O ônibus chegou à estação rodoviária e eu já o esperava ansiosamente. O cobrador me ajudou com a bagagem física mas, a da minha cabeça, eu tive que carregar só. Nem sabia direito qual era o destino, eu só queria ir. No fim do trajeto, eu pegava outro ônibus, e mais outro, e mais quantos fossem necessários pra ficar o mais longe possível de tudo.

A estrada irregular, o veículo trepidando, e meu choro deslizando caprichoso pela janela completavam o cenário. A face acomodada sobre o vidro me permitia a sensação visual de estar voando pela rodovia. Era terapêutico. Era o que eu precisava.

Enquanto o coletivo avançava corajoso por retas longas e perfeitas, meu coração recuava amedrontado por caminhos tortos e defeituosos.

É que pelo caminho que percorri houveram ventos que me afastaram um pouco de mim. Que fizeram a minha cabeça querer mudar de rumo, na direção de algo que eu não tinha certeza se deveria viver. Mas eu vivi. E agora, enquanto olho pela janela, vejo tudo passando e a minha vida sendo levada junto enquanto eu sinto uma dor que parece não passar, que parece não querer curar. Embora cicatrizada, a ferida ainda dói. Dói como se tivesse sido ontem que ela se abriu. Dói como se a cada dia ela estivesse sendo magoada – assim como o meu coração está.

E, por mais que tentasse evitar, parecia que quanto mais o tempo passava, mais tortos os caminhos ficavam. Era como se a vida tivesse me mandando uma mensagem: “aguenta aí, vou bater mais.”. E eu só apanhava. Eu via a vida passando pela janela enquanto eu seguia com o medo de viver e me machucar outra vez.

Por agora, vou tentar a máxima de me concentrar no momento presente. Quem sabe assim a minha vida deixa de ser rodovia – parada, rígida e conformada – pra se transformar em ônibus: firme em seu propósito, capaz de ir a qualquer lugar e, principalmente, dono de seu próprio caminho.

Você ainda vai ser a cidade para a qual eu nunca vou voltar.

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Júnior Ghesla, Steph Almeida

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