“Eu desejo que nos dias de chuva você se permita escutar a melodia dos telhados, que à mercê das mágoas busque lembranças que prezem pela alegria. Desejo que a vida lhe abrace no dia em que você precisar de companhia e que o vento lhe sopre pistas
sobre onde encontrar paixões e sonhos”, Carla Dias.

Eu gosto dos dias de chuva. Ficar olhando pela janela, com o pensamento divagando entre o tudo e o nada. Gosto também de dias mais frios, de sentir o arrepio na pele, de sentir-me viva. Gosto de dias bucólicos, nostálgicos. Dias assim me despertam a saudade dos que estão longe e dos que estão perto, porém, distantes. Daqueles que não consigo sentir a presença, a não ser no peito e na lembrança.

E não é de hoje que gosto de ficar assim, tranquila, contemplando as gotas que tentam agarra-se em vão a janela. Chega a ser quase hipnotizante. É como se eu pudesse me desligar por alguns momentos da correria do dia a dia. É como se o tempo parasse lá fora e, aqui, dentro de mim.

As pessoas apertam-se em calçadas, dividindo o espaço restrito com seus guarda-chuvas multicoloridos. Os passos são mais largos e descompassados. Buscam a segurança e o conforto da marquise mais próxima. Algumas crianças, sorriem encantadas, agradecendo a oportunidade de usar a bota nova de plástico que ganharam no Natal e que ainda não tinham usado.

As mulheres, mais vaidosas, tapam o topo de suas cabeças com o que tiver disponível, tentando proteger as madeixas alisadas recentemente no salão ou preservando a escova feita pela manhã, nos preciosos minutos que poderiam ter sido aproveitados degustando uma boa xícara de café e a leitura de um artigo. Ou, quem sabe, em alguns momentos a mais de sono, desfrutados embaixo do calor da colcha de retalhos.

O cinza do céu, que muitos não gostam, a mim cai tal qual uma luva. E o cheiro da grama molhada que invade as narinas mais aguçadas? Para mim, lembra melancia fresquinha, cortada em fatias delicadas, aquelas bem docinhas. E o som, aquele barulhinho que embala pensamentos e sentimentos? Quer sensação mais gostosa do que um filme escolhido a dedo, uma boa taça de vinho e a melodia lá fora, tornando o momento ainda mais introspectivo?

Enquanto alguns reclamam, eu agradeço. Afinal, assim como os dias de sol, os de chuva também tem seu encantamento. Basta que saibamos e estejamos dispostos a contemplá-lo. Pois, como tão bem poetizou Fernando Pessoa: “Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem; cada um como é”.

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Karol Pinto

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