As rodas giravam e a cidade toda parecia estar sorrindo pra ela, que com os seus cabelos soltos e cacheados a voar, sorria de volta um sorriso frouxo de quem acordou com vontade de viver e que sabe que tudo fica melhor quando a gente sorri, mesmo que seja por dentro, de um jeitinho tímido, daqueles que só a gente sabe como é, mas ainda acredita, segue acreditando que alguém, um dia, será capaz de enxergar e sentir.

Os carros passavam depressa pela imensa avenida aumentando o vento que já existia. E ela? Ela estava onde deveria estar, no lugar reservado às pessoas, que como ela, gostavam de explorar a cidade, ou mesmo ir ao trabalho ou à qualquer lugar que seja por meio do esforço das próprias pernas e a ajuda de dois exemplares de uma das maiores invenções que o homem foi capaz de criar.

Da praia era possível vê-la passar e as mesmas rodas continuavam girando, até parece que sabiam a direção sem que fosse preciso guiar, quase como soltas, pareciam alegres, com seu leve ruído. Na cabeça da moça de cabelos cacheados não havia preocupações capazes de tirar a sua paz, era notável que ela havia escolhido seguir assim, só com seus pensamentos. A verdade era que ninguém que passava por ela sabia ao certo o que acontecia ali dentro, mas a tranquilidade estava estampada em seu rosto e não havia como negar a sensação de liberdade, a brisa que invadia seus movimentos, tudo era visivelmente leve.

Alheia ao que os passantes imaginavam, seguia rumo à padaria, como costumava fazer em todas as manhãs de domingo, e voltaria com os pães frescos e cheirosos dentro de sua cestinha, fazendo levantar o pescoço do cãozinho deitado encolhido na calçada.

Pedalava. Se encantava com as crianças que corriam pelo meio fio, desviava dos pedestres desavisados e sorria ainda mais como que para manter o equilíbrio e a paz. Mostrava também os dentes à senhorinha que passava com suas sacolas de supermercado, cheias do que pareciam frutas e verduras, ouvia o barulho das ondas tão absurdamente próximas, sentia o cheiro da fruta que o moço do quiosque espremia para o suco do freguês e a força do sol em sua pele. Lembrou então de que deveria ter caprichado mais no protetor solar, afinal, temia as rugas, queria ser sempre jovem porque jovens não precisam ter pressa, eles simplesmente vivem e não se preocupam tanto com o amanhã, pelo menos era assim que ela se sentia o tempo todo.

Pedalava e continuava pensando sobre a juventude, sobre o quanto gostava de vivê-la e sobre o quanto queria que ela se alongasse e contava os dias para a festa que daria no próximo final de semana, mas não contava com aquela moto, a buzina e os gritos. As cabeças em volta de seu corpo,  aquele branco na mente e, finalmente, a perda dos sentidos. Agora era só aquele líquido vermelho escorrendo pelos cachos, manchando o asfalto  pintado daquela mesma cor de sangue, era marcado, sinalizado, permitindo o acesso dos livres, mas sem pena dos distraídos.

Mal sabia ela, ainda sobre o chão, que era chegada a sua hora de nascer de novo e que, de fato, necessitaria agora conservar-se, pelo menos em espírito, ainda mais jovem para reaprender a viver e descobrir outras formas de liberdade, já que frágil e imprevisível, a vida havia de seguir em qualquer circunstância.

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Camila Bertelli

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