Já fiz as malas todas. Minha casa está encaixotada e até pra tomar um copo d’água eu preciso fazer uma baderna enorme. A bagunça é grande. Inversamente proporcional ao meu coração.
Essa casa já foi milimetricamente organizada. Meu TOC não permitiu que uma só xícara não estivesse no lugar. Era pra compensar. Era pra compensar a desordem profunda que fazia morada no meu peito.
A minha primeira mudança foi muito alegre. Foi pra morar contigo.
Era o dia da independência, o passo a mais numa estrada que só estava começando.
Os dias foram bonitos. Mas o peso da rotina chegou com seus boletos, monotonia e falta de encantamento. Depois de pensar muito, eu concluí que a gente tinha dado errado.
Eu precisei ir embora. Cada lágrima tua na minha partida foi um punhal que me atravessou o peito, mas eu não podia te dar menos que o máximo.
O problema é que dois dias depois da segunda mudança, eu entendi que a minha vida não fazia mais muito sentido sem nós. Dois dias depois da minha partida, eu pensei que talvez eu não precisasse ter ido embora, mas sim me esforçado junto contigo pra mudar o que não estava bom. Dois dias depois da minha partida, o partido era eu.
Não tive coragem de chamar por ti. Sabia o quanto tinha machucado teu coração.
Foram dois anos de uma prisão domiciliar, mas o domicílio era o meu peito. Assim como um confinado, eu tive a oportunidade de olhar cada aspecto de nós que eu não conseguia ver quando eu ainda era 50% dessa relação. Quando se está preso em si mesmo, é mais fácil olhar pela janela quadrada e pensar em tudo o que poderia ter sido feito.
Eu nunca vou entender essa maldita dinâmica da vida em que a gente tem que perder pra perceber. Viver miseravelmente pra perceber o quanto a vida era boa. Chegar ao fundo do poço pra entender que a água pura e cristalina estava na superfície. Era só se esforçar um pouco pra pegar.
Foram dois anos horríveis. Duas semanas depois daquele dia, eu te liguei. Eu quis voltar. Mas o teu coração ainda estava magoado demais pra nós dois. E eu entendi.
Eu tentei partir, eu tentei ir pra outro coração. Eu tentei ser o que a gente era com outra pessoa.
Impossível.
No fundo do meu coração, eu sabia que o teu me entendia, sabia que eu precisava ir, mas também sabia que eu precisava voltar.
Você sempre soube que eu não fiz por mal.
Eu aprendi.
Eu aprendi que o amor real é muito diferente do que se vê nos filmes mamão-com-açúcar.
Eu aprendi que a rotina vai chegar com força, mas que o amor é uma escolha.
E eu quero te escolher, todos os dias.
O caminhão da terceira mudança já vem chegando.
E junto com os móveis, roupas e utensílios, eu carrego a certeza de que essa será a última.

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Júnior Ghesla

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