O som da chuva, o vento balançando as flores do ipê amarelo, gargalhadas de criança, a pele… o sorriso… por que estou lhe dizendo essas coisas? Talvez eu precisasse contar isso para alguém e, talvez, seja para você. Um fim tarde frio, úmido e melancólico; a enxurrada levando de eito as folhas secas espalhadas na rua. Eu acabara de desembarcar naquela cidade, tudo era novo e inquieto. O mau tempo impediu-me de contemplar a beleza do lugar, a qual só conheci mais tarde. Cada junta do meu corpo rangia como uma porta enferrujada e o cansaço dominava minha mente. Uma estranha sensação de vazio invadiu meu espírito; saudade de casa? Nunca soube dizer, mas aquele aperto, aquele nó me perseguiu por anos a fio e até hoje invade meu leito.

Conheci Beatriz em um domingo de sol fraco. Comecei a amá-la vinte minutos depois de tê-la visto. O jeito meigo de menina do interior e sua candura prenderam todo meu afeto. Sabia que nunca diria “não” para ela. Estava dominado, acorrentado para sempre aos calcanhares daquela mulher. Um dia, Luís, se você for um homem de sorte, conhecerá o amor e talvez tenha noção de toda essa coisa que falo. Quando este dia chegar, pegue tudo que sente e multiplique pelo infinito, acrescente séculos e milênios e, quem sabe assim, compreenderá minhas palavras, que agora soam exageradas.

Casamo-nos na primavera. Lembro-me, como se fosse agora, daquela cerimônia. As palavras de padre Amaro abençoando nossa união, os convidados, as borboletas em festa ao redor de Beatriz… tudo isso, nunca me sai da memória, Luís. Naquele tempo, cheguei mesmo a acreditar que o amor era simples. Estávamos felizes, Beatriz e eu, com uma vida sem luxo, mas povoada de prazeres, gozos e ilusões. Não nos faltava nada, nem amor, nem pão à mesa. Parecíamos alimentados com a paixão, com a descoberta da vida a dois. Foi uma época feliz, mas tudo que é risonho e alegre não dura muito.

O verão chegou implacável e com ele as mudanças. Foi Beatriz quem me trouxe a carta. Quando li, me senti atravessado pela morte. Era uma mensagem do exército; tinha três dias para me juntar ao regimento no sul. Para muitos amigos e conhecidos, aquela foi uma viagem sem volta. Estávamos em desvantagem, os alemães avançavam decepando cabeças e espalhando uma mancha de sangue e morte por onde passavam. Não tive escolha, parti na quinta-feira. Prometi a mim mesmo que voltaria vivo para Beatriz.

No campo de batalha presenciei e promovi horrores que jamais serão esquecidos. Três anos se passaram e, finalmente, voltei para a casa. Estava exausto e trazia algo diferente no semblante. Beatriz percebeu. Sempre acreditei que ela viu em mim o sobrevivente e o assassino no mesmo homem, mas depois de um tempo soube que viu mais fundo em minha alma do que eu imaginava. Apesar disso, estava de novo em meu lar. Por incrível que pareça, tudo estava perfeitamente como eu deixei.

Estava mais rico que antes e logo tratamos de erguer nossa casa e nosso futuro. Finalmente pude realizar o sonho de Beatriz: construir um jardim. Ela amava as flores, lírios e camélias. Tínhamos muito espaço para nossas flores, mas dentro de mim havia uma cratera ainda maior. Nada escapava a sensibilidade de Beatriz, ela sabia exatamente o que se passava. Mesmo assim, não disse uma palavra e, honestamente, Luís, não pude notar a tristeza que dela emanava. Sempre que a procurava estava sorridente e me recebia com fogo e com paixão.  Em uma noite quente de verão, se entregou a mim com o ardor de uma prostituta e a delicadeza de uma virgem. Chorava de prazer e medo.

Um ano depois do meu regresso, recebi uma nova carta do sul, mas não era do exército. Novamente, Beatriz me entregou o envelope, com naturalidade. A mensagem era simples, mas dolorosa: “Meu amor, preciso de você, volte. Estou sucumbindo e vou morrer”. Escondi o papel em um velho baú de madeira que só eu tinha a chave. Aquele vazio de antes, novamente tomou conta de mim. Precisava urgentemente retornar! Fui tomado pela dor e por lembranças que julgava sepultadas há muito.

Mergulhei em um passado de beijos molhados e prazer indescritível com outra mulher. Havia mentido para mim mesmo: quatro anos se passaram e aquela pele, aquele sorriso, aquele cheiro ainda estavam em mim, como uma mancha que o sabão não é capaz de remover. Carolina era prisioneira de guerra. Nossa missão era simples: executar o grupo dela e descartar os cadáveres o mais longe possível e fugir das trincheiras. Não sei dizer quantas almas meu rifle entregou aos céus. Carolina era a última da fila da morte. Viu centenas serem abatidos sem piedade por mim.

Quando apontei o rifle e fitei aqueles olhos, uma força estranha tomou conta de mim e não pude atirar. As lágrimas dela tocavam o chão encharcado de sangue que eu mesmo havia derramado em nome de uma guerra idiota. Não pensei duas vezes e fugi, levando Carolina comigo. Havia me esquecido de Beatriz e todo o resto. Só pensava naquela mulher misteriosa com cheiro de açúcar mascavo. Foram meses possuindo aquela coisa pequenina, delicada como um botão de flor. Não sabia nada sobre ela; quem era e de onde vinha, nada disso era importante. Nosso amor era tudo, tudo! Sabe, Luís, era um amor delicado que me aquecia e fazia de mim outro homem. Mais uma vez me iludi pensando que o amor era simples.

Fui dado como morto pelo regimento. O meu retorno ao grupo foi encarado com espanto, surpresa e certa desconfiança. Havia perdido a noção do tempo e dos dias, não soube dizer quando deixei Carolina. Desisti daquela aventura amorosa depois de encontrar, no meio do mato, um lírio branco insistindo em sobreviver naquela terra fria e maltratada. O rosto de Beatriz me surgiu como uma epifania. Beijei a amante parti para encontrar os outros; felizmente não haviam comunicado a Beatriz minha falsa morte.

Quando voltei para casa, senti que parte de mim ficou naquele lugar. Não conseguia parar de pensar nos beijos e nos abraços de Carolina; da forma doce e sutil de como fazíamos amor. A lembrança me torturou por meses. A chegada daquela carta, então, trouxe tudo de volta. Era como se minha amante estivesse de novo entre mim e o paredão de execução. Aqueles olhos piedosos de novo me pedindo compaixão…

Um dia depois de ter recebido a carta, procurei Madame Lô e mostrei a ela a mensagem. Era uma mulher fina, de traços elegantes e extremamente rica. Apenas homens milionários tinham dinheiro suficiente para terem com ela meia hora de prazer. Diziam que era russa, mas a verdade é que ninguém jamais soube de onde veio. Ficou rica vendendo o próprio corpo e de outras mulheres. Seu lupanário era um espetáculo de elegância e luxo. Eu a conheci antes mesmo de Beatriz. Digamos que tínhamos um passado juntos.

Era uma mulher articulada e com muitos contatos que poderiam me levar de volta à Carolina. Estava obcecado por ela; não pensava em outra coisa. Quando a procurei, reagiu ríspida:

― Esqueça, rapaz.

― Como assim? ― Atalhei sem entender.

― Essa mulher. Esqueça-se dela e nunca mais volte para lá.

Não segui o conselho dela e em menos de cinco dias estava de volta ao sul. Tudo era muito diferente de antes. A paz havia chegado por lá, mas o povo ainda estava assustado e arredio. Procurei Carolina pelos quatro cantos. Encontrei a cabana onde passamos nossos dias de prazer e amor, mas não havia sobrado quase nada; estava completamente destruída. Tudo que pude levar de lá foi um pedaço de seda vermelho, do robe de chambre que ela usava quase sempre. Ainda tinha o cheiro dela. Voltei para casa pensando na morte e na tristeza de perder o amor da minha vida.

Beatriz me recebeu com olhos felizes, mas que escondiam alguma coisa. Temia que ela descobrisse meu impuro segredo e me abandonasse. Queria dizer a verdade, queria contar algo para alguém, mas não tive coragem. Fiz uma nova promessa para mim mesmo e decidi que finalmente o jardim de Beatriz ficaria pronto, do jeito que ela sempre sonhou.

Foram longos meses de trabalho e muita felicidade. Pena que, mais uma vez, não duraria muito. Você já estava mocinho naquela época, já dominava a arte da jardinagem, mas ainda era muito fraco para o serviço pesado. Seu pai era quem nos ajudava com tudo por aqui. Você está quase tão hábil quanto ele. Bom, mas voltando a nossa conversa, foi naquela época que descobrimos Beatriz com carcinoma. Os médicos deram a ela menos de três meses de vida. O sofrimento foi terrível.

Pouco antes de morrer, recebi uma nova carta de Carolina que dizia o seguinte:

Meu amor, é pena que o tempo não volte. Aquilo que vivemos ficará na eternidade. Está sentindo? Estou do seu lado agora. Minhas mãos percorrem seus braços e sobem lentamente, até encontrarem seu rosto. Meus lábios, quentes e molhados, procuram os seus com fome e sede. Sua barba grossa me faz arrepiar, quando me roçam o pescoço. Nossos corpos estão unidos, você aperta meus seios e respiro fundo de prazer. Estou com medo, mas quero você…

É tempo de dizer adeus, meu amor. Guarde tudo de mim na sua lembrança, mas não hesite em me esquecer quando uma nova paixão lhe bater no peito. Esta mulher levará na pele tudo de você. Não me procure mais… Adeus!!!

Beatriz morreu pouco depois da chegada da carta. Ainda enlutado, mas consumido pela curiosidade, procurei novamente por Madame Lô. Soube que se mudara para longe e ninguém tinha o endereço. Não medi esforços até encontrá-la. Foi em Paris, em um palácio elegante, que aquela cafetina bela e sarcástica se escondia.

― Como me encontrou?

― Preciso que me leve à Carolina. Eu imploro.

― Há muitas coisas que você não sabe.

― Beatriz está morta.

― A carta que recebeu era de Beatriz; escrevi por ela. Me procurou pouco antes de você. Até hoje não me esqueço da voz dela enquanto dizia aquelas palavras. Sabia de tudo, de suas aventuras e muito mais. No entanto, mais do que isso, Beatriz queria ser aquela mulher, queria ser sua amante. Por favor, não volte mais aqui.

Depois daquela conversa finalmente compreendi o que Beatriz viu em mim depois da guerra, Luís. Agora, só me resta este jardim onde nós dois estamos. Lembra-se da promessa que fez a ela? A promessa de cuidar dos lírios. Cumpra, pois tudo que me restou dela foi lembrança do som da chuva, o vento balançando as flores do ipê amarelo, gargalhadas de criança e a pele… sua pele, e aquele sorriso…

FIM…

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Flávio Sousa

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