Me lembro até hoje da cena em que vi você partir. Os seus olhos soltavam meias lágrimas, a sua voz fraquejava e você me deu um beijo sem paixão alguma, com gosto de culpa.
Ao virar as costas, você disse que iria me amar para sempre, como se tentasse convencer a si próprio (sem deixar eu encarar o seu rosto para me impedir de notar a sua dúvida). Fechei a porta lentamente, como se isso fosse capaz de fazer a gente durar mais alguns segundos… Mas a angústia que gritava em meu peito me alertava que o fim já estava decretado e que nada poderia evitá-lo.

Tentei dormir, mas o sono não veio e eu só conseguia chorar em silêncio. Poucos dias depois, eu confirmei a minha suspeita de que a nossa história havia acabado.
Mesmo assistindo as suas falhas e a sua ausência, a falta que eu sentia de você fazia com que eu ignorasse completamente a minha razão, te esperando todos os dias. Idealizei você voltando de mil formas, por mensagem, carta, telefonema… até fiquei por horas na janela querendo avistar o seu carro, mas os dias foram passando e você não apareceu. Em seu lugar, a verdade é que se fazia presente, mostrando pra mim o que eu não queria enxergar (nem acreditar).

Soltei a raiva da gaiola e transbordei a mágoa até eu me cansar… Deixei a dor vir à tona, me rasgando por inteira, na tentativa de me regenerar. Assim, aos poucos, fui desconstruindo os planos que envolviam você, fui me refazendo, me libertando das memórias e da saudade de nós dóis, me permitindo ser somente eu.
Quando a razão me invadiu por completo, ela me mostrou que no começo é normal esperar por quem vai embora, sentir falta e torcer por uma volta. Mas, como tudo na vida, isso também passa… E também deixa de doer.
Aí, eu finalmente percebi que não faz sentido querer quem não quer a gente. Percebi que não vale a pena esperar por quem escolheu não ficar. E, principalmente, percebi que o que deveria voltar era a minha paz, o meu amor pela vida e por mim mesma. Desde então, eu passei a agradecer, todos os dias, pela sua partida.

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Beatriz Zanzini

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