Mensagem tua.
“Sonhei com você.”
Sorrio e guardo o celular na bolsa, da mesma forma que ainda te guardo, sem hesitar, aqui em mim.

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Beatriz Zanzini

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