Georges Simenon teria pensado no modelo perfeito da versão feminina.  

“Betty – Uma mulher sem passado”, película de Claude Chabrol baseada no romance de Simenon, encontrava-se levemente empoeirado num canto daquela também empoeirada locadora. Admito ter ficado intrigado com o sugestivo título, obrigando-me a fazer uma adaptação para uma outra visão, diferente do livro e do filme. 

Betty – Uma mulher sem passado.

Teria Simenon percebido o quão revelador se faz tal título?  

Uma-mulher-sem-passado…

Oh, grande mestre do Noir, você já está aí do lado de Deus, joga um lero nele, uma conversa fiada, agiliza o nosso lado, o lado dos machos malandros de integridade moral intocável, não te custa nada. 

Joga umas Bettys cá pra gente. Se puder, enche esse mundo de Bettys. Traz logo um tsunami. 

O que? A vizinha? Impossível. 

Aquela da academia? Sem condições. 

A colega de trabalho? Piorou tudo. 

Traz aquela que não conhece nem a mim nem ninguém, a predestinada, aquela que está lá atrás do arco-íris. 

Poxa, velho Georges, não me olha com essa cara não. Daí de cima dá pra enxergar muito bem. Eu lá tenho culpa se os homens acovardaram? 

Aquela mulher que surge indefesa e assustada, pedindo informação pra encontrar a estação de metrô, pois acabou de chegar de uma cidade distante e não conhece nada nem ninguém. Essa sim. A Betty do imaginário masculino. Essa não tem passado. É prematura. Bateu com a cabeça e apagou todos preconceitos masculinos. Ela não tem ex-namorado presente que consiga estressar.  Não tem amigas chatas pra falar que  o cara se veste mal ou bebe muito. Nunca se relacionou com amigos ou parentes nossos em linha reta ou colateral até o quarto grau. Não oferece resistência. Ambos nasceram ali, nó início do encontro, pra começo  de conversa. 

Na defasada visão masculina, a mulher que mora ao lado já teria seu campo minado. É velha de guerra. Vive ao nosso redor, por mais que não percebamos. Nem ela mesma. Não é mais acaso. É conveniência. Quando se encontram, apresentam-se por mero protocolo. Um levanta a ficha do outro em questão de segundos. 

Grande mestre, note o que esses homens andam fazendo! Uma verdadeira fuga das mulheres de nosso convívio direto ou indireto, como  se temessem alguma delação, como se um “histórico” amoroso equivalesse a uma ficha de antecedentes criminais, como se um contato anterior fosse um pecado mortal, uma passagem sem escalas para a condenação. 

Desdenhamos das mulheres ao nosso lado para procurarmos aquela deusa onírica, aquela  vinda direto do paraíso, feita sob cálculos e medidas pontuais a nossos desejos machistas.   

Pegar? Sem problemas. Uma, duas,  três vezes…

Levar pra cama? maravilha!

Criar vínculos e sentimentos maiores? – Opa, calma lá! Você é ex do cunhado do amigo do meu vizinho? Já ficou com o primo do enteado do filho do Zé da padaria?? Dá licença, já deu minha hora…

E desaparecemos. De ego ilibado e coração vazio. 

Muitas vezes não cedemos a uma iminente e eminente história de amor por medo de reações e de olhares tortos. Por receio de pessoas que sequer conhecemos. Colocamos o orgulho à frente do amor. Assumimos certos medos por demais desnecessários. Quase que um trauma. 

Assumir um compromisso é prestar contas com o futuro. Jamais com o passado.

Preocupar-se com o que ainda não aconteceu e quiçá acontecerá é pura falta de ocupação. O relacionamento não deu certo? Não deu, oras. Que seja por todos os motivos que caibam nesse mundo, desde briguinhas triviais a dolorosas discussões, mas nunca por razões criadas em nossos devaneios machistas. Afinal, alguém por aí já ouviu falar em amor sistemático?

Georges, Georginho se já me permite, desculpe perturbar seu sono eterno. Perdoe-me por aludir sua Betty às Bettys do imaginário masculino. Juro que foi só um desabafo. Morreu por aqui. 
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

CATEGORIA

Brunno Leal

Tags