Cara, sinto muito, mentiram pra gente! É, eu sei, dói falar assim, na bucha, mas é a verdade; fomos tapeados. Aquela parada de amor, amor verdadeiro, friozinho na barriga, aquele amor pra valer, que só acontece uma vez, é mentira, meu nego. Tudo marketing ― talvez pra vender mais discos do Raça Negra… Venderam pra gente a ideia de que o amor é perfeição, abnegação, entrega, arrebatamento, borboletas no estômago e muito mais… Ele pode até ser tudo isso, no início, mas na maior parte tempo é falta de grana pra sair no final de semana, TPM, carro estragado, ressaca e bico.

Eu sei, eu sei, a gente só quer curti um pagode no final de semana com morena, tomar açaí no shopping e trocar uns amassos no portão no fim do domingo, essas coisas triviais da vida, que dão sentido nesta bagaça que chamamos existência. Essa é a expectativa, mas a realidade é bem mais embaixo! Esqueceram de dizer que pra amar tem que ser duro na queda, tem que tem que ter molejo, jeitinho, paciência, cumplicidade, reciprocidade (odeio essa palavra, coloquei porque ta na moda)…

Muita gente anda de bode com amor, só porque não conseguiu encontrar “a metade da laranja”. Essa conversa fiada me dá sono, preguiça e vontade de vomitar ― isso pra ser educado, se pudesse mandava se f… O mundo está chato pra cacete! É padrão pra tudo, até pro amor, vejam só! Quem foi que disse que pra amar tem que ser igual, tem que ser perfeito, tem que ter “química” ― outro termo que acho horroroso, mas uso pra dar estética no texto ― e uma serie de outros penduricalhos contemporâneos que só servem pra afastar a gente do amor prático, do amor que existe de verdade, aquele que paga boleto, que divide a coxinha, que marca o mozão em post brega no Facebook, essas coisas. O amor não é pra covardes! Amor é passar vergonha e não conseguir esquecer o sorriso daquela trouxa debochando de você. Amar é saber estar sozinho (e sentir-se bem) e quando junto saber dividir sua solidão, respeitar espaços. É aceitar que pode (e vai) dar errado e lutar pra superar, mas claro, sempre se valorizando (olha outro clichê de linguagem aqui), e se esforçando pra fazer a coisa fluir. Talvez seja por isso que muita gente tem medo de amar.

Costumo sair com vários casais, eis o mal dos escritores solteiros, e aprendo muito com eles. É diferente quando você conhece um casal da hora, que se entende, que se aceita. Nem parecem casais, parecem amigos, irmãos. Tá aí uma boa: o amor também é irmandade, é parceria.

Na semana passada estive com um casal de amigos que não via há muito tempo. São dois doidos, sério, gente! Ele é pirado, ela, em nome da segurança nacional, eu mandaria colocar na camisa de força. Apesar de tudo, adoro sair com eles. Divertidos, alegres, e, pasmem, completamente diferentes um do outro! Ela roqueira, ele peão. É sério isso! E se dão super bem, menos quando ele escolhe Amado Batista e ela quer Metallica. Fora isso, é uma graça de se ver. Às vezes admitem que não se suportam, mas se amam. O amor nasce mesmo de lugares improváveis! Já imaginou se eles estivessem até hoje esperando a metade da laranja? Já teriam, ambos, virados suco por aí…

Lembro que, no passado, estiveram separados. Foi um Deus nos acuda! Ela chorava dali, ele chorava de lá e o Zequinha aqui no meio da bagunça de corações partidos. Num belo dia, enquanto ajudava meu amigo peão a se recuperar da fossa, perguntei a ele por que gostava tanto da roqueira, já que eram tão diferentes? A resposta foi linda. “Eu amo aquela metida porque ela paga litrão pra mim”. É mentira, ta bom, eu admito, mas é algo bem próximo disso. O quero dizer é que eles são companheiros apesar das diferenças, apesar das controvérsias! Só me lembro de terem brigado naquela oportunidade.  De lá para cá, a paixão deles cresceu e aprenderam a se respeitar e multiplicar o amor ― terão o primeiro filho em breve. Achei fofo, galera.

Às vezes, quando olho para os dois, tenho a nítida sensação de que amor é isso mesmo: dificuldade e superação. Por mais que a gente queira um amor compatível, um amor igual, não somos iguais, nem nunca seremos. É na diferença que nos encontramos. E pensando na lógica do peão, amor de verdade é aquele que paga litrão pra mim. Nem bebo, mas já quero!

FIM.

 

 

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Flávio Sousa

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