Ana Paula nunca fora uma mulher de certezas; fazia da dúvida uma morada. Até mesmo nos mínimos detalhes estava sempre indecisa. Não conseguia, por exemplo, dizer se gostava mais de chocolate ou coxinha. Para ela, ambas tinham seu valor, mas decidir, escolher, preferir uma a outra era demasiado desconfortável e então deixava que a ocasião fizesse a posse de seus sentidos e escolhesse por ela. Dizia, para si mesma, que era com o vento: sem direção. Por vezes achava estranha essa história do vento. De onde ele vinha? Da esquerda? Ou da direita? Talvez viesse de cima? Ou debaixo? Sorria, enquanto mastigava o chocolate branco e seguia, debochando da própria condição.

Os amigos diziam que Aninha ― era assim que todos a chamavam: Aninha! Aninha miúda, de braços delgados e cumpridos dedos que dedilhavam vorazes notas no violão; Aninha de rosto fino, mas de traços atraentes e sensuais; Aninha de pernas lisas e brancas; Aninha sorridente; Aninha estranha e indecisa! ― os amigos, aqueles chatos precisos e decididos, mas que ela às vezes amava e que às vezes odiava, diziam que era moça de coração aberto, que seria um perigo se um dia se apaixonasse. “Pobrezinha, um dia terá de amar e o amor não aceita dúvida, não aceita meio-termo! Sofrerá a coitada, sofrerá! Que Deus a proteja, que Deus a proteja!”, disse Zózimo, o amigo mais próximo.

A primavera chegou e Aninha gostava do cheiro das flores, dos canteiros das Avenidas que se faziam mais coloridos e bonitos. Mas odiava, com toda sua alma, o tempo abafado e meio-quente, nem freio, nem quente: meio-quente! A felicidade, acreditava a pobre menina-mulher, estava nas cores da primavera, não no tempo abafado e feio. Também odiava a gente que saia de casa para ver as flores, pois acreditavam que todos eram hipócritas! Sim, hipócritas! “Por que não vieram quando o Ipê era só galho seco? Ele só merecia atenção quando todo adornado pelas cores vivas e pulsantes de suas flores? Não se conformava, não se conformava! A raiva desaparecia cada vez que olhava para as rosas, para as camélias (que recusar julgar quais eram mais belas, as vermelhas ou as brancas), as tulipas, os lírios…

Zózimo, o amigo, andava preocupado. “A temporada das flores é também a temporada dos amores! Santíssima Maria Trindade, a temporada dos amores! Minha menina vai ser pega, vai ser pega!”, pensa enquanto bebia seu leitinho quente com canela. Aliás, esse era um homem decidido! Católico (fervoroso), casto (por opção), destro (de nascimento), culto (embora chato) e tantas outras qualidades fúteis que fazem um homem se sentir melhor que os demais. Cuidava de Aninha desde os 11 anos, período difícil para a pequena que perdera a mãe para um câncer no baço. Até hoje a menina não se decidiu se aceita a mãe no túmulo, sepultada e ao lado de Cristo, ou se fizera uma viagem, para muito longe… Usa as duas opções conforme lhe convinha.

O velho Zózimo estava certo! A temporada do amor veio com tudo! Foi acometida de um êxtase que jamais havia sentindo. Estava perdidamente apaixonada por Silvio, um moço forte, de braços peludos e de grossas veias, com voz de veludo emplumado e que, de noite, fala francês para a pequena! Conjugaram o verbo com o que tinham de melhor: passearam, viajaram, beijaram, transaram. Aninha estava perdida; o caminho parecia sem volta! O amigo, ainda com medo do temperamento indeciso da moça, olhava o romance desconfiado e rezava para que a paixão de Silvio aquietasse o coração de Aninha.

Semanas depois, eis que surge a menina-mulher desolada, completamente perdida, desesperada! “Amo outro, tio Zózimo (o tratava de tio, embora não fosse da família), amo outro! Só que também quero Sílvio, tio”, as lágrimas corriam pelo rosto e molhavam o fino assoalho de jacarandá de Zózimo. O velho abraçava e dizia, com ar professoral, “que era preciso escolher; a vida são escolhas”. Se recusou, trincou os dentes e bufava: “Escolher jamais, tio Zózimo, jamais! Prefiro a morte!”. O velho calou e enlaçou Aninha num abraço quente e com cheiro de canela.

Há uns dias andava meio abatida, mas quase ninguém notou, a não ser Zózimo. Esse sabia exatamente do que se tratava. “O amor exige certezas, certezas!”. Era sábado quando veio dizer ao tio que iria viajar, para as Pedras do Aranha, lugarzinho paradisíaco, com cachoeiras e montanhas. Silvio iria junto ― só não disse que o “outro” também iria. Zózimo, desconfiado, pensava: “Será que se decidiu?”. Deu um abraço na moça-mulher e a viu partir. Sentiu um aperto no peito, quase um mau pressentimento.

No caminho planejou tudo em silêncio. Assim que chegaram chamou os dois, que acharam a situação bizarra, pois um nunca vira a fuça um do outro. Aninha abriu o coração e se declarou para Silvio e para o amante e disse que não poderia escolher a qual dos dois amar e por isso decidiu amar apenas a si mesma. Deu um beijo, sem graça em cada um deles, e correu… A partir desse ponto, há controvérsias: a polícia diz que a jovem foi arremessada das Pedras do Aranha por um dos amantes, mas não há provas suficientes.

Em casa tio Zózimo sabia de toda a verdade. Sabia que a sua Aninha se recusou a escolher e preferiu amar a ambos e não amar mais ninguém na vida. Escolher era para ela uma dor, uma dor horrível… Queria amar a todos, mas não poderia. Pulou para se libertar de sua vida ingrata que sempre cobrava dela uma resposta a qual ela não tinha. “Aninha pulou; finalmente escolheu”, pensava. Há quem diga que escolheu o amor da mãe sobre todos outros…

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Flávio Sousa

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