Se eu fechar o olho, deixar o vento bater e respirar bem fundo, me transporto pra lá de novo.

Depois que você se foi, eu mudei de cidade, mudei de emprego. Depois que você se foi, eu mudei.

Reconstruí minha vida passo a passo, fui vendo a sua imagem esmaecer na minha memória, mas é inevitável que às vezes tudo volte como um sonho bom. Afinal de contas, é assim que a gente vê o passado, né? Guardamos o que foi bom como verdade absoluta e esquecemos as dores pra poder dizer, como uma boa desculpa, que o presente não faz sentido.

Ainda assim, não acho que seja esse nosso caso. O que vivemos foi mesmo um sonho bom.

Você acabou com a gente de uma hora pra outra.

Não deu tempo de sentir raiva, não deu tempo de gritar que tudo aquilo era loucura, não deu tempo de criar uma mágoa capaz de facilitar o processo de te deixar pra trás.

E assim eu permaneço até hoje. Minha vida é olhar pela janela e fazer recortes fotográficos de cada momento incrível que a gente viveu. As cores são vívidas na minha memória. Brilho, contraste, luminosidade, tudo é absolutamente equilibrado. O que você deixou em mim foi uma marca profunda e muito, mas muito clara.

Dentre todos esses momentos, há um que sempre me transporta de imediato pra perto de ti.

Não é um gesto espetacular, nem um acontecimento mirabolante. É bem simples. E talvez seja isso que tanto me cativa.

Foi um dia que a gente viu o sol nascer depois de uma madrugada inteira conversando no último andar do prédio e eu, já exausto, recostei minha cabeça sobre teus ombros. Depois, deitei no teu colo e fiquei te olhando sem dizer nada. E é desse momento meio dormindo/meio acordado que se faz esse clique perfeito de nós dois. Teus olhos acompanhavam o nascer do sol e nasciam junto, vivos, reluzentes, transbordando de forma tal que reluziam também a minha vida.

A gente se dava tão bem que os celulares ficavam num canto, a TV não tinha mais graça, a música parecia ruído perto da melodia dos nossos corações.

É por essas e por outras que não temos a nossa música, nem nosso programa favorito e, lamentavelmente, nenhum registro de nós dois.

Lamento pelas duas primeiras faltas, mas, sobre a última, me permito uma reflexão.

Tenho certeza que a imagem que minha mente traz daqueles minutos é muito mais precisa, expressiva e verdadeira do que qualquer coisa que a lente do fotógrafo mais talentoso do mundo poderia captar.

Naquele nascer do sol, eu queria ter tirado uma foto sua, mas eu não tinha tempo pra isso.

Eu estava vivendo.

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Júnior Ghesla

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