Foram nove meses para nascer. Cerca de uma década para o sexo oposto começar a ser mais interessante que carrinhos e bonecas. Mais uns anos para o primeiro beijo, mais uns meses para o primeiro amor. Tudo na vida é sobre o tempo e o cretino não para nem para evitar com que façamos a próxima escolha errada. Ah, e pode ter certeza: sempre vai haver uma nova escolha errada. A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente – disse uma vez um certo senhor chamado Einstein. Ilusão, teimosia e persistência poderiam muito bem definir a minha história com ela.

Minha avó me dizia que tudo tem o seu tempo. Não adianta bater pé, os segundos são todos iguais. Eu sempre achei que fazia sentido. Para ser bem sincero, sempre usei desse conhecimento como arma para situações insuportavelmente chatas, em que o tempo parecia não passar, e para ocasiões surpreendentemente lindas, em que o tempo parecia passar rápido demais. “Os segundos são todos iguais”, portanto o resto é só ilusão.

Para eu conhecer ela levou uns dezessete anos. Para me apaixonar, acho que uns dois segundos. Três minutos de conversa e eu lhe paguei um drinque; três horas de festa e a gente já estava namorando. Nos seis meses seguintes foi tudo às mil maravilhas; nos outros seis a coisa desandou. Levou pouco mais de um ano para a gente decidir dar um tempo nas coisas e não levou uma semana até eu estar morrendo de arrependimento. Mas somos adultos, maduros, racionais, bem resolvidos. Ou pelo menos foi o que o orgulho mandou a gente dizer para si mesmo. Tudo é sobre tempo e, como eu já disse, o cretino não nos dá chance nenhuma.

E ele foi passando, um nó na garganta me apertando. Não deu para seguir em frente e levou sete meses até o dia em que resolvi chamar ela para sair de novo. Foi numa terça-feira de luar, ela apareceu estonteante na minha frente. Apanhei-a em casa as 19:46. Dez minutos de carro até o bar, dois minutos para o garçom trazer nossas bebidas. Três ou quatro segundos para darmos o primeiro gole e mais uns cinco de um silêncio constrangedor. Eu estava vermelho no rosto, de coração acelerado e, para ser honesto, morrendo de medo. Lembrei da minha avó e a infalível técnica de pensar que os segundos eram todos iguais. Logo, era só eu fazer o que havia ensaiado na frente do espelho na última quinzena. Três minutos e cinquenta e sete segundos, perfeitamente cronometrados, da minha declaração mais sincera e pura para a menina que eu tanto amei. Eu levei um pouco mais que isso, pois gaguejei e tive que molhar a garganta entre uma frase e outra. Conforme eu falava, meus olhos brilhavam mais e mais por pensar que conseguiria ela de volta. A cada frase eu tinha a impressão que as pessoas ao nosso redor iam parando suas conversas para ouvir o que eu dizia. Tudo ficou distante, posso afirmar até que tive certeza de ouvir música parar. Eu terminei de falar tudo que eu tinha, abri meu coração e uma quietude estarrecedora precedeu minha frase final. Levei dois segundos e meio após respirar fundo para dizer a frase mais importante, que vinha me matando e que sem resposta não daria mais para viver:

– Você ainda me ama?

Meus amigos, vocês podem achar que o tempo é sempre o mesmo. Vocês podem acreditar cegamente no que dizem os relógios, na frieza dos números, na melancolia das contagens. Vocês estão todos errados se assim pensarem.

Perguntem para qualquer pessoa naquele bar que acompanhou meu suplício. Eu terminei de falar e foi naquela exata hora em que tudo parou. Os relógios travaram, as estrelas se apagaram, os barulhos silenciaram. Não sei quantas horas aquele segundo levou para passar, mas se você não acredita, vai! Faz o que eu estou dizendo! Pergunta para qualquer um! Qualquer um que viu o tempo parar na minha frente, que ele irá lhe responder. O tempo mórbido e arrastado, em câmera lenta e descolorido, entre eu fechar minha boca e ela abrir a dela balançando a cabeça que não.

Aí você vai entender por que os segundos não são todos iguais.

Aquele, nunca terminou.

paulinho

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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