Um dia monótono com tempo nebuloso. A chuva cai sem pressa pela manhã de hoje, dando a impressão de que estamos parados no tempo. Tenho a sensação de três dias durarem três meses. Mas é assim o cotidiano de uma pequena cidade: simplicidade e calmaria, onde a vida caminha vagarosamente.

Levantei da cama cedo, não consegui compensar o sono perdido na madrugada. Fui para varanda da casa, olhar aquele tempo que aparentava alguns traços noturnos. Um dia frio – um bom lugar para ler um livro – sempre proporciona boas sensações. Minha vontade é de morar em um lugar em que o frio nos acompanha diariamente. Além disso, o dia começou com o batuque agradável da chuva caindo no telhado, e combinar esse som com uma cama e um edredom confortável, deixa qualquer movimento corporal custoso. Mas dessa vez eu estava na varanda olhando toda aquela cena, ouvindo aquela pequena voz na minha mente falando que o contato com a natureza é o melhor tranquilizante para quem tem uma vida em meio à confusão.

É, minha vida está uma confusão: término de namoro; fui demitido do emprego no qual estava há um bom tempo; falta de confiança no que posso produzir, parece que nenhuma ideia é boa o bastante; um turbilhão de sentimentos negativos. Junto à barulheira que é morar em uma grande metrópole, os pensamentos em busca de soluções ficam sufocados. Sem contar que não tenho visto meus amigos. Mas nem reclamo, porque o único que tive uma breve conversa me indicou o lugar no qual estou agora.

Essa viagem apareceu em uma boa hora, além do lugar que me surpreendeu desde a chegada – e eu ainda não queria vir para cá. Aqui é tão tranquilo que podemos resolver boa parte de nossos problemas. A correria da cidade grande e a enxurrada de informações que é atirada em nós nos empata de raciocinar com mais cautela.

Pois é, estou aproveitando cada segundo neste ambiente agradável. A chuva deu uma amenizada, bem na hora em que os alunos passavam para ir à escola. Engraçado, quando eu estudava, e caía esses “toró”, algumas vezes a chuva parava bem no horário de ir à aula. Podia está caindo um dilúvio, mas quando chegava o horário de sair de casa o sol aparecia bonito – o que me dava muita raiva. Eu, crente de que iria faltar aula para ver desenho, era decepcionado com o grito da minha mãe: “Bora, já passou a chuva. Vai pra aula! ”. Agora a saudade da minha época escolar bateu forte, vendo esses alunos passarem todos uniformizados.

Saindo do sentimento nostálgico, notei que no começo da rua, em direção oposta aos alunos, vinha um padeiro – padeiro dos moldes antigos. Aliás, já vi que aqui ainda existem pessoas que vendem pão de casa em casa. Além disso, eles têm um “single” tradicional: “Padeiro! Padeiro! Padeiro! ”, e entoando este som percorrem todas as ruas com muita naturalidade. Suas ferramentas de trabalho são: uma bicicleta e uma cesta apinhada de pão na garupa. Há quem só carregue a cesta e cumpra seu trabalho caminhando. Então resolvi parar aquele estava vindo para conversar um pouco.

Chamei o senhor, aproveitei para comprar pão, e de pronto indaguei a ele como era a vida ali e se ele já tinha morado em outras cidades maiores. Perguntei também se o mesmo não tinha vontade de ir em busca de outras coisas e lugares, já que o mundo nos oferece várias possibilidades de vida.

Sempre que vejo as pessoas, penso que cada uma é um mundo cheio de aprendizados, portanto, um ser humano qualquer que goste de uma boa conversa já é um atrativo e tanto pra mim. Então, esse senhor que vende pão, e que aparenta ter uma idade avançada, seria o primeiro a ser abordado por mim – pessoas de mais idade sempre são sábias na hora de falar sobre a vida.

Com uma simpatia e alegria de quem vive bem, ele respondeu com toda simplicidade:

“Meu jovem, já rodei por algumas dessas grandes cidades, e até me senti tentado a morar nos lugares onde passei. Enormes espaços de concreto; edifícios magníficos com suas tecnologias; enfim, uma variedade de coisas prontas para lhe servir. E você tem tudo o que deseja, só precisa trabalhar, claro. Aliás, muitos vendem o seu tempo no trabalho para obter o que desejam, e muitas vezes não gostando do que faz. Tudo em troca de coisas que não são essências para uma vida sadia, em todos os aspectos. Não estou falando que trabalhar para ter aquilo que quer seja errado. Me refiro aos que são infelizes no seu trabalho, e assim doam seu tempo para aquilo que não traz satisfação. Tudo em troca de condições financeiras para comprar o que não precisam, e se encaixarem no “estilo cidade grande”. E, apesar de terem a impressão de estarem felizes, dificilmente as pessoas que ali moram conseguem enxergar o simples, ou valorizar mais as pequenas coisas. Sempre tentam achar a felicidade na aparência, no olhar de exaltação do outro, com bens materiais, demonstrando um bem-estar de fachada.

As pessoas vivem dizendo que a felicidade está nas pequenas coisas, mas vivem ambicionando coisas de grande valor material. Ah, meu jovem, ainda tem o estresse da correria. E é tanta informação com essa tal de internet agora. A mente fica entulhada com tudo isso.

Ainda tem outra coisa: pagam para desfrutar de coisas que estão aí gratuitamente para nós, como a natureza. Olha, eu pego minha canoa e rodo boa parte desse rio sem pagar nada. Meu filho me disse que lá pagam 40 reais para ficar em uma prancha com um remo. Meu jovem, aqui eu ainda volto com peixe pro jantar. Então pra quê eu vou querer viver em um lugar que vai me induzir ao sacrifício do meu precioso tempo por causa de coisas não preciso?

Vivo aqui, trabalhando no que eu realmente gosto e me sinto bem, por isso sei que andar todas as manhãs por essas ruas não é em vão. Trabalho pelo o que é necessário para se levar uma vida boa, além de viver em um lugar tranquilo. Claro que deve haver aquelas que são felizes com o estilo de vida que levam nesses lugares, mas não é algo atrativo para mim.

Tá certo, as pessoas tem a liberdade de rumar o caminho que achar conveniente. Assim como eu, que escolhi o simples, a calmaria de um lugar. Mas o que quero dizer é que quanto menos criarmos expectativas de que o mundo nos trará felicidade com seus produtos pouco duráveis – o que as grandes cidades oferecem –, mais vamos apreciar aquilo que é belo. Por exemplo: experimente ver o nascer do sol de frente pro rio, e me diga como se sente. Simplicidade autêntica, onde mora a felicidade. Mas poucos param pra ver que os ‘produtos’ que realmente precisamos, Deus já criou há tempos. Estão aí para quem quiser, e nem precisa pagar. ”

Depois da conversa, somente refleti sobre a vida que levo.

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Jhonata Santos

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