Aroldina acreditava em histórias de amor. Ela tinha sempre aquela mania de chorar no final dos filmes e devorar chocolates com uma rapidez incomparável. Outro dia, Aroldina estava caminhando pela manhã em uma calçada pequena do categórico vilarejo Pedra Azul, quando deixou o sorvete cair. O sorvete caiu, os olhos saltaram para fora e o coração disparou. Rapidamente limpou os lábios e tratou de se esconder, entrando na cafeteria “Amargo doce”. A cafeteria era um lugar que visitava todos os dias: pela manhã, para o café matinal, leitura do jornal, sim ela fazia questão disso, além de um bom papo com os velhos amigos. Também visitava ao final do dia, para aquela café doce e amargo. Ali contava sempre sobre sua rotina de trabalho e respirava fundo para um próximo amanhã.

Ela entrou na cafeteria e ficou espiando o furacão de 1,80m passar lá fora. Ele passou iluminando a rua com seu sorriso. Estava falando no telefone, e nem mesmo pode perceber Aroldina com os olhos esbugalhados na vitrine da cafeteria, aflita, afoita, querendo saltar em seu pescoço.

Uma amiga, ou melhor, a garçonete do local que já tinha se tornado sua amiga, perguntou o que estava acontecendo, quem era aquele furacão disfarçado de neblina leve.  Aroldina se recompôs, tomou a amiga pelos braços e a puxou para uma mesa. Com o olhar perdido de quem tinha se encontrado, foi logo despejando sobre a amiga o seu romance atemporal. Aquele era Vinicius, o seu amor de infância, adolescência, juventude, e acho que seria de toda sua vida. Com um brilho enorme nos olhos, Aroldina fez questão de relatar para a miga, que já fazia mais de vinte anos desde quando conhecera Vinicius. Desde então, sempre se esbarraram pela vida: na escola, no cursinho, na faculdade, nas festinhas, em algumas excursões, expedições, aventuras e desventuras.

Acontece que a amiga logo quis saber, porque as mãos tremulas então, se ele já era um velho conhecido. Nessa hora gaguejou mais ainda, é que se trata de um velho conhecido do peito sofrido, que está sempre à procura de cobertor, de aconchego. Ela revelou que mantinha em segredo aquele sentimento por muito tempo. Aroldina, era aquela menina mulher. Tão doce pra vida, pro mundo e amarga para si mesma. A amiga tentou a todo custo convencê-la de que precisava viver isso. Mas ela amargamente, tão amarga quanto o café que gostava todas as manhãs, acreditava piamente que jamais seria notada.

Naquela manhã, com o coração disparado decidiu que iria colocar um fim naquela história. Fazia já uns três anos que não via Vinicius e reencontrá-lo pela manhã, foi estarrecedor. Ela encerrou a conversa, enquanto a amiga lamentava com a cabeça: – Você não sabe como brilha seus olhos com esse amor. Você não sabe como tem o mundo inteiro esperando por você.

Mas ela ignorou. Juntou seus cadernos, sua bolsa, pastas e saiu apressada, encerrando o papo. Acontece que quando saiu, deixou cair seu lenço rosa. A amiga nem se quer percebeu e o lenço ficou caído na porta da cafeteria, por cerca de 20 minutos. Sim, exatos 20 minutos depois que  Aroldina saiu apressada por aquela porta, o seu sonho de consumo atemporal adentrou pela cafeteria. Ele percebeu o lenço de cara, caído no chão e gentilmente se agachou para pegar e foi entregar no balcão de atendimento. A amiga ficou atônita com a cena e não sabia o que dizer, naquele momento só imaginara como contaria àquilo na manhã seguinte para a doce e amarga sonhadora.

-Esse lenço estava caído na porta. Deve ser de algum cliente.

-Ah sim, é de alguém muito especial.

-Acredito que sim, pois com esse perfume, só pode ser alguém muito especial. É um perfume francês sabia?  Um perfume doce, mas não muito enjoativo.

-Igual a dona então né?! – falou a amiga já debruçada no balcão e abobada com a peripécia do destino. Ele ficou intrigado com a cara abobada da garçonete no balcão, mas soltou alguns risos.

-Você conhece então, a dona do lenço rosa de perfume doce, mas não enjoativo?

-Ah sim, conheço e conheço muito.

-Bom, então diga à ela, que tem o perfume mais marcante que uma mulher poderia ter e isso com certeza a deixa 50% mais linda do que já é. Agora preciso ir, me vê um café puro e amargo por favor?  – Ele também pediu um café amargo, aquela que era a opção de sua paixão secreta todas as manhãs. Sim, isso tudo foi um prato cheio para a miga na manhã seguinte, se assentar com Aroldina.

Agora pausa comigo aqui! Não vou te deixar sem saber o final da história. Ou melhor, só posso te contar que ele voltou no café algumas vezes. Mas você percebeu que essa história tem uma linda lição né?! Sim, a gente se engana muito! As vezes vivemos caminhando, como se não houvesse espaço na estrada para nós. Mas existe sim! Cantamos, como se ninguém estivesse ouvindo a nossa canção, enquanto na verdade estamos sem saber, sendo a melodia de muitas canções por ai.

Sabe qual foi o final da história? Aroldina tomou de fato uma decisão. Não me peça detalhes, não posso, não tenho. Agora é sua vez, me conta que decisão tomou Aroldina?  Vai remar esse barco e deixar que o mundo lhe perceba, agarrando a vida pelas unhas, ou vai continuar existindo, à mercê de que um dia encontrem seu lenço?

PS: Aroldina é o tipo de pessoa que no fundo, sempre soube o que queria. O tipo de pessoa, que podia com o mundo todo, pena que não sabia. Mas a verdade, é que podia e o que queria, isso sabia muito bem!

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