20/09/2017

Vagalumes

Mal deixou de ser noite e o celular já tocava Fireflies, do Owl City, aumentando ainda mais meu desejo de ficar na cama. Soprava um ar gelado e o edredom era confortável em volta de meu corpo. A cabeça pesava, afundando o travesseiro. Meu sonho se encheu de vagalumes e o despertador continuava a tocar, suave. It’s hard to say that I’d rather stay awake when I’m asleep ‘Cause everything is never as it seems… A música chegou ao fim juntamente com meu dedo no botão de End. Não me dei direito a uma soneca… Abri as janelas quando abri as pálpebras e me desfiz do abraço dado no conforto, evaporando os sonhos que ainda dançavam frescos na mente: o desenho de uma montanha-russa amarela, uns carrinhos sem velocidade alguma e um rosto antigo, de gente que não se vê faz mais de uma década.

Um gosto de blues me veio à boca, me enchendo de sede e lembranças. Das que vi e das que gostaria de ter visto. Essas últimas, como sempre, ficaram… Afastei-as delicadamente antes que perdesse a máscara e a força. O céu estava vestido de preguiça. As nuvens baixas e cinzas pareciam letreiros brilhantes com os dizeres “fique na cama”, piscando, incansáveis e entediadas, como todo letreiro costuma ser. É sexta-feira, você tem deveres e o cheiro de café anuncia teu atraso diminuto, repeti pra mim mesma.

Arrastei o dia e a noite chegou, carregando outra vez as lembranças, misturadas, de um lugar que parecia ser o mesmo apesar da distância. O cheiro do diferente, o barulho de conversas, a música ambiente, o cardápio semelhante e a cerveja tão com gosto teu, que me servi três vezes. E, apesar da tranquilidade, da serenidade e da aparente felicidade, rodeada de amigos que sabe lá quando irão se ver e se reunir e comemorar e beber e rir e lembrar juntos novamente, eu quis a tua presença ali, compartilhando esses momentos comigo. Vendo a saudade da infância, perdida numa amizade de adultos que se separam porque a vida quer assim, misturada com um quê de orgulho e de alegria, por tudo que dá certo. Pelo sucesso que, mesmo não sendo teu, acaba te atingindo também.

E eu te quis perto. Quis mostrar um meio novo daquilo tão igual. Quis tua mão na minha, quis teu riso descontraído e teu olhar perdido em mim, daqueles que eu só sinto, mas não vejo. Eu queria ter compartilhado meus amigos, ter oferecido minha escolha e queria te olhar, de relance, vezenquando, só pra saber se você estava ali ainda. Se sorria, se pensava longe, se bebia, se distraia, se contava histórias. Se era você mesmo… E quando pensei não ser mais possível um lugar se encher do vazio de você, começa uma banda desconhecida, de nome que agora nem lembro, tocando blues e recordei mais e mais de você e quis mais e mais que você vivesse tudo aquilo, que fosse feliz do meu lado. E que bastasse.

Pronto. Vieram as lembranças que havia afastado tão cuidadosa nesta manhã cinza. Agora chove manso, mas o céu é azul nas beiradas, daquele azul amanhecido. Um tanto tardio. Sereno. Tranquilo.

Sadio.

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Mafê Probst

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