A vida é essa coisa amarga que a gente tem que tomar todos os dias. Às vezes temos a sorte de encontrar um punhado de doçura que faz o gole descer mais gostoso, mas, quase sempre, estamos tão preocupados no amargor que teremos que enfrentar que, não importa o tanto de açúcar que haja no caminho, a gente passa e nem vê.

Eu estava me preparando para engolir um generoso gole amargo. Acho que fugi a vida inteira desse gole, primeiro porque parecia muito distante, depois porque NÃO É POSSÍVEL. Virei uma velha ranzinza desmotivada nas últimas semanas, briguei comigo mesma incontáveis vezes, e levei uma penca de gente nesses desentendimentos bobos que eram só meus, mas que pareciam do mundo.

Ninguém via o caos que eu estava, porque eu escondia. E, quanto mais eu escondia, mais queria que enxergassem. BIZARRO. Acho que nunca fiz sentido, sabe? Aquele lance do ‘nada não’, quando grita ‘tudo’. Aquele lance do ‘me deixa’ quando só quero abraço. Aí eu distorcia, e xingava e olhava para esse dia como um monstro assustador.

Quando eu era pequena, parecia muito longe.

Quando eu fiz vinte e cinco anos, ainda parecia longe.

Ano passado ainda era longe. Mas os trinta chegaram. E eu os encaro da porta, esperando entrar. Uma e quinze da manhã, dois de junho. E eu estava (me) odiando.

Hoje. Dia primeiro.

Desviei a rota, peguei um presente. No caminho de volta, parei o carro na esquina para uma senhora passar. Ela carregava duas sacolinhas da padaria, usava um cachecol cor de rosa e chinelo com meias. Era dessas senhorinhas que cutucam a alma da gente, sabe? Eu esperei ela passar e ela atravessou a rua numa eternidade. Mancava. Arrastava a perna esquerda. Enquanto atravessava em frente ao carro, ela sorria um pedido de desculpas. Dava para ver o brilho das desculpas naqueles olhos cansados. Mas ela estava ali, caminhando. E tinha ido, sozinha, comprar pão. Ofereci carona, ela me sorriu outro riso bonito e disse que não precisava, que morava logo ali. Eu continuei parada, observando. E o logo ali dela, era mesmo logo ali, mas durou outra eternidade e meia. Ela me acenou do portão, sacudindo as sacolas de pão.

Ali, naquela mesma esquina, descobri que a idade só pesa para quem se permite pesar. Ali, naquela mesma esquina, eu tive a oportunidade de observar essas pequenas poesias, coisa que só o tempo é capaz de fazer a gente enxergar. E descobri que eu só sou eu por causa de todos esses trinta anos vividos.

Num sorriso marejado, finalmente, agradeci.

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Participe da conversa! 1 comentário

  1. Perfeito Mafe!!! parabens pelas excelentes postagens!! Maria Antonia

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Mafê Probst

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