03/11/2017

Espelho

Lembro-me muito bem. Lembro-me como se fosse hoje, na verdade. Parecia um dia como outro qualquer e eu estava cumprindo a minha rotina matinal, preparando os ovos e fazendo o café. Tudo ao mesmo tempo, como sempre. A vida é corrida e a pressa dos dias não nos deixa tempo ou energia para ensaiar qualquer pensamento diferente do normal. Contudo, aquele era um dia diferente, e eu só viria a saber disso depois.

Quando saía para trabalhar, tropecei em um sapato jogado pela casa e fui parar em frente ao espelho do corredor. Nele me apoiei para não cair e, xingando a mim mesmo pelo eterno defeito de espalhar coisas pela casa, levantei a cabeça. Pude, então, me ver com atenção, pela primeira vez em muitos anos. O que vi, não pude reconhecer. Ao mesmo tempo que havia traços de mim, não era eu. Era um reflexo de alguém parecido comigo, mas não era eu.

Onde estava o brilho dos meus olhos? Aquele que era tão notório quando eu falava de um projeto cheio de paixão. Onde estava meu riso fácil de quem acreditava que o futuro estava ali, aguardando para ser tomado? Não pude conter as lágrimas.

Em que momento do caminho eu teria perdido todos os meus sonhos, toda a minha vontade de conquistar o mundo? Em que parte da estrada eu teria deixado de ser o dono da minha própria embarcação destino para me transformar em um náufrago, à deriva no oceano?

Cedo ou tarde, temos que encarar o espelho da vida, aquele que reflete – sem enganação – toda a verdade sobre nós mesmos, sobre o que fizemos e sobre o que nos tornamos. Contra esse reflexo de dolorida sinceridade, e que só a nós é permitido ver, não há desculpas para dar. Não se pode fugir de si mesmo a vida toda.

Quando se olha no espelho, e já não mais se reconhece, há que se escolher: revisitar a si mesmo ou passar o resto dos dias com um estranho. Eu fiz a minha escolha. Olhei para dentro e escolhi me revisitar, em busca do meu verdadeiro eu, perdido dentro daquele corpo estranho.

 

(Revisitar)

Deixei tanto de mim pelo caminho,
Que já não mais me reconhecia
Ao me olhar no espelho pela manhã.

Não me restou escolha
A não ser revisitar meu coração,
Numa estrada, em busca da minha essência.

Ou faria isso,
Ou teria que me habituar
A conviver com um estranho
o resto da minha vida.

Hoje, ainda não sei, exatamente, quem sou,
Mas já sou capaz de identificar
Pequenos pedaços de mim
Ao longo da estrada.

Sem esmorecer,
Sigo a minha aventura
Nessa jornada,
Que tem a duração
De uma vida inteira.

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Rafa Lima

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