Pisei em solo mineiro. Lá no interior, fazenda, roça. Da janela do carro, d’outro lado da porteira, avistei meu avô a me esperar na porta como fizera desde que me entendo por gente. Tinha um sorriso de orelha a orelha. O violão estava debaixo do braço, no fundo tocava Milionário e José Rico. Ele abriu os braços antes que eu atravessasse a porta de madeira e gritava “ó só o que eu vou tem procê, sá!”, ele não me oferecera inteiramente o violão, mas, sim, o melhor abraço que já recebi em todos os tempos: o abraço dele.

Ele aprendeu a tocar violão sozinho, o som era puro e o dedilhado era admirável. Nunca pisou numa aula sequer, tirou tudo de ouvido nas rádios que ouvia quando ia para centro da cidade, aka onde ficava a praça e a Igrejinha. Seu violão era realmente seu melhor amigo, andava com ele grudado e inventava arranjo sempre que sobrava alguns segundos. Passou o amor por seu grande companheiro para as filhas, os filhos, as netas e netos; nem todos sabem tocar ou se interessaram a aprender, mas ninguém dispensa ou desdenha da onda sentimental que cada acorde nos permite sentir.

“O vô num vai te ensiná não, cê me ouve e tenta fazê igual, tá bão?” essa era a frase que ele me dizia sempre. Ei, vôzinho, eu aprendi. Não tanto quanto você, mas aprendi. Nas cordas, meu mindinho fica desajeitado feito o seu. Não tenho o seu tom sertanejo, mas escolheria facilmente Decida para cantar com você quando ou voltasse pra terrinha. Te vejo na porteira todo os dias como se fosse aquele em que você me (nos) recebeu com o maior sorriso e abraço apertado, embora eu desconfiasse que seus braços tão fininhos pudessem ter tanta força. Aí eu entendi que a força não era só física, era da alma. Não mais posso te ter por perto, mas te vejo e te sinto. De herança, o violão. De aperto, a saudade.

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Thais Oliveira

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