Quando te ouvi sair de fininho pela porta, carregando sua mala cheia de roupas e outras tantas bugigangas que você espalhava pela casa, eu quis levantar da cama lá no quarto. Quis gritar “Escuta aqui, como você pode ir embora sem ao menos se despedir?”, mas eu continuei imóvel, estática, fingindo sono profundo e frieza. Tive pouco menos de um minuto — equivalente ao trajeto entre a porta e o portão de casa — pra saber se me arrependeria eternamente pelo adeus não dado ou um “até logo”.

Sim, eu tive esperanças de que você estivesse apenas dando um tempo pra você, pra nós. Tive esperanças de receber uma ligação no meio da manhã e ouvir “Eu vou, mas eu volto”, só que o telefone não tocou. Nenhuma carta chegou. Nenhum e-mail. Sequer uma mensagem. Nada, nos longos e frios dois meses seguintes, quando vi teu nome surgir na tela do meu celular, mas não consegui atender. Já era tarde e, sinceramente, eu sinto muito por isso. Sinto muito por você, mas sinto mais ainda por mim.

Por ter acreditado quando você me disse que nunca deixaria nenhum mal me atingir, até eu descobrir que o pior deles viria justamente de quem prometeu me proteger. Não foi fácil te olhar nos olhos, cheia de esperanças, e ver a tua aprovação para o primeiro grande trauma da minha vida. Eu esperei tua defesa, tuas garras, tua luta em meunome, mas nada chegou. Não foi fácil olhar pro lado e não te ver, mas foi ainda mais difícil saber que tua ausência era escolha.

Sinto muito por ter me permitido confiar nas tuas palavras, quando te ouvi dizer “você vai longe”. Eu, ingenuamente, acreditei que você se referia ao meu futuro, meus objetivos, meus planos e sonhos de menina. Só não sabia que “longe”, pra você, significava “até onde minhas asas podem te segurar”. Eu quis voar, mas as correntes que você forjou nos meus tornozelos não me permitiam ir além do alcance dos teus olhos, sem perceber que eu era refém do seu controle disfarçado de proteção.

A condição era tão clara, tão transparente, que passou despercebida pelos meus olhos inocentes — “Você só poderá voar se eu puder lhe acompanhar”. Era amor o que eu sentia e era intenso, presente, gigante demais pra me deixar ver o que se escondia por trás do “eu te ajudo”, do “deixa que eu faço”, do “eu vou com você”, do “essa roupa não lhe cai bem”, do “não acho que fulano seja amigo pra você”. Eu acreditei quando você disse que só queria o melhor pra mim, sem saber que isso significava “o melhor pra você sou eu”.

Acreditei que todos os lanches da madrugada eram carinho, que o fato de só você saber fazer o achocolatado do jeito que eu gosto era puro esmero e que sua companhia na balada, entre os meus amigos, era motivo pra eu sorrir e me sentir a garota mais sortuda no mundo. “Nossa, você pode levantar as mãos pro céu e agradecer. Se fosse comigo, eu estaria sozinha e quando chegasse em casa ainda escutaria um monte por ter chegado tarde.” — era o discurso da galera, tão constante que mesmo depois de tantos anos eu não esqueço.

Tem tanto que eu gostaria de esquecer sobre nós, mas talvez — só talvez — lembrar seja necessário, ainda que doa.

Por falar em dor, lembra de como sofri quando passei por aquela cirurgia? Sei que sim, porque era você que ficava ali comigo, me vendo urrar de dor. O pós-operatório, então, nem se fala. Levantar, respirar, sorrir, chorar, tomar banho, fazer xixi, andar, dormir, tudo doía. “Foi a pior dor que já senti na minha vida” — eu costumava te dizer. Mas eu estava tão errada, sabia? E eu queria que você estivesse aqui pra eu te dizer que mudei de ideia. Eu preferiria repetir aquelas dores cem vezes e faria a mesma operação outras cem. Mas eu não aguentaria mais uma dose das suas mentiras, por menor que ela fosse. Não existe pós-operatório pra confiança quebrada.

(…)

O fato é que hoje eu posso responder a pergunta que me fiz nos exatos sessenta segundos que você levou para ir da porta da frente ao portão da minha casa. Eu tomei a decisão certa. Você fodeu com meu psicológico e não há terapia ou remédio no mundo capaz remediar os danos que você causou. Não é um “até logo”, é “adeus”.

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