Gabriela: nome forte; nome de quem sofre e sente na pele a dor de ser essa coisa errante, indefinida e torta para os olhos comuns. O vermelho sangue de seus cabelos é o reflexo de sua alma: intensa e fervente. “Ninguém me entende”, diz baixinho para si mesma, antes de dormir, depois de abraçar Paçoca, a gata de estimação. Essa sim lhe entende bem; conhece os atalhos daquela alma. Não chove há meses e Gabriela se angustia com a seca e tem saudade dos pingos de chuva lavando a janela transparente da cozinha. Sente falta daquele ar gelado que corta o mormaço verão – do verão também saudade, mesmo não gostando do calor. Sobra muita falta nesta mulher incompleta, mas satisfeita. Pode não ser feliz, mas é grata pelo pouco que a vida lhe dá e lhe ensina, às vezes de modo cruel. Sente um aperto no peito, varias vezes por dia… Ausência, Gabriela? Só ela tem a resposta, mas prefere não dizer, finge não haver nada de errado com a máquina cardíaca que bombardeia seu sangue vermelho ralo. Não há mulher mais intensa, mais viva e pulsante que ela! É como uma faca cortando o pescoço: lenta, profunda, danosa, dolorosa, mas é também um devaneio e esmaecimento gostoso, como a transição para outra vida.

Sente que se repete nos últimos tempos, mesmo tendo mudado de casa, cabelo e companhias. É uma mulher sem rotina, mas essa lhe engole aos poucos! Sem que perceba é tragada e mastigada pela rotina dos sem rotina. Não é mais a mesma, de fato, mas também não é nova. A essência não mudou; deveria, Gabriela? Sua dor exige mudança? Sua inquietude atordoou a esse ponto? Como ser ela mesma, sem se espelhar em ninguém? É uma mulher sozinha, mas não vazia. Em outros tempos, a chamariam de vagabunda: mulher sem destino, solitária e entregue a beleza das coisas das artes e as migalhas de beleza que o existir oferece de mão beijada… Ah, o doce, o doce que todos os dias lhe faz molhar a língua começa a perder o sabor e amargar. “Quem sou, agora que já não sou quem eu era?”, questiona a se mesma.

Tem tanto a dizer, mas os velhos amigos, onde estão? A conexão é a mesma: profunda! Gabriela não troca energias se não for para guardar… Ah, o futuro, o futuro é a coisa responsável por transformar: deixar o presente no passado. Como o tempo passou rápido, como as coisas estão loucas nesses últimos dias. Uma casa nova, novos amigos (alguns de sempre), novas saudades, novas ausências, novas tristezas… Ela só quer fugir! Fugir de si mesma, mas sua alma está presa neste corpo de mulher delicada, ruiva, viva, atrevida, olhos de ressaca, leve, má, intensa!

O novo trabalho lhe oferece, de um novo jeito, antigas sensações de desprazer. Mas a vida, essa coisa rara, sem rumo, sem eira nem beira, encarrega-se de lembrá-la de quem ela é, de quem foi e de quem pode ser. Embora seja uma resposta que apenas Gabriela sinta, a vida devolverá, em grossas pancadas no lombo branco sensível da menina, as lições que devem ser absorvidas. Você fechou os olhos para se mesma, Gabriela! O despertar é preciso. Desperte, leoa, desperte senhora do próprio destino.

Era um dia qualquer, talvez quarta-feira, ou segunda, ou terça, não importa, era o dia em que pra sempre seria marcada! Como de costume, Gabriela acorda cedo, cuida da gata, cuida da casa, tenta se ajeitar o máximo que pode. Há muita bagunça pelo quarto e sentimentos desarrumados dentro do peito. É cansativo estar no lugar dela, é cansativo ser você, Gabriela. Mas naquele dia, venceu o cansaço de si mesma e foi em frente, ao trabalho… O sustento de cada dia!

Duas mulheres, de poucas posses, mas que exalavam bom espírito, boas energias e vibrações, cruzaram o caminho da moça, como um relâmpago. Clientes, nada mais que isso para Gabriela. Alguns são mais assíduos, outros nem tanto, mas a maioria passageiros, como um sopro. Aquelas duas não! Havia algo diferente nelas. Minha amiga ruiva não notou isso logo de cara, demorou a sentir atmosfera permeada por uma áurea conhecida… Sentiu aquilo antes, não era novidade. Mas o que era? As clientes, mulheres, humildes, sem muito dinheiro, mas com boas feições, pesquisavam produtos da pequena vitrina do balcão… O que procuravam? O que queriam? Buscavam o quê buscavam naquele Beco?

Menina tola essa Gabriela! Não percebeu que ali sobrava amor! As moças não eram “clientes”! Eram amantes, um casal, dois, completas uma na energia da outra! A surpresa de Gabriela veio depois do enfático pedido: “Quer casar comigo”, disse uma das moças. O singelo “sim”, que mal pode ser ouvido, foi dito! A união foi ali sacramentada e amarrada por um par de alianças de cobre, ou qualquer outro metal vagabundo, vendido por dois reais e cinqüenta centavos…

É, Gabriela, a sensação da qual falamos antes é o amor! Logo você, “amor da cabeça aos pés”, demorou tanto pra sentir aquela coisa, aquele pulsar… A paz retorna ao espírito da moça, agora já tem, ao menos, noção de quem foi, de quem era e quem poderá ser!

FIM…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

CATEGORIA

Flávio Sousa

Tags