A vida ia muito bem, obrigado.

Foi aí que eu resolvi fazer aquela faxina no quarto, que a gente só faz de dez em dez anos. Aquela em que a gente tira tudo do armário, se arrepende por ter tirado, mas aí é obrigado a colocar de volta e não tem mais jeito: melhor fazer a seleção do que fica e do que vira lixo.

Foi assim que você ressuscitou em mim. Um caderno velho, voando para o lixo, disparou um projétil dez por quinze com uma foto nossa, juntos, sorrindo. Nos cinco dos últimos dez anos, eu tinha te erradicado do último neurônio que ainda se apegava à tua imagem. Com aquela foto, você voltou à ativa em todos eles.

Não resisti. Fui às redes sociais e te achei lá, com um alguém aí, com uma miniatura sua de bochechas rosadas e uma felicidade que parecia fazer teus olhos brilharem de forma intermitente, quase me cegando. Você não perguntou. Mas no meio dessa loucura, me deu vontade de dizer como estou.

E estou bem, obrigado. Quer dizer, estava tudo indo bem até eu resolver faxinar minhas memórias e encontrar uma foto tua lá. Estava tudo indo bem até eu te procurar para saber como você tem passado. Não sei o que eu esperava encontrar mas, definitivamente, não era esse sorriso tão genuíno. Não era essa família tão nova. Acho que ver uma miniatura tua desestabilizou tudo aqui dentro.

Passou um filme antigo diante dos meus olhos. Nós dois, aquela viagem para a Argentina, aqueles dias tão brancos e azuis. Tão recheados de abraços, beijos e cumplicidade. Até que a gente se perdeu numa esquina e foi cada um para um lado, carregando os planos e histórias na bagagem. Tinha tanto de nós dois comigo. Deixei tanto de nós dois contigo. Nossos sonhos e planos foram nos acompanhando, daqui e daí – o casamento na serra, a casinha com varanda, as crianças no gramado…

Vasculhar você foi trazer de volta nossa história. Vi nossos planos estampados no teu riso frouxo, nos teus olhos que brilhavam naquela fotografia digital, nos bracinhos miúdos da mini-você. Nossos planos estavam ali, vívidos e concretos – mas não eram mais meus.

Praticamente nada saiu como o planejado. Eu mudei muito, você mudou muito, mas algo aqui permaneceu: minha crença de que nada é por acaso.

Eu ainda sou o sonhador irremediável.

E é por isso que ainda acredito que, um dia, eu serei de novo o causador dos teus sorrisos e você a causadora dos meus.

Por enquanto, guardo com zelo e carinho o projétil em forma de foto que, há menos de cinco minutos, me fez voltar dez anos.

Voltar ao tempo em que eu me sentia vivo.

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Júnior Ghesla, Mafê Probst

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