Hoje, amanheci no alto do edifício vendo o sol espalhar seus raios timidamente sobre o horizonte. Faltou energia no bairro, mas nem reclamei, pois a vista do nascer do sol quando tudo está apagado é uma das melhores coisas que o ser humano pode desfrutar: uma pequena bola de luz vai surgindo na linha entre o céu e o rio, soltando raios que vão tomando conta de todo cenário. A luz toca as nuvens desenhando detalhes e criando formas no céu – Hoje eu vi a forma de um monte. O rio, como de costume, tem o prazer de espelhar todos os movimentos do nascer, redesenhando a cena como um pintor faz em seu quadro. Gravei essa imagem na mente, e ela foi tão espetacular que essas poucas palavras não descrevem fielmente o que foi aquilo. Então, cuidem de ir curtir o nascer do sol.

Pois é …

Atônito pelo que via, nem percebi que havia mais alguém no edifício, também olhando o amanhecer. Era um jovem rapaz. Parecia vir de uma festa de formatura, estava vestido formalmente. Apesar do ambiente promover sentimentos positivos, ele estava triste. O olhar ia distante – deduzi que o pensamento ia no mesmo rumo. No entanto, percebendo minha observação, prontamente ele falou:

“Hoje a tristeza chegou como um papai Noel não tão esperado, trazendo na sacola milhares de lembranças amargas. Todas fazem minha estrutura tremer. Lembranças que realimentam meus traumas passados; resgata tudo e joga em cima das minhas certezas. A confiança cai sem paraquedas. Aliás, meu caro, se tua confiança ainda não foi quebrada várias vezes – e isso de inúmeras formas –, sinta-se privilegiado. Pois, uma das piores sensações é ver uma estrutura construída por você desabar em segundos. É ver um trabalho que foi desenvolvido diariamente ser jogado no chão, quebrando em pedaços. E a tristeza faz questão de te deixar assim, despedaçado.

Sabe, aqueles lances de “fantasmas do passado” que a gente tanto vê nos filmes? Pois é, os meus vivem reaparecendo. Voltar ao cenário no qual passei por momentos difíceis me traz todas as antigas sensações. E quando vou para um lugar novo, tudo vem acompanhado. A gente muda de casa, mas traz a mobília, mesmo não querendo. Isso me deixa fraco, sem expectativa de que eu vá superar tudo algum dia. Já me recuperei algumas vezes, até cheguei a pensar que esses traumas não voltariam a me assombrar. Mas quando menos espero, a tristeza toma conta dos meus pensamentos, me mostrando tudo que possivelmente perdi por conta da fraqueza que me travava diante das situações. Desculpa por eu estar falando de forma não muito específica sobre o que passei e quais são os meus traumas. É que ainda não consigo falar isso abertamente. Ainda não me tornei aquela pessoa que superou tudo o que passou de ruim.

Eu tenho uma mania não muito correta: algumas vezes paro tudo que faço e deixo essa dor tomar conta de mim. Eu sei, ela me trava e me impede de aproveitar mais um dia. Aliás, hoje o dia está surgindo de forma maravilhosa – queria que isso tomasse conta de mim. Mas não consigo potencializar minha energia positiva através dessas maravilhas. O sentimento negativo surge dentro de mim sem avisar. Não tenho nem reação pra lutar. Minha vontade é só de dormir e esperar que no outro dia as coisas mudem de forma mágica. Certamente um grande erro meu. Alguns podem me julgar como um fraco, mas nem ligo para o que pensam, quero é que se foda. Talvez se estivessem me olhando por dentro não julgariam de forma equivocada.

Enfim, não quero prolongar essa conversa chata. Depois eu vou pra casa ficar socado no quarto esperando algum pingo de luz surgir na minha escuridão. ”

Falou tudo com um tom de indignação, como se a vida fosse totalmente injusta com ele. Não o julgo, pois já briguei também com a vida em determinados momentos. É meio louco esse lance de brigar com a vida, não? É como se ela fosse uma pessoa. No fim, acho que estamos brigando com nós mesmo.

Em certo momento, vi algumas lágrimas perpassarem o seu rosto, e entendi a dor daquele jovem. É uma dor que ultrapassa qualquer outra física: é a dor do ferimento na alma. Esperei que toda aquela carga fosse liberada para poder convencê-lo que, apesar de o mundo ser competente para nos entristecer, vale a pena viver.

Bem sei que traumas são difíceis de esquecer, ainda existem alguns que insistem em me rodear. Isso acontece principalmente quando você passa muito tempo por alguma situação desagradável. Seus reflexos, pensamentos, forma de agir, tudo passa a ser controlado por esses traumas. Eles te travam diante de pequenas coisas. A confiança, que é tão importante na vida do ser humano, se fragmenta. Aliás, virei especialista em reconstruir minha confiança. É como construir e reconstruir um muro, e quanto maior a altura, maior a queda quando o mundo vem com sua marreta. Há quem diga que estamos construindo de forma errada, que temos que blindar nossa confiança para que ela não possa vir a se quebrar diante das porradas. Mas aí eu pergunto: você sabe o que a vida tem guardado pra você lá na frente? Sim, diante de situações que você já passou, é fácil lidar. E quando a porrada vem de outra direção, ao qual não esperava? Já vi grandes pessoas trabalhadas na confiança ficarem como crianças perdidas diante das inéditas circunstâncias que a vida impôs.

Entendo o jovem de todas as formas. Algumas coisas pude superar, mas, assim como ele, os meus “fantasmas do passado” ainda me assombram. Hoje lido de outra forma, o que não quer dizer que não me afete ainda. Podemos falar que o inimigo é o mesmo, mas minhas armas são diferentes. Me conhecer melhor foi um fator decisivo para que eu não sucumbisse em outros ataques. Descobri minhas fraquezas e atitudes que não contribuíam para a minha evolução, o que também me ajuda a mudar.

No entanto, mais do que ajudar o jovem a achar respostas, é achar soluções para mim também. Pois ainda tenho muito trabalho pela frente. Então, aproveitei a oportunidade e tratei de começar pelo diálogo, uma das ferramentas que podemos usar para achar pistas que ajudam desvendar os nossos mistérios. O sol já aparecia por inteiro quando comecei:

“Sabe, cara, o autoconhecimento é muito importante pra quem lida com esse tipo de dor. Eu poderia te dar alguma resposta aqui, mas são minhas respostas. Estas vêm de coisas que eu passei. Então, só servem pra mim. Mas a partir desta conversa você pode procurar se conhecer, ver o que te leva a agir de forma destrutiva. Busque na raiz dos seus traumas as melhores soluções. Penso que, se a gente olhasse para a bagunça que há dentro de nós, não perderíamos nosso tempo olhando para vida de outras pessoas, pois estaríamos ocupados demais tentando consertar tudo. Então, terá que encontrar dentro de você as melhores maneiras lidar com tudo isso. Não tenho fórmulas prontas pra você, a vida não permite viver através destas. O que posso te indicar como um apoio, além dos verdadeiros amigos, é a boa e velha leitura. Ler me ajudou muito nesses vários processos de reconstrução.

Outra coisa que posso te falar é que, já que todo sofrimento teu seu lado bom, passar por esses vales escuros me tornou uma pessoa menos egoísta, e mais solidária. Quando sente a dor, você passa a ter mais compaixão pelo próximo. Irá querer levar ajuda àqueles que precisam de apoio, dando o seu ombro amigo. Claro, a pessoa não vai virar o Papa Francisco da noite pro dia, mas você passará a ponderar antes de julgar, e dará a mão ao invés de omitir socorro, pois sabe o que é ter uma ferida na alma. Às vezes ainda me pego julgando certas atitudes, porém, procuro ver as circunstâncias, o que levou a pessoa a agir de tal forma. E se eu achar certo ou errado, procuro guardar só pra mim. Quando é alguém próximo, a gente bate um papo tentando reparar os erros. Portanto, todos temos um calabouço, onde estão nossos traumas e medos. Mas como você vai encará-los é o que vai mostrar a força que você tem. A partir de tudo isso, o que eu quero perguntar é: como você lidará com as consequências dos seus sofrimentos? Vai optar por fazer o bem por aqueles que também sofrem? Ou vai se revoltar porque a vida foi injusta, e optar pelo lado ruim?

Nada é fácil, pelo menos aquilo que tem valor, então vamos ter muitos momentos entristecedores em que o mundo nos jogará no chão sem qualquer pena, nos ferindo. Mas existem os intervalos das bancadas, aos quais chamamos de felicidade. Eu sei, às vezes a vida nos deixa vulneráveis às tristezas do mundo, mas ela é também um espetáculo, e ser feliz é estar sensível para notar as melhores cenas que são apresentadas no dia a dia, como um nascer do sol. Busque nas coisas simples. Diariamente podemos tomar o melhor remédio da vida. O perfume que só os atentos, e sensíveis, notam sua fragrância a cada respirar. A felicidade é a cura para as nossas dores, ainda que momentaneamente. E por este fato, de ser momentâneo, é que vale a pena viver. Pois vamos ter sede desta cura, o que nos leva à uma busca incessante até o nosso último respirar.

São nesses momentos que você encontrará as respostas que tanto procura. A motivação para lutar a cada dia, tendo em vista o espetáculo, mesmo que a tristeza venha como um papai Noel não tão desejado com sua sacola cheias de lembranças amargas. Enfim, é tudo o que tenho a dizer.”

Depois conversamos sobre a festa de formatura da noite anterior, na qual ele estava antes de vir para cá. Era o baile dos que estavam se formando em Psicologia. Aliás, uma área do conhecimento que me agrada. Assim, ia chegando às oito horas da manhã quando resolvi descer do edifício para ir à parada de ônibus. É, amigos, temos que estar sempre atentos naqueles que nos rodeiam.

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Jhonata Santos

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