Não se pode adivinhar o que há nos olhos da bailarina. Os mistérios são parte dela. O que se esconde nessa essência de menina? Veste a máscara do comum, mas no palco é ela mesma, a alma exposta. Na verdade, não é menina – nem mulher – é um anjo esculpido em cachos que brincam com o vento, como se ambos fossem irmãos. Enquanto dança com o céu, dane-se o mundo! Atravessou dezembros vencendo a dor e espalhando amor! Sim, a bailarina ainda acredita no amor! Nem sempre é fácil, pois amor, às vezes, é dor. Aprendeu, por ironia do destino, que amor se cura com amor! Só não conhece remédio para saudade, mas como dizem por aí: “o que não tem remédio, remediado está”. Pois que assim seja: toda dor seria remediada com amor, até mesmo a saudade.
Palavras não são o suficiente para descrever o sorriso dela. Transborda candura; não haveria na terra outro igual. Quisera eu que minha pena fosse capaz de dar àqueles traços a beleza que eles merecem. Não importam o que digam sobre ela, nada se aproximará da verdade. Só os olhos que viram aquele sorriso são capazes de entender… Afrodite te inveja, bailarina! Guarda nos lábios o doce do veneno que apaixona; pobre dos homens. Todos, sem exceção, são tocados, mas nem todos são capazes de tocá-la! É preciso seguir os passos da bailarina, nem todos compreendem seus mistérios, suas tragédias.
As luzes do palco se acenderam, o coração palpita, o gosto ácido na boca causa ânsia, mas se segura. Já no primeiro compasso está entregue ao inexplicável. Enxerga a própria alma deixar o corpo e fazer par com o infinito. É como se apaixonar pela primeira vez: é frio, é medo, é prazer, é emoção é amor! A música continua e invade seus pulmões; agora respira notas agudas, graves, médias e expira movimentos delicados, produzidos com alma. Da platéia ele aplaude de pé. A fumaça do tablado ofusca seus olhos, mas acredita que a bailarina o vê. Não vê, não toca, mas sente… Sente algo forte que emana de olhos petrificados de admiração e amor. Notou que era amor há quilômetros. Entregou-se, se lançou e pensou que voava, mas não: caia de um abismo.
Às vezes, antes de dormir, sente o corpo dolorido, o coração esmagado e o peito apertado. Quantas vezes, desde a queda, se perguntou: “Por que eu?”. Dera de bom grado seu bem mais precioso e, quando menos percebeu, havia sido roubada, extorquida, sugada até a sua última gota de paixão. Desde então, construiu um muro em volta de si e só seus passos agora encantam apenas a se mesma. Criou uma fortaleza de espelhos, para não se sentir só.
A dor é um cofre com combinações impossíveis, quanto mais se fecha, mais difícil fica de sair. Viu-se distante de tudo e de todos, até se descobrir. Viu refletida em seu palácio de espelhos que a própria imagem estava distorcida. Chorou, sofreu, mas aprendeu. Deixou de acreditar no amor, eis a sua verdadeira tragédia!
Depois de muito tempo, decidiu encarar o palco outra vez. Mostrar a se mesma que dançar com a vida é a verdadeira essência. De novo teve medo, de novo quis sair correndo, mas não desistiu. A cortina se abriu e lá estava ela, vivaz, feliz, entregue de novo ao amor! Seus cachos, de novo alegres e sagazes, seguiam seus movimentos. Esqueçam o que já foi dito sobre seu sorriso, seus olhos. É agora ainda mais forte, ainda mais encantadora. É uma advertência aos desavisados: apaixonar-se é um perigo constante. Ainda multiplico os clarões de sua aparição. Não há como descrevê-la, só há o sentir. Sinta. “Que quem olhar, com os mesmos olhos que a olhei/Irá perder a inocência, e ela por fim/Terá roubado o sono de um querubim”.

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Flávio Sousa

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