Foram noites longas. Lágrimas pesadas. Apertos no peito ruins de lembrar.

Foram dias cinzas. Caminhos incertos. Domingos à noite sem perspectiva.

Foram longos meses. Piloto automático. Sensação de que eu não estava aqui de verdade.

Nem sei te explicar como foi esse tempo sozinho depois de ter perdido a identidade. Só vi o tamanho do meu anonimato depois que tu foste embora, quando eu quis encontrar o que eu tinha e estava tudo fora do lugar. Foi complicado arrumar a casa – e o peito – do meu jeito outra vez. Foi penoso juntar todos os cacos com super cola. Demorou até que os pedaços entendessem que ainda eram um. É difícil ser inteiro depois de viver muito tempo fracionado.

Eu, embora me permita umas demagogias de vez em quando, preciso dizer que vivi dias miseráveis. Me escondi debaixo da cama. Deixei o sol arder em meu rosto pra me sentir um pouco mais vivo. Me enterrei no sofá revendo a mesma série pela enésima vez. Fui à praça só pra ver as pessoas passando e tentar me sentir menos sozinho.

Eu alternei entre a vontade de sentir a tua falta e o desespero por me reconhecer.

Foi um longo caminho de exaustão emocional sem precedentes, mas não posso negar que também aprendi muito com que sensações petrificantes que a tua ausência me ofereceu. Me acostumei. Agora, a vida muda outra vez e eu me vejo diante de uma nova realidade igualmente assustadora.

De uma vez, apareceu um novo emprego. Apareceu um novo lugar pra morar. Apareceu um novo alguém. Apareceram chances claras de ser feliz outra vez.

Se eu der mais um passo, um pequeno e singelo passo, a vida muda pra sempre. Deixo o eu que ficou contigo pra trás e me transformo em outro. Converto o que a gente viveu num sonho (ou pesadelo) do qual eu acordei. Abro mão de todos os tesouros que te confiei, começo a juntar moeda por moeda outra vez e fico sonhando com uma fortuna que eu achava que já tinha quando estava contigo.

Se reinventar dá medo.

Mas não tanto quanto a ideia de ficar preso pra sempre ao sentimento semeado e arrancado de mim antes que eu pudesse ponderar, já com raízes sólidas estabelecidas.

Lastimar tua partida já não é novidade. Desejar que tudo volte a ser como antes é uma utopia do sonhador que vive em mim. Ficar preso a nós dois é um feitiço que lancei contra mim mesmo.

Minha decisão se dá no detalhe. Nas minúcias do meu coração, sei que posso encontrar as respostas das perguntas que já fizeram minha razão levantar bandeira branca.

Se eu der mais um passo, a vida muda.

Eu nunca quis tanto caminhar.

Anúncios

Participe da conversa! 1 comentário

  1. “Se reinventar dá medo”. Essa frase resume tudo tudo.
    Depois de muito tempo ao lado de alguém,
    a gente se torna um pouco, o outro também.
    Mas.. Vamos em frente. E que, quem venha seja para somar.

    Curtir

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

CATEGORIA

Júnior Ghesla

Tags