Eu vi tudo, sabia?
Você se ajoelhou no meio da rua, com uma única rosa branca nas mãos, e sequer tinha uma , mas quem se importa com um anel quando vê o amor da sua vida pronto pra fazer o tão esperado pedido? Não se ajoelha, por favor — te pedi, envergonhada com o segurança do estacionamento. Você segurou minha mão e eu senti meu corpo todo esquentar, da ponta do dedão até o mais longo fio dos meus cabelos pretos bagunçados pelo vento.
O mundo parou e eu não podia acreditar no que via. Era real? Era. E naquele segundo eu pude ver tudo. Fechei os olhos e imaginei o meu sim, seu sorriso de alegria, nossos planos, a reação dos amigos, a organização da festa. Nada escandaloso, só os mais íntimos e que acompanharam a nossa novela infinita, até que ela se concretizasse num altar. O meu vestido era perfeito, exatamente da maneira que sempre sonhei. Ao contrário da maioria das festas, você também usava branco. Nunca te vi tão lindo, sabia?
Um pé primeiro, depois o outro e lá estava eu, caminhando em sua direção, sem ninguém ao meu lado. A cada passo que eu dava, menos eu ouvia os convidados e aos poucos todos eles, um a um, foram desaparecendo diante dos nossos olhos. Te vi parado, me olhando como quem esqueceu de respirar. Sua mãos suavam e seus olhos já estavam encharcados. Nunca os vi tão brilhantes. Parecia perfeito, sabia? Parecia. Perfeito. Mas eu sabia.
Desatenta, não notei que chovia lá fora. A essa altura, mais parecia uma tempestade sem fim. O vento arrancara a roseira da entrada e uma das rosas voou para dentro da igreja. Tentei segurá-la e os espinhos me feriram as mãos. Sangrei. Senti frio. Senti medo. Te olhei nos olhos e me lembrei das tantas noites em claro, dos tantos cortes que curei sozinha. Alguns ainda ardem, sabia? Senti dor, senti os olhos queimando e o gosto de sal me tomou a boca mais uma vez. Ouvi gritos, mas todos estavam calados, estáticos, me observando enquanto minhas pernas não mais respondiam. Era a minha voz que gritava, mas meus lábios não se moviam.
O barulho vinha do lado de dentro. Senti o sangue escorrer pelos dedos e pingar em meu vestido, agora manchado. Marcado. Para sempre. Entende? Fomos o tecido mais belo, costuramos nossas vidas com perfeição, cortamos excessos e nos coubemos de forma tão simétrica que qualquer alfaiate invejaria. Por fim, nosso ponto se rompeu e o que era enfeite virou nó. O que era claro agora pingava. Sangramos. Juntos. Por burrice ou destino, ainda não sei. Mas doeu como nunca doera antes. Em teus olhos pude ver o medo, a angústia, a culpa e o ódio. Nunca mais nós dois. Nunca mais branco no branco. Nosso destino, para sempre fora manchado.
Abri os olhos e lá estava você, o amor da minha vida, me pedindo uma chance. Me pedindo pra virar a página, sem saber que eu já havia queimado nosso livro. Novamente senti gosto de sal e meus olhos ardiam enquanto eu lhe soltava as mãos. Desespero. Dor. Medo. Angústia. Mágoa. Eu vi tudo nos teus olhos castanhos, agora sem brilho, moço. Eu estava lá quando você perdeu o chão e eu te abracei bem forte, te apertei contra meu peito como quem tenta tirar toda tua dor, mesmo sabendo que eu era a causa.
Por fim, me aproximei do teu ouvido e pronunciei as únicas três letras que meu coração gritava naquela tarde de verão e te beijei o rosto. Por mim. Por nós. Por tudo que ainda tínhamos para viver. Peço que acredite, foi o não mais doído que meus lábios já disseram.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

CATEGORIA

Giselle F.

Tags