Você acena pra mim de uma maneira aparentemente tímida, e eu, pego de surpresa, não consigo disfarçar a alegria em forma de sorriso. Ah, essas deliciosas coincidências, um mundo desse tamanho todo e nós dois no mesmo lugar e na mesma hora. Minha mente vai longe, será que realmente não passa de uma mera casualidade? Não haveria um alinhamento dos planetas ou um complô dos deuses no meio disso tudo? 

Passei  a desdenhar do tempo no momento em que te encontrei. Tenho a impressão de que esses malditos e ininterruptos ponteiros que regem nossa vida paralisam quando diante de ti. Já te disseram que há em você toda uma espontaneidade ao conversar fazendo caras-e-bocas? Que seus olhos, vezes castanhos claros, vezes esverdeados, expressam-se tanto quanto seu sorriso envergonhado? Que suas palavras são pra mim as canções que eu jamais conseguiria compor? Você caminha a passos mansos, serenos, e te acompanhar me faz imaginar que não estamos no meio de tantos carros e tantos prédios,  e sim à beira de um rio bem clarinho, ouvindo o barulho da correnteza chocando-se em algumas pedras. Já pensou? E antes que você comece a zombar de mim, saiba que se sou tão sonhador assim a ponto de pensar essas coisinhas bobas, é tudo por causa de você, senhora-culpada-pelos-meus-mais-adoráveis-e-sinceros-pensamentos.  

Reparo no seu novo corte de cabelo, você sorri e pergunta, um pouco espantada, se radicalizou muito ao cortar as mechas até quase na altura dos ombros. Eu te acalmo e digo que continuaria charmosa mesmo com um agressivo moicano moldado a gel, você faz careta e diz que isso não vale, pede pra eu falar sério, e acredite, sinceridade maior eu não seria capaz de dizer. Gosto desse seu jeito camaleoa, autentica, e sei que personalidade forte você tem pra dar e vender. 

Você segue em frente e meu caminho me obriga a virar a esquina. Me abraça e diz até-qualquer-dia. Diminuo o passo e te observo caminhando. Sei que você riria da minha cara se eu te dissesse isso, mas se o amor nada é senão uma grande e bela breguice, então fico a imaginar se algum dia viraremos, de mãos dadas, as esquinas dessa vida.
 
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Brunno Leal

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