28/06/2017

A noite

As gotas de chuva que caiam do céu entravam em sincronia com as minhas lágrimas as 4h30 da manhã. Os trovões que a tempestade deixava escapar eram como todos os arranhões do meu coração, e as pedras que começaram a cair de repente, eram as lembranças de nós dois que invadiam o meu peito sem dó, arrastando e quebrando qualquer resquício de algo inteiro, de algo não machucado.

A noite era minha melhor amiga e ao ver o sol nascer continuava chovendo, porém dentro de mim. Apenas o céu negro me entendia, pois ele não fazia perguntas e não se metia na minha confusão. A noite era minha melhor amiga, simplesmente porque só ela me possibilitava o prazer de ser eu mesma, sem máscaras, sem sorrisos forçados, sem alegrias vazias e sem nada que não me preenchesse. Eu era noite e não queria ver a luz do dia, não queria olhar para o céu e enxergar o azul, não queria ser obrigada a sair da minha cama por motivo algum, muito menos para encarar o movimento lá fora.

Eu queria aquilo, aquela treva, aqueles pingos escorrendo na janela e tornando real a minha fantasia. Eu queria saborear a tristeza, sentir minha solidão, falar com meu coração e descobrir sozinha tudo o que aconteceu de errado com ele nos últimos anos. Eu queria ser só escuro, não precisava de cor.

A vida resumia-se em lembrar e tentar constatar o que fiz de errado. Sim, o que EU fiz, porque a culpa de tudo foi minha, tu fostes um santo, o meu anjo e ao mesmo tempo o demônio da minha alma e o responsável pela morte de tudo que havia de bom em mim. Mas isso só aconteceu, por um erro meu.

Mas a noite me fortalecia (ou apenas fazia eu me sentir mais forte). A cada chegada o escuro me trazia luz e a cada partida meu coração se despedaçava com a despedida. Pior do que te perder era perder a noite, aquela que no dia em que fostes embora, me acolheu e ficou comigo sem nunca julgar minhas lágrimas exageradas ou olhar torto para a garrava de vodka pela metade ao lado da cama. Aquela que me abrigou quando nem meu próprio corpo queria conviver comigo, que me fez dormir em meio aos soluços e me fez reagir em meio aos tormentos que me levavam ao chão. A noite fria e gélida que tirou o fogo da paixão do meu coração e colocou no lugar algo mais forte e resistente, a prova de sentimentos e totalmente imune a qualquer declaração.

Por isso hoje eu ainda só me deixo levar pela noite, que as vezes te traz, as vezes te leva, mas que na maioria das vezes, me eleva.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

CATEGORIA

Nathaly Bonato

Tags