Foi ela quem notou o primeiro pingo de chuva. Depois de tanto tempo, tantas conversas, tantas mensagens bonitas, enfim se encontraram novamente. Foi naquele parque, em meio àquela cidade enorme e cercada de prédios, que ele sorriu pra ela, acarinhou seu rosto e lhe roubou o beijo. Durante o beijo é que ela sentiu o pingo de chuva, que lhe acertara o ombro esquerdo quase em cima da alça da blusa. Na hora ela pensou que-se-dane-é-só-um-pinguinho-besta e o abraçou mais forte, trazendo o corpo dele pra junto do seu, e então os pingos foram aumentando e um temporal daqueles de fim de tarde de verão resolveu desabar.
A primeira coisa que pensaram foi correr pra debaixo de alguma marquise, mas como dito estavam em um parque e por ali havia apenas árvores e bancos, por alguns instantes ficaram debaixo da maior arvore que viram mas de pouco adiantou, então olharam um pro outro e, já bastante molhados, riram e se abraçaram, saindo debaixo da árvore o voltando pro meio do parque e pro meio da chuva, ali mesmo onde o beijo aconteceu. Nenhuma palavra foi dita, apenas riram, riram e riram, riram com o silêncio das palavras e com a cumplicidade do abraço, olhavam um para o outro com a certeza de que toda aquela cena estava sendo compreendida, ele sacudindo os cabelos como quem acabara de sair do banho, ela com as mechas encharcadas escondendo parte dos seus olhos castanhos. Então ele, com o cuidado de quem ali reconhecera um sentido diferente à sua vida, ajeitou o cabelo dela e lhe roubou outro beijo, o segundo beijo, um beijo em meio a sorrisos e pingos fortes, um beijo banhado de sinceridade, um beijo que nada falava mas tudo dizia, e naquele momento a chuva não se tratava mais de algo que os atrapalhasse, era sim uma forma de bênção, uma espécie de casamento diferente do que a igreja e o Estado inventaram, um casamento onde as únicas e suficientes testemunhas eram seus sorrisos entrelaçados.
Beijaram até aterrissarem novamente naquele parque, a essa altura o temporal já estiara, permanecendo apenas uma garoa muito fina. Ela, com as duas mãos no peito, olhou pra ele e em seguida para o céu que já ameaçava clarear, sorriu e, novamente sem dizer uma só palavra, percebeu que o coração, enfim, estava se abrindo novamente.
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Brunno Leal

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