Sinto correr nas veias um pulsar incontrolável, um desejo inefável. Cada poro do meu corpo consegue perceber essa estranha presença que torna tudo mais belo e terno. Não foi ontem que me flagrei chorando com os lírios da praça? Tudo está à flor da pele, como um vulcão próximo da erupção. Logo, aquilo que é ininteligível para os homens sem coração explodirá e derramará um pouco de mim, em lava, sob as cabeças tristes. Uma chuva de fogo, mas que não queima: apenas faz arder o coração e pedir por mais, por mais desse doce cálice de perdição.

Estou descontrolado, quero conjugar ― mas apenas com você, amor! Não consigo me controlar, não consigo! É uma força comparada a natureza! Incontrolável, instável, furiosa, impiedosa, mas acima de qualquer coisa: bela! Homem algum seria capaz dizê-lo sem titubear, sem fraquejar. Como coisas assim não sem brincam! Podemos ser tragados e jamais encontrarmos a superfície. Você ainda ousa desafiá-lo? Cercá-lo, dominá-lo? Quem sabe mata-lo? Advirto aos navegantes de primeira viagem que ninguém, jamais, conseguiu vencer essa disputa que sangra homens e mulheres há milênios.

A mira é precisa e o tiro certeiro; quando se recuperar do susto estará perdido em um universo paralelo impossível de ser retirado. Ainda duvida? Imagine que hoje, um dia qualquer, um homem está numa avenida, são três da tarde. O trânsito está insuportável, sente a fumaça tóxica dos motores perturbarem os sentidos; caminha mais depressa. Ao longe, ele te observa e comemora a vitória inevitável. Tarde demais, não há como fugir foi dominado, dominado! Ainda emputecido com o ritmo frenético da cidade grande, pensa que seria melhor viver no sítio essas coisas… Dois minutos depois o disparo vem certeiro! Mais está abatido e marcado para sempre, preste bem atenção: para sempre! Palavra forte que só deve ser usada em situações como essa, ou similares.

Naquele instante, percebeu que nunca escutara tão bem como naquele momento, ouviu o som de uma risada, uma risada doce, que elevam a curiosidade e nos desperta a curiosidade de descobrir a quem pertence aquele som dos deuses! Pobre coitado, a armadilha perfeita foi armada, um sorriso. Vira-se, olha para o outro lado da rua, e se surpreende! Sentiu curiosidade, frio, medo, os passos se desengonçaram, tropeça, esbarra em pessoas, mas seu instinto só quer aproximar, aproximar, aproximar, cada vez mais e mais! Quando finalmente consegue, emudece. O amor, às vezes, é um gato que come sua língua.

Sem entender o motivo, perde o controle do mais simples dos movimentos. Pernas balançando, palavras desconexas, tremor, olhar inquieto, a boca amarga e seca. Luta incansavelmente para tentar se recompor, mas fracassa. O cérebro está dominado, o tiro espalhou o veneno por todo o corpo e, a partir desse instante, as sequelas são irrecuperáveis! Ou, a sensação tende a se multiplicar e atingir um êxtase supremo que carregarão, juntos, para tumulo, quando forem enterrados, lapide a lapide.

Do outro lado, ela não entende muito bem o que se passa. Gosta daquela confusão. “É diferente”, pensa com seus botões. É preciso dizer que as mulheres são mais resistentes, os efeitos sobre elas são diferentes e o ataque também.

Quando aqueles minutos de loucura terminam e cada um voltou pra casa com seus respectivos números e contatos, o estrago já estava feito. Tempos depois, após um longo período conjugando boas expectativas e muito carinho, ela foi embora. Os motivos nunca foram muito claros. Estavam felizes, é fato, mas algo dentro dela a fez desistir, seguir rumo novo. Disseram que já ela era uma infectada, que não conseguiu superar e infectou outro, sem medir as consequências…

O fato é que, este homem, o abatido e este que te escreve, são a mesma pessoa. O tempo passou e continuo sem entender por que ela foi embora, por que desistiu. Não por maldade, nem tão pouco por vingança, continuo à procura de sorrisos. Por vezes encontro muitos, coleciono histórias, vivo momentos, mas a mancha continua. Não se preocupem: não há ressentimentos, nem mágoas acumuladas, apenas vontade… Vontade de falar dos amores dos meus amores!

FIM…

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Participe da conversa! 1 comentário

  1. É assustador o quanto me identifiquei com essas palavras…

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Flávio Sousa

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