Tão logo nasceu o dia, o sol atravessou a cortina fechada e iluminou meus olhos. Era tempo de acordar. Girei o corpo e meu braço mergulhou num vazio. Você sabia que nunca dormi no centro da cama? Mesmo depois que você se foi, eu me resignava ao meu cantinho, nunca quis ocupar seu espaço. Besteira? Talvez, mas tinha medo de apagar sua presença daquele quarto.

O amor faz sentir, dizem por aí, mas para mim ele não é só isso, é mais. Ele traz sentido à vida.

O vazio que você deixou na cama se espalhou por todo o meu corpo. Era como se eu só pudesse usar um braço ou respirar com um pulmão. É estranho, eu sei, contudo é real. Como lutar contra uma realidade?

Não há remédio humano forte o suficiente para curar uma solidão tão viva, que espanca, corta e machuca tão profundamente.  Para mim você existia, mas para nós você estava morta.

É preciso juntar todas as forças para sair da cama. Lavo o rosto, tomo um banho frio e ouço uma música animada, mas nada disso me acorda deste torpor que é a sua ausência.

A primeira coisa que faço é acender um cigarro só para me lembrar da sua voz reclamando do cheiro que a fumaça deixava pela casa e me dando sermões sobre como isso iria antecipar o fim dos meus dias. Naquela época você se importava. Será que ainda hoje se importa?

Aliás, fazer tudo o que você mais detestava, estranhamente, me traz a sua presença. Olho para o corredor e consigo te ouvir reclamando da minha preguiça e do meu jeito desleixado de lavar o banheiro.

O estranho, no entanto, foi usar apenas um dos dois pratos e uma das duas canecas que tínhamos para tomar café da manhã; mantive as suas coisas intocadas, juntando poeira no exato local em que as deixou pela última vez. Era como um museu, erguido para glorificar apenas uma obra de arte, a sua ausência.

Sei bem o que preciso fazer. Leio a todo instante em posts na internet: ame-se acima de tudo. O que tais escritores não sabem é que minha felicidade era te amar, te ter, dividir os dias contigo.

A ausência é cruel e ressignifica as pessoas sem nos pedir permissão. Todos os defeitos, agora, parecem aceitáveis, todas as brigas soam infantis e tudo que eu queria era que você soubesse disso. Algo impossível, pois te perdi para o mundo.

É provável que você já seja a presença que preenche a vida de outra pessoa. É provável que você já esteja reclamando das mesmas coisas para outros ouvidos. Que inveja de quem ouve seus gritos hoje. Daria toda essa paz que deixou em troca de um minuto da nossa guerra. De fato, o rio corre mesmo para o mar, e o que ele leva, jamais retorna.

Enquanto você segue o fluxo em direção ao oceano, eu sigo nadando contra a corrente, dando braçadas a esmo com o único propósito de não me afogar. Sei que algum dia eu chegarei à margem, mas a que custo?

Talvez eu nunca mais tenha coragem de mergulhar em águas profundas, talvez eu aprenda a nadar com mais destreza. Não sei. Pensar no futuro é te esquecer, é ter que deixar partir tudo que você aqui deixou. Ainda que para muitos pareça um punhado de migalhas, para mim é todo o alimento que preciso para me manter vivo por mais um dia.

Sim, o amor faz sentir, mas, sobretudo, dá sentido à própria vida. Viver sem ti é um sobreviver sem a menor razão de ser, e essa falta que sinto de você é a mochila que carrego, involuntariamente, nas costas todos os dias da minha vida.

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Participe da conversa! 3 comentários

  1. Sensívelmente fatal. Adorei😍

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  2. Que lindo texto, Rafael! Continue escrevendo assim.

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  3. um texto muito sentido, muito cheio de paixão. Adorei continua a escrever mais.

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Rafa Lima

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