(…) o que se ama é uma “cena”. “Cena” é um quadro belo e comovente que existe na alma antes de qualquer experiência amorosa. A busca amorosa é a busca da pessoa que, se achada, irá completar a cena. Antes de te conhecer eu já te amava… E então, inesperadamente, nos encontramos com o rosto que já conhecíamos antes de o conhecer. E somos então possuídos pela certeza absoluta de haver encontrado o que procurávamos. A cena está completa. Estamos apaixonados.”

É o que Rubem Alves explicou lindamente em seu livro “Retratos de Amor”, mostrando sua sua visão sobre o que se busca quando se deseja viver um amor, ou seja, ter alguém para compartilhar o que ele chamou de “cena”, que nós podemos compreender como os momentos que consideramos importantes em nossas vidas.

Sempre haverá algo que queremos dividir com alguém, porque sabemos que aquela pessoa, por sua relevância, pode tornar o acontecimento ainda mais bonito, complementando e dando ainda mais sentido ao que vivemos, desfrutando do mesmo instante de sentimento profundo. Uma ida ao cinema, um passeio de barco, de bicicleta, uma foto no jardim, o momento do brinde… tudo isso são cenas que nos tocam, não de maneira passageira, mas de forma que faz com que possamos nos lembrar daquele momento que se congela no espaço por toda nossa existência.

Quem nunca se imaginou vivenciando uma dessas situações com alguém, um dia há de imaginar e mesmo que esse dia esteja muito distante, chegará a ocasião em que verá a si mesmo numa cena que não seria a mesma sem a pessoa ao lado, mesmo sem nunca ter imaginado aquela presença. No entanto, antes de mais nada, é preciso que tenhamos acontecimentos só nossos, que saibamos sermos sós, que paremos por alguns instantes para as nossas fotos e cenas solo, que possamos sentir sozinhos, viver bem desacompanhados para vermos a beleza e sentir o prazer de sermos alguém antes de querermos abraçar outro ser para a eternidade de um retrato.

Para que a companhia seja bem desfrutada e receba seu devido valor,  é preciso que, com a nossa própria companhia, também saibamos viver para que assim a base do relacionamento, que ainda não chegou, se torne sólida o suficiente para apoiar os porta retratos que a vida trará e que as fotos ostentem sorrisos verdadeiros e não aquele forçado cerrar de dentes no instante em que o fotógrafo aperta o botão.

Aprender a ser feliz consigo mesmo antes de pensar em construir a felicidade com outra pessoa, é um exercício diário que nos eleva, porque é assim mesmo, de grão em grão, que conhecemos o caminho do autoconhecimento, que chegamos ao nível do amor sem exageros, sem esperar demais pelo que o outro pode nos dar, sabendo que somente nós podemos dar à nós mesmos o que necessitamos e para que aquela pausa para o retrato registre não somente a aparência de um rosto feliz, mas de uma alma que se une ao sorriso de lábios e peito abertos.

Para quem sonha em reproduzir o retrato que viu na sala de estar do amigo, ou algum outro conhecido, dou meu aviso de marinheiro de segunda viagem: É impossível realizar o retrato que o outro arquitetou e nos encaixar numa cena que não foi feita para nós, porque a nossa verdadeira cena é o que vem de dentro, aquela que, sem saber, já possuímos em nossas mentes influenciadas pelas coisas do coração.

Amamos a cena, como disse Rubem, porque nossa vida toda é repleta de uma porção delas: os momentos que se eternizam em nós. O momento em que recebemos o primeiro presente, um abraço apertado por termos realizado algo bonito, um elogio, um sorriso sincero, quando pegamos em nossas mãos o nosso diploma tão suado, quando ganhamos a luta entre as baixas probabilidades e nossa vontade de continuar, o encontro com o outro ser que tanto sonhamos para dividir nossos dias…Todos esses momentos são nossos e, por mais que tenham suas semelhanças, ninguém pode reproduzi-los, pois cada um registra a sua cena a seu modo, tornando nossos momentos em algo único e intransferível. Nossas cenas são apenas nossas, são instantes, momentos que se eternizam na retina, antes da foto, antes da legenda que será escrita logo abaixo naquele grande álbum de recordações, mas que fique claro, não só de coisas que já aconteceram vive o nosso “fazedor de cenas”. Há também aquelas que estão lá, prontinhas, no quentinho do peito, só esperando para serem reproduzidas e se tornarem carne, osso e sentimento. Essas são aquelas a quem chamamos de sonhos, os motivos pelos quais continuamos e encontramos forças para insistir que a vida vale a pena em todos os seus detalhes, mesmo que o sonhado “click” demore a chegar.

Existem também as cenas que nós não construímos nem em nossas cabeças, muito menos em nossos corações, mas que acontecem e ficam gravadas, senão na foto, mas em nossas mentes, essas são aquelas pelas quais jamais desejaríamos passar, mas que nos são necessárias por alguma razão que ainda não compreendemos. Essa é a vida tomando seu curso fora de nosso controle, mostrando que não podemos planejar tudo e que não podemos seguir acreditando que tudo será sempre da forma que sonhamos, mas que, por mais que demorem a sair de nossas memórias – às vezes nunca saem – são necessárias e que, assim como os bons retratos, servem para nos lembrar do que somos feitos, que somos frágeis e falhos, e que nós temos tudo o que precisamos para transformar essas situações em cenas de superação, convertendo as nossas sofridas lembranças em desafios vencidos, nos tornando assim mais fortes, tendo a certeza de que nos tornamos mais fortes e, colocando- o na nossa estante de memórias, recebemos de lá do fundo do que somos, a mensagem de que novas e felizes cenas hão de surgir.

Rubem Alves também disse que “é mais fácil amar o retrato”, afinal, ele já está ali, pronto e acaba nos auxiliando na tarefa de elevar esse sentimento à um outro nível, transpondo o significado não ao objeto, mas àqueles que fizeram daquela cena uma realidade e ao momento que se tornou eterno.Temos uma infinita capacidade de amar dentro de nós, e não amamos somente as memórias, mas também as possibilidades de momentos felizes, o que está por vir, o que acreditamos que será nosso novo motivo de alegria.

O retrato pode nos trazer a tona cenas que já não são mais possíveis hoje, mas ele também é, para nós, seres dotados de sentimento, a certeza de que a cena que já amamos em segredo antes de ser realidade, é possível e é por isso que seguimos, mesmo sem saber, em busca de cenas novas. Elas nunca se desfazem, estão sempre vivas no retrato e dentro da gente, mas o mais importante a saber é que mesmo que elas possam acontecer a qualquer momento, hoje, amanhã ou daqui a duas horas, nós temos o poder e a escolha de amá-las e possuí-las, porque é delas que são formados os nossos verdadeiros tesouros, tudo aquilo que nem mesmo a morte pode tirar de nós.

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Camila Bertelli

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