“Vovó, quando a gente sabe que é amor de verdade? ” Confesso que a pergunta não me pegou de surpresa; Clarissa vem de uma família de artistas e o romantismo é comum para ela. O irmão mais velho, Robertinho, de 14 anos, já mandou flores, já fez poemas e declarações acaloradas para uma menina do colégio. É bonitinho o amor de criança. A mãe não permite que namorem (e concordo com ela), mas acho legal que aprendam desde cedo a cultivar o lado sadio do amor.

A pergunta foi direcionada para minha tia, que é avó de Clarissa. Estávamos na cozinha. A pequena fez cara de sofreguidão e suspirou como naqueles filmes de amor dos anos 70, onde a mocinha se derrete por um ato heroico do mocinho. Fiz cara de riso e continue lendo Nelson Rodrigues como se nada tivesse acontecido. Lúcia (minha tia e avó de Clarissa) soltou uma gargalhada tremenda e me jogou na fogueira: “― Não sei; pergunte ao Ezequiel, ele entende do assunto.”

Fitei minha titia por sobre o livro com olhar homicida e senti o coração disparar. Nunca pensei ser tão difícil encarar uma criança curiosa. Clarissa tem sete anos, mas seus olhinhos tinham sede de uma resposta que pudesse mudar para sempre sua vida. Imaginei, por alguns segundos, a garota como minha filha; foi bizarro. Um dia ela perguntou ao pai dela, Roberto Carlos, que é músico e escritor, “como os bebês vinham ao mundo”. Senti a garganta gelar, não por achar a pergunta um tabu, ou caretice da minha parte, mas sim por, no lugar dele, não saber o que dizer. O cara foi mestre: disse que era tudo graças ao amor dele pela mãe dela. Explicou que, quando se ama muito alguém, a força da paixão faz nascer uma nova vida, como a soma de duas forças poderosas, que geram algo ainda melhor e mais poderoso. “― Que nem quando a gente soma 2+2 e dá 4, papá?”, perguntou a guria curiosa. Ele sorriu e disse que sim. Depois dessa aula poética sobre soma de amores e tudo mais, explicou o processo, o sexo. Ela reagiu bem, Roberto foi didático e não deu margem para futuros embaraços.

Viajei e Clarissa me puxou de volta para a cozinha e para a fatídica dúvida: “― Quando a gente sabe que é amor de verdade, tio Zequinha?”. A menina sempre me chamou assim, de Zequinha, aprendeu com meus amigos. Como eu queria ser pai para sair daquela situação e responder Clarissa sem traumatizá-la ou vender-lhe uma falsa ilusão. Que difícil é ser pai! Foi a primeira vez que tremi nas bases e morri de medo de ter um filho, embora a paternidade nunca, ou pelo menos raramente, ocupou meus pensamentos.

Queria responder com a literatura, pensei em Goethe. “Bom, Clarissa, amor de verdade é quando você é capaz de tirar a própria vida em nome daquele que é dono do seu coração, assim como fez Werther.” Descartei a resposta antes que ela me saísse pela boca. Estava convencido de que meus autores favoritos teriam a resposta para a pequena, mas minha influência trágica, como Lúcio Cardoso, Nelson Rodrigues, Nabokov e outros não pareciam ter respostas sobre o amor para crianças. Sabia que, no futuro, Clarissa sofreria por amor. Todos sofrem por amor, não é mesmo? Até essa certeza se transformou em dúvida naquele momento. Estava literalmente atônito. O rosto apreensivo de Clarissa e a ansiedade atômica de criança provocavam em mim uma agonia profunda. No ápice do meu desespero, comecei a rir. “― Bobão, eu to falando sério, me responde! A vovó disse que você entende do assunto.” Voltei meu olhar homicida para tia Lúcia, que deixava a cozinha em direção ao forno, que fica nos fundos da casa. Não tinha escapatória, era responder ou responder. Bom, então fiz o que todo jornalista faz: perguntas!

― Por que você quer saber se é amor de verdade, Clarissa?

Dexaôticontar. Acho que apaixonada pelo Pedrinho, lá da escola, Zequinha. E queria saber se é de verdade. A mamãe falou que a gente só ama uma vez e sabe quando é de verdade, mas eu não sei, ninguém me ensinou.

― Isso ninguém nos ensina, Clarissa.

― Como vou aprender então? A vida é muito difícil! Amar é muito chato; não quero amar mais! E se eu não acertar nunca? ― Talvez, Clarissa, a gente não acerte nunca, mas você não precisa saber disso agora, pensei com meus botões.

― Você acha que é de verdade com esse tal de Pedrinho, Clarissa?

― Eu acho, mas não sei, sabe?!

― Você sente, o quê, Clarissa?

― Ah, quando eu o vejo na escola, me dá vontade de dividir minha coxinha com ele. Eu sei que amo coxinha, o senhor e a vovó sabem disso, é meu lanche mais favorito. Então, se eu quero dividir o que eu mais com ele, deve ser amor, né, Zequinha?

Tia Lúcia voltou à cozinha depois de me deixar em apuros com Clarissa. Trouxe alguns quitutes que a menina e eu devoramos feito dois porcos no chiqueiro. Acho que a fome (ou a vontade de comer) é maior que o amor. Pedrinho, a paixão e a vontade de dividir tinha tudo ido embora e a garotinha nem se lembrava mais de nada naquele momento. Comeu e sorriu. Quando pensei que estava livre, ela voltou:

― E aí, Zequinha, é amor ou não?

― Pensando bem, Clarissa, é melhor mesmo amar alguém que a gente queria dividir uma coxinha. Acho que é amor sim, Clarissa. Desde quando você divide sua coxinha com ele?

― Até hoje nunca, né, Zequinha! Eu disse que queria dividir, não que dividia. Não vou dividir o que eu mais amo com a pessoa errada, vai que não é ele?!

― Menina esperta!

A mãe da pequetucha me salvou! Apanhou a garota e as duas foram embora, de volta para a casa. Quando ela foi embora, fiquei pensando: talvez seja melhor mesmo amar alguém com quem a gente gostaria de dividir nossa coxinha. E o mais sábio Clarissa me ensinou: não se pode dividir o amor (ou a coxinha) com qualquer um. Vai que não é a pessoa certa? Se é que isso de pessoa certa existe. Melhor não tentar entender. Nelson Rodrigues me aguarda…

FIM…

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Flávio Sousa

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