Fizera bastante frio naquela tarde amena nas estreitas ruas de Paris. Assim como a Alemanha havia dominado a França naqueles dias de guerra, os olhos de Marie dominaram Pierre no primeiro encontro das retinas esverdeadas. Ela – garçonete do Le Café de Flores –  possuía uma pele alva como a neve, tinha o verde da natureza em seus olhos e lábios avermelhados que pediam beijos vagarosos. Ele – militar da armada francesa – tinha o mesmo verde claro nas íris, possuía uma pele que almejava ser escura, tinha os cabelos lisos e negros, estava sempre acompanhado do seu cigarro, e tinha lábios carnudos e cicatrizados.

Ele estava sentado na última mesa do Le Café, próximo à rua onde sempre sentava-se. Pierre costumava ler poesias, era fascinado pelas palavras e seu dom de cura. Ele tinha o “Fan Don” como seu escritor francês favorito. Logo depois de um dia cansativo trabalhando nas minas de Paris, ele resolvera parar no Le Café de Flores para tomar seu rotineiro café.

Era o primeiro dia de Marie como garçonete naquela tarde amena, e ela aparentava ter bastante habilidade no que fazia. Ela – assim como Pierre – era perdidamente apaixonada pelas poesias do “Fan Don”, e costumava lê-las quando a luz do sol despedia-se de seus olhos esverdeados.

Pierre, com suas pernas cruzadas, lia aquelas palavras sem nenhuma noção de tempo ao seu redor. Fan Don parecia saber exatamente o que passava-se no coração dele. Mas enfim ela chegou, apareceu para ele como quem foge de um filme francês. Olhos perfeitos e esverdeados, e uma boca que almejava beijos vagarosos. Pierre nunca havia visto nada parecido em sua vida. Ela era a coisa mais perfeita que ele podia tocar, ver, amar, e sentir. Ali, nos olhos de Marie, ele notara a beleza das palavras que tanto  F. Don descreveu nas poucas páginas de seu único livro.

Logo após alguns minutos, ela anotou o valor do café e lhe falou alguma coisa, mas para Pierre, tudo aquilo soou como poesia do Fan Don. E por um breve momento, ele viveu aquelas páginas bem na sua frente.

Ele sorriu para ela meio sem graça.

Ela retribuiu o sorriso. Bem mais envergonhada do que ele.

As bochechas de Marie logo foram tomadas por um vermelho adocicado. Ele sorriu novamente e  questionou-se de onde vinha tamanha beleza naqueles olhos claros. Pierre não sabia sequer o nome dela, e naqueles singelos instantes, ele já imaginava ter filhos, uma casa no campo longe daquele período de guerra, e beijos vagarosos e infinitos ao lado dela.

Marie, ao notar o livro nas mãos de Pierre, sorriu disfarçadamente com os olhos, e perguntou-lhe se ele já havia chegado a página 123;

“Mon amuor”.

-Ela falou.

Era a sua poesia favorita daquele livro. Ele sorriu espantado ao perceber que ela também conhecia aquele autor desconhecido por muitos.

Eles se olharam por alguns segundos que pareciam horas, as retinas se entreolharam, os lábios aproximaram-se, as pulsações aumentaram e as mãos se tocaram.  Tudo tão rápido que nem eles mesmo sabiam o que estava acontecendo. Quando deram-se conta, seus olhos já estavam mais alinhados do que o trópico de capricórnio.

Naquela tarde de 14 de maio de 1940, Pierre e Marie perceberam que Fan Don sempre tivera razão ao dizer que o amor acontece quando tem que acontecer. Não existe hora ou lugar marcado. Ele aparece no momento exato. Quando menos se procura por ele. Quando menos se espera por ele.

As partículas aceleravam junto aos batimentos cardíacos. O tempo se alinhava junto ao universo. Os ventos sopravam para o mesmo lugar. E quando menos se esperou… ou procurou…

Naquele momento, naquela hora, em meio a segunda guerra mundial, no meio de tanta dor causada por mais dor, dentre tanto caos e tristeza. O amor foi o único que não se escondeu, ele se mostrou infinito e resolveu fazer morada no detalhe.

Nas minúcias do verde dos olhos de Marie, e de Pierre.

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Pedro Ficarelli

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