20/09/2017

Debochada

Tento encontrar sentido, mas minhas pálpebras pesam. Tento acalmar minha mente e meu coração, mas há um pensamento disforme que insiste em incomodar. Ele não é claro, e isso é o que mais me irrita. Se eu conseguisse verbalizar a mim mesmo as razões claras da angústia que sinto quando penso em ti, tudo seria diferente. Eu, que sempre me vangloriei por ser racional e ter meus problemas na ponta da língua, me vejo perdendo minhas horas de descanso por algo que é complicado de definir.

Afinal, não é esse o maior castigo de não poder dormir? Seria no mínimo justo que essa tal insônia dissesse claramente a que veio. Mas ela prefere misturar assuntos, confundir sentimentos, aproveitar a escuridão da noite pra instaurar o caos também do lado de dentro. Ela vem me buscar na vulnerabilidade do meu quarto, na lerdeza do meu corpo que acorda miseravelmente cansado e sem entender por que despertou. Ela vem me buscar plena de si no momento em que minha lucidez não é das melhores. Se aproveita de minhas inseguranças para propor que tudo é inseguro. Diz, à sua maneira, que assim que o dia raiar, grandes problemas estarão ali do outro lado da porta e questiona, irônica, se serei capaz de resolver.

Além de tudo, a insônia é debochada.

Sinto que o que ela quer mesmo é aterrorizar o meu já frágil coração com um medo que acompanha a história da humanidade: o medo de estar sozinho. E é aí que eu tenho uma chance clara e objetiva de dar uma bela rasteira nessa visita indesejada: as palavras, sempre elas, é que me salvam. Ainda que eu esteja fisicamente sozinho, a insônia se assusta – e muito – com a multidão que eu consigo reunir quando me uno às palavras.

E é assim, em pânico pela minha capacidade de ignorar a sua presença e convocar em poucos segundos uma legião de letras, frases e parágrafos, que a maldita começa a recuar, acanhada, na mesma proporção em que eu me agiganto. Quando recupero o ar que ela me roubou, olho bem em seus olhos pra dizer:

Tudo passa. E você também vai passar.

Nesse estágio, ela já está bastante fragilizada. É quando, já pleno de mim, dou o golpe de misericórdia com a frase que ela tanto teme e que eu tanto esperava:

– Boa noite.

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Júnior Ghesla

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