Ele pensou que nunca fosse ouvir isso de sua boca, mas lá do âmago, ela disse com toda a sua decepção “não diga eu te amo”. E eu fico pensando quantos “ele” não há, espalhados por aí. E quantas versões femininas dele, também, todas travestidas em corajosas covardias cotidianas. Estas três palavras são muito significativas para serem ditas de boca vazia, de coração tresloucado, de alma obscurecida, pensamentos cheios de tramoias e a língua tão perspicaz quanto uma serpente. “Eu te amo” é para ser dito desde as vísceras, até cada movimento dos nossos dedos.

Portanto não diga “eu te amo”, por favor. Não diga estas palavras que estremecem o estômago da gente e perfuram o coração feito uma flecha, se vai colocar o seu celular em modo “silencioso” e dizer que estava em casa, dormindo, enquanto você sabe, é mentira. Não presuma tanto assim a inocência do outro, que foi pego em seu laço de paixão e graça, que envolvem tudo, feito uma fumaça espessa e entorpecente. Não se atreva.

Não diga “eu te amo”, se vai “matar” um parente próximo de um de seus amigos, para usar como disfarce de outra coisa que você vai fazer. Nem diga “eu te amo”, se vai “terminar” relacionamentos de seus amigos próximos, para sumir na noite de sexta-feira e só dar as caras no sábado, no meio tarde, e ao ouvir a pergunta “como o seu amigo está?”, ao se deparar com a falta de resposta, soltar um “estou cansado de falar sobre isso”. Todas estas desculpas caem por terra quando a gente, na tentativa de mostrar que também são relevantes as pessoas que importam para você, é bruscamente interrompida por um ataque de raiva e ciúme sem explicação alguma, em um “por que tanta preocupação com os meus amigos?”. Não se atreva.

Não diga “eu te amo”, se vai exigir compreensão da outra parte, mas jamais se esforçará para ser alguém compreensivo. Se você levará a outra parte à extremos o tempo todo, deixando sempre por um fio, mas não abandonará a sua preciosa zona de conforto, toda decorada com as suas ridículas cortinas imperiais em tons de rosa e seus sofás de 1830. Eu penso neste teu lugar e me dá uma vontade imensa de espirrar, com todo o pó e todos os ácaros aglomerados nestes panos velhos, que você insiste em não trocar.

Ah, não diga “eu te amo”, não. Não enquanto você distribuir estas palavras como cartas de poker, blefando em cada jogada, lendo o outro e escrevendo você acha que deve, como fica melhor para você e for mais vantajoso. Não se atreva à tanto.

Ei, guarde o teu “eu te amo”. Pare de dizer estas três preciosas palavras enquanto os ouvidos que a ouvirem lhe forem apenas um troféu. Eu já não lhe disse que isto deve ser dito desde as vísceras? Enquanto não lhe embrulhar o estômago em um choque frio que corre rapidamente pelo teu corpo ao ouvir um nome, não diga. Engula as tuas palavras. Segure a tua língua, que mais parece uma serpente.

Esqueça que há “eu te amo”. Esqueça. Ignore a existência desta frase dourada. E continue esquecendo, enquanto você não souber o que é real fidelidade, e mais do que isto, profunda lealdade ao amor e à quem se ama. Deixa estar, enquanto não aprender que o corpo só faz aquilo que a mente manda, que a gente escolhe querer e desejar. E vá deixando, enquanto não compreender que esta questão é além do que os teus olhos, hoje, podem ver.

CALE A SUA BOCA antes que diga “eu te amo”, se você não despiu a alma. E continue se emudecendo, enquanto continuar ansiando levar ao “eu te amo”, os teus títulos, a tua profissão, o teu carro, o teu sucesso precoce, a tua casa, os teus sapatos, os teus relógios, a marca do teu cigarro, a garrafa de vinho que já virou vinagre e você, de esnobe que é, nem sabe, ou a tua importância quando pisa em algum lugar. E o mesmo, referente à quem se ama. Que se dane essa coisa toda, se você não sabe se despir delas se desarraigar de tudo e até analisar no outro, ao dizer “eu te amo”.

E vá para o meio do inferno com a tua boca cheia desta frase, se vai continuar achando que o mundo gira em torno do teu umbigo enquanto você diz que não, se vai negar atenção, se não dará os teus ouvidos e nem emprestará os teus ombros; Se os teus modos forem continuar duros, e as tuas palavras, rudes… vá às favas. Amor não se convence no GRITO. AMOR SE CONVENCE NO silêncio das atitudes GRITANTES e gentis. Engula o teu egoísmo. Coma com farinha a tua prepotência. Passe uma banana na frigideira para acompanhar a tua arrogante surdez emocional. E não se atreva à dizer estas palavras. Não para ela, que já se cansou. E nem para mim, que te desprezo. E nem para um outro alguém, pois não há ser humano que mereça sentimento tão pífio, tão pobre, tão desnutrido, tão tóxico… tão mortal.

Talvez você precise comprar um coração, pois eu não acredito que você tenha um. Ou compre um maçarico, e derreta todo esse maldito gelo, que te envolveu propositalmente, entre um lençol emaranhado e outro, entre uma máscara mal feita, usada com gente que tem 50% de cegueira em cada olho. E releia cada linha, enquanto eu vou embora da sua ingrata vida. Essa carta é para você, que diz “eu te amo” mas não entende o porque, não vê a profundidade do que está dizendo e nem se preocupa em saber. Mas faça um favor, imprima isto e leve com você. Distribua por aí, para todo o mundo saber, que enquanto for e viver como você, enquanto olhar e pensar com os teus olhos, enquanto não sentir o peito doer por alguém, não deve dizer. Então é isso. Não se atreva à tanto, não enquanto você gelo e latão.

Não diga “eu te amo”.

 

 

 

 

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Débora Cervelatti

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