De todas as coisas que fizemos juntos, com toda a certeza que carrego no peito junto às minhas lembranças, pessoas, e afins, a mais bonita foi ficar em silêncio. Dentre tantas palavras que poderiam ter sido ditas, ainda assim, escolhemos ficar em silêncio. Um silêncio tão bonito quanto o nascer dos dias, a vida correndo e parando entre um prazer e outro e o carinho que fica, insiste em permanecer porque nada do que chegou a ser dito antes poderia ser capaz de superar a força de um entendimento entre olhares, aquele último encontro entre olhos totalmente dispostos ao recomeço e que, de alguma forma, já se fazia possível imaginar que seria realizado em direções opostas.

Aqueles últimos cinco ou dez minutos – quem andou contando? – de mãos que, evidenciando a já tomada decisão, não se tocaram mais, da ausência de explicações que não deixou ferida alguma que não pudesse ser cicatrizada com o passar do tempo, fechando o corte quase imperceptível e indolor. Eu não disse nada, apenas entreguei o papel e saí de cena, olhando para trás algumas vezes, de certo, mas carregando a quase obscena tranquilidade de quem espera sempre pelo melhor e que, de um jeito estranho, sabia que não poderia continuar sendo a mesma pessoa depois de tudo o que tinha vivido até ali e também diante daquela demonstração silenciosa de afeto e respeito mútuos.

Não dá pra ser a mesma depois de libertar todas as palavras que julguei necessário escrever e ser respondida com um leve fechar de olhos e aquele sorriso sereno enfeitando o silêncio. Aquele silêncio foi diferente porque também era meu e por isso não doía feito punhal entrando na carne, era leve mesmo carregando toda a sua bagagem de sentimentos. Foi um silêncio sobre nós, um silêncio em respeito ao que não pôde acontecer, ao amor que poderia ter sido tanto e não foi, às histórias que poderíamos ter vivido, aos abraços que ocorreram e também àqueles que não tiveram a mesma chance de acontecer, aos beijos que morreram nos lábios um do outro, à minha pele, à sua pele, aos nossos corações nus e totalmente despreparados que chegaram a  esperar ansiosamente pelo “algo mais” até que perceberam que nossos espaços atmosféricos não eram os mesmos.

O silêncio é o que, ainda hoje, nos une em um perfeito ritual que acontece todas as vezes em que nos lembramos daquele encontro que poderia ter morrido com o passar das manhãs, tardes e noites, se levado em conta as horas e datas do mundo real, mas que permanece vivo em algum lugar do tempo, o tempo que todos conhecem ou julgam conhecer. Eu já não sinto saudade, nem mesmo sei se algum dia senti, simplesmente, fecho os olhos e sorrio quando me lembro de você, porque sei que aquilo tudo foi, além de bonito, necessário e isso me basta.

Ainda são muitas as pessoas que acreditam e dizem por aí que o silêncio causa dúvidas, que quem cala consente, mas eu, por minha própria experiência, sigo acreditando que, em certas situações, ele limpa e impede que passemos do limite, que nos afastemos da linha tênue entre levar em consideração a vontade do outro e dar espaço ao desejo ordinário de forçar uma reaproximação apenas por orgulho, para podermos dizer que vencemos, quebrando assim um silêncio que precisa ser vivido e abrindo espaço para uma outra história com um final diferente, um final que talvez nunca fosse feliz e que se sujeitaria a ser somente aquilo que lhe foi imposto acontecer como em tantas outras relações falidas.

Eu não disse nada quando pude, porque eu sei que não tenho nada para dizer, nada que seja melhor e mais correto do que os caminhos vindo ao encontro dos viajantes, contrariando o que se acredita ser a lei natural dos acontecimentos e abrindo os grandes portões de possibilidades que não seriam hoje reais se não fosse por essa divindade a quem hoje chamo de silêncio.

Quem sabe isso tudo, essa forma serena de ver as coisas não quer dizer amor? Não como aqueles amores em que, no final, é um fato ficarmos juntos, mas aquele que une, em pensamento e memória, duas pessoas gratas pelo encontro, mas ainda mais gratas pelo respeito às escolhas e silêncios um do outro, tornando este o nosso pequeno segredo que precisa estar mudo para ser o que é.

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Camila Bertelli

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