Bati na porta e esperei que alguém viesse me atender, mas foi em vão. Enquanto eu caminhava pela rua, um ruído chamou a minha atenção. Era um som diferente, eu não conseguia identificar o que era e, por algum motivo, eu não iria sossegar até descobrir.
Depois de aguardar alguns minutos, bati mais uma vez na porta, que se abriu. Não bati com força, mas bati mais forte que da primeira vez, o suficiente para ela abrir.
Entrei e me deparei com uma sala. Nela havia um sofá de estampa florida, uma televisão de umas 40 polegadas e uma porção de enfeites de pássaros na estante e na mesinha central. Notei que o ruído se tornava mais alto a cada passo que eu dava, me chamando para um cômodo do corredor.
Quando decidi segui-lo, avistei o que parecia ser a porta de um quarto. Ela estava entreaberta e eu entrei. Ao lado da cama havia uma pequena cômoda de algumas gavetas com uma gaiola de ferro em cima. Logo avistei o que estava fazendo o ruído: um pássaro estava preso dentro da gaiola.
A gaiola era tão pequena para ele que as suas asas pareciam dobradas e uma delas estava um pouco machucada. Sua cabeça pouco se mexia e ele se debatia enquanto soltava o que pareciam ser pedidos de socorro.
Não sei qual foi a intenção de quem o deixou ali, mas também não me importei em saber, afinal nenhum motivo justificaria aquele sofrimento todo. Como todos os pássaros, ele merecia ser livre em sua natureza.
Logo eu tive o impulso de abrir a gaiola. A ave saiu e começou a bater as asas, sem muito sucesso. Caiu nas quatro tentativas que fizera em minha frente. Levei algum tempo para conseguir pegá-la porque ela estava assustada. Pudera, sabe-se lá quanto tempo passou presa ali e o quanto já havia aguentado.
Quando finalmente consegui colocá-la em minhas mãos, notei que, para a minha surpresa, era uma gaivota. Ali naquela gaiola ela parecia tão pequena, quase como um filhote de pássaro… Mas não, ela era muito maior do que parecia. A jaula é que a deixava pequenina.
Corri até a rua e lembrei-me de um parque que estava a poucos metros. Fui até ele, sentei-me ao pé de uma árvore e soltei a gaivota de minhas mãos, colocando-a na terra. Mais uma vez, ela fez algumas tentativas de voo sem sucesso, até que, finalmente, conseguiu voar. Minha última visão dela foi com a luz do sol de fundo, tão alto foi o seu voo.

Então eu fiquei ali parada, me sentindo grata pela conquista da gaivota e pensando que, muitas vezes, eu me senti exatamente como ela.
Quantas vezes permaneci em lugares que me apequenavam?
Quantas vezes deixei que cortassem minhas asas?
Quantas vezes me tornei pequena por não ser capaz de mostrar minha grandiosidade onde estava?
Quantas vezes não caí ao tentar levantar voo?
Aí eu percebi que, mesmo com tudo isso, a gaivota voou. Mesmo assim, ela esperou pela sua liberdade e foi capaz de vive- la quando teve a chance.
Sem saber, ela também me salvou por me fazer enxergar que, independente do que passamos, independente das nossas quedas, devemos insistir em pedir socorro quando necessário e continuar tentando. E, principalmente, devemos nos afastar de lugares e pessoas que nos apequenam. Só assim conseguiremos voar o mais alto que pudermos e, consequentemente, perceber o quão grande podemos ser.

Anúncios

Participe da conversa! 1 comentário

  1. Nossa muito lindo. Parabéns! Você me fez voar em pensamento.
    É tão difícil a gente se livrar daquilo que nos apequena sozinhos, as vezes
    precisamos de uma força extra, de mãos libertadoras, como você bem expôs.

    Curtir

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

CATEGORIA

Beatriz Zanzini

Tags