Não me amolecem o coração esses casais considerados símbolo de perfeição, o tal casal que vive junto há uns 50 anos e jura nunca ter brigado, o par que dá conselhos sobre como ter o relacionamento ideal durante a reportagem de um programa qualquer de domingo, ou a senhora que exibe orgulhosa o anel de compromisso que ganhou de presente quando ainda era aquela jovem que acreditava em tudo e todos, enquanto, hoje, o marido apenas assiste TV, sem nem olhar para os lados.

Não me conquista aquele que esconde seus defeitos e finge que amar é sorrir o tempo todo, flutuando entre mil nuvens de açúcar de confeiteiro. Aqueles casais que só se tratam como tal em fotos nas redes sociais, tão agarrados, tão aparentemente envolvidos, mas que dissolvem no dia a dia, toda a magia que teimam em forçar diante das telas.

O que me conquista é a verdade, o sorriso que se percebe pelo brilho que até parece vir lá do fundo, do espaço mais profundo dos olhos. Um sorriso que pode não aparecer o tempo todo entre flashes nos momentos de fotografia, mas que é certeiro, porque quando aparece, e quase sempre aparece, é natural. Ele vem porque tem um recado direto a dar, não serve como disfarce, pois é feito daquelas coisas bonitas de dentro da gente, aquelas que de tão genuínas, exalam sozinhas e nós, meros mortais, não conseguimos disfarçar.

Não dá pra fingir felicidade o tempo todo, não dá pra fingir que não passamos por maus momentos ao lado daquela pessoa ou que nunca houve uma discussão ou desentendimento, porque isso faz parte e é preciso aparar as arestas. Negar os momentos ruins superados seria o mesmo que negar uma parte da nossa história, a verdade que é parte crucial do verdadeiro amor que consiste em saber dos defeitos e se encaixar assim, ser bonito assim, imperfeito como todo e qualquer ser humano é.

O amor é realmente um sentimento divino, mas não nos transforma em deuses, porque, de alguma forma, torta ou não, precisamos do imperfeito, daqueles pequenos ou grandes desafios que nos fazem mais fortes, que nos fazem nós mesmos.

Que fique claro que encarar os desafios que nos aparecem quando nos relacionamos com alguém não é o mesmo que procurar ou engolir, a cada dia, sofrimentos só para continuar ao lado da pessoa a quem temos amor. Somos feitos de falhas e grandes valores, nós somos a mistura de tudo isso e precisamos do equilíbrio entre dias não tão bons, com os dias em que, tal como Zeca Baleiro, acordamos com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, bater na porta do vizinho e desejar bom dia  e beijar o português da padaria, mas se impera lá no fundo do coração, lá onde só você tem acesso, um relacionamento só de buracos e escuridão, é preciso dar meia volta e recalcular a rota porque algo de muito errado aconteceu durante esse trajeto.

Ouço e leio muitas histórias de amor, mas já me apego a elas, não como nos tempos de menina. Elas me inspiram, me emocionam, mas hoje me questiono muito mais sobre o que é de verdade. Como saber quais são as que, de fato, aconteceram, quais delas são reais? Questiono, mas não me preocupo, observo, me permito encantar, e deixo que a resposta fique a cargo de quem vive esses romances.

Eu não quero me pautar por uma história que não é a minha. Eu quero estar acordada quando isso acontecer, porque eu cansei de sonhar e apenas imaginar, mesmo sabendo muito bem que quem escolhe a hora não sou eu, e que também nesse quesito, Deus, o destino, ou o que quer que chamem de poderoso, é implacável.

A minha parte vem logo em seguida: abrir portas e janelas, ou deixá-las entreabertas, ir devagar ou descer as escadas correndo e pular em seu colo. Eu decido uma porção de coisas, mas não posso evitar quando acaba, porque se tiver que acabar, não há convenções sociais, aparências, feitiços ou decisões desesperadas tomadas por conta do medo de perder, que sejam capazes de deter o ultimato do tempo. It’s over.

Há tanta gente com alguém do lado, mas sozinha, tanta gente acompanhada pela solidão, tantos apenas observando e desejando o amor dos outros, tanta gente que não viu o amor passar e, preocupado tentando salvar o próprio barco, não percebeu que ele chamava para ir com ele, lá no fundo, onde se faz preciso mergulhar. O fim já estava ali, mas ninguém se deu conta que já era a hora do recomeço e que recomeços também dão certo quando estamos sós.

Sozinho é que a caminhada começa, o amor pode nos encontrar logo no início, ou bem mais a frente e mesmo querendo muito, ele só vem quando é chegada a hora e eu sigo, continuo andando, parando de vez em quando, mas repetindo pra mim que um dia ele chega, que um dia ele será pra mim.

Eu teimo em esperar porque eu não quero um amor que é para os outros, o amor que o outro fez, eu quero um amor pra mim e feito por mim. Porque esse amor dos outros não é meu, não fui eu que teci, e embora pareça que sigo fugindo do que não controlo, eu quero mesmo o amor, justamente, porque sei que é ele quem faz o caminho. Eis o risco e eu aceito porque desejo  um amor apenas e não apenas amor. Um amor que não precisa ser pra sempre, que não seja como o dos outros, mas que seja feito da nossa verdade. Minha e de quem estiver disposto a pintar comigo essa estrada toda de azul ou qualquer cor que traga paz para nos ajudar a levantar nos tropeços que podem acontecer sem perder a direção. Um amor que seja feito de duas verdades e duas vontades, a combinação e a soma de duas pessoas que são muitas em uma só nesse grande universo que é ser assustadoramente e apaixonadamente humano.

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Camila Bertelli

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