O relógio marcava dezenove horas quando a primeira mensagem chegou. Primeiro congelei, não sabia como responder, não sabia o que deveria dizer, muito menos o que deveria sentir. Levei cerca de dez segundos para processar a palavra “casamento” acompanhando teu nome. Levei mais dez segundos para assimilar que não estava surpresa. Ou triste. Ou qualquer outra coisa ruim que pudesse casar com o momento. Eu estava apenas… Ali. Ouso dizer que um riso leve se formou no canto da boca.
Sabe, os últimos dias aqui não tem sido fáceis. Hoje mesmo passei a manhã sendo picada, tentando lembrar de quando foi a última vez que senti medo de agulha. Me recordei de uma viagem que fiz quando tinha 10 anos e passei muito mal durante a madrugada. Fui levada até um postinho de saúde no meio do mato e lá, uma enfermeira muito simpática me disse que as abas de silicone que seguravam a agulha eram asas de borboletas e que eu era uma flor. Parece bobagem, mas quando ela terminou de falar, a agulha já estava no meu braço e o medicamento já começava a fazer efeito. Entendi, então, que mesmo na pior das dores, olhar para o outro lado é uma questão de escolha. Aquele clichê de sempre.
E agora estava eu na cozinha, fazendo meu tradicional leite quente com mel — aquele que você me ensinou, porque sabia que eu detestava chá e precisava tomar algo quente —, quando o telefone vibrou. Ao contrário do que imaginei, todas as vezes que pensei no dia em que isso fosse acontecer, não chorei. Não tremi. Não senti dor. Até quis sentir, confesso. “Você é louca!”— disse uma das minhas amigas — “Porque você iria querer sofrer? Não tá bem assim?”. E foi difícil explicar para ela que não queria, exatamente, sofrer, mas queria sentir algo. Entende? Ao contrário do medo de agulha, não consegui me lembrar do dia em que perdi o medo de te ver seguir. Ele só… Deixou de existir. E, cá entre nós, não fiz muita questão de lembrar como era antes disso.
A verdade é que nem senti a picada. Nem vi o furo. Nem olhei o tamanho da agulha ou prestei atenção ao ardor do remédio. Eu só conseguia pensar na borboleta que voou e encontrou uma flor pelo caminho. Eu só conseguia pensar que você encontrou o seu lugar para pousar. Você seguiu. E eu? Eu estou aqui, agora, tomando aquele mesmo leite quente com mel e ouvindo as nossas músicas, talvez, como se abraçar um pouco do que fomos significasse te abraçar também, aqui de longe. Eu também segui tem um tempo, desejando secretamente que aí do outro lado você tivesse perdido o mesmo medo.
A verdade é que, contrariando todas as expectativas, a única coisa que consigo sentir é felicidade. Então, do lado de cá, só posso te desejar o clichê de sempre: “Ama, credi e vai…”
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