(Para acompanhar, ouça The Blower’s Daughter)

Amor,

Eu sei que faz tempo. Sei também que nada do que passou vai voltar.
Me perdoa. Ah, isso é tão óbvio! Mas sério, me perdoa.

Foram essas palavras que consegui formular para iniciar essa carta endereçada a você. Uma semana pensando, gastando mais borracha do que lápis, fritando neurônios com lágrimas salgadas e essas foram as únicas coisas que atinei a colocar aqui. E você ainda costumava dizer que eu era uma ótima pessoa com as declarações. Lembro de cada vez que você disse que queria me apertar, explodir em alegria, derreter-se pelo peito. Sabe que tudo isso faz parte de um ritual quase que sinistro ao qual me obrigo praticamente todos os dias. Fechar os olhos, deitar na cama e relembrar tanto, mas tanto, que chego ao ponto de conseguir sentir tudo de novo, como se estivesse acontecendo naquele exato momento. Você vai achar loucura se eu disser que consigo até sentir seu toque e seu cheiro? Dizem que é possível. Eu me apego nisso para não achar que estou de vez enlouquecendo.

Amor, essa é a última carta que vou escrever para você. É que me sufoca pensar que lhe deixei ao sabor do vento. Algo dentro de mim diz que eu deveria estar cuidando de você. Que sempre foi tão independente, cheia de vida, vibrando em frequências de uma altura inalcançável. Deixa eu me iludir pensando que era eu quem te cuidaria. No fundo sei que era o exato oposto. Que história mais linda eu vou poder contar no futuro! Tem gente que passa uma vida procurando alguém que lhe ame de verdade. Isso chegou pra mim tão cedo que na época nem consegui identificar. Hoje está tudo muito claro, mas não vou ser canalha de me culpar por não ter visto. É fácil agora, do futuro, apontar erros passados. Eu não sou lá muito de me martirizar. Afinal, quando todos vão embora, a única companhia que me resta é a minha própria. Por isso eu não me odeio por ter te perdido. Eu entendo e me perdoo. Será que você também consegue me perdoar?

A perfeição existe e na maioria das vezes está ao alcance de todos. A perfeição vem quase sempre disfarçada de simplicidade. Vem em anexo com coisas tão óbvias que a gente não vê que está diante de sua sublime presença. Você foi a perfeição me alcançando e beijando meus lábios. Me envolvendo com um manto aquecido de felicidade e plenitude.

É fato que na realidade sou alguém que se contenta com pouco. Me contento em saber que mesmo que eu não te tenha mais, tive a honra e o prazer de desfrutar da sua companhia. Mais que isso: pude desfrutar do seu amor. E por mais que me cause danos profundos e irreversíveis, na realidade estou feliz de não ter prendido ou atrapalhado você e seus sonhos brilhantes. Sou uma pessoa um tanto tóxica e complicada. Você se fosse um objeto, seria uma chave. Daquelas universais, que abrem e descomplicam qualquer segredo. Meu bem, obrigado por ter me ensinado tanto.

Agora, chega de ficar tentando te prender. Um passarinho é lindo na natureza mesmo e nos encanta pelo seu voo majestoso. Com essas últimas palavras, declaro quebrada a gaiola na qual tentei tornar a sua morada. Comigo você mudaria, isso é inevitável. Só que o mais apaixonante é o seu jeito que não pode mudar.

Obrigado por ter passado na minha vida. Me perdoa por ter feito tudo tão errado.

Agradecimento e perdão. Acho que essas são as maiores lições que ficam pra mim.

Essa é a última carta de amor que vou escrever pra você.

paulinho rahs

Paulinho Rahs

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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