Caro amigo,

Resolvi seguir o conselho escondido nas linhas de uma carta que não foi endereçada a mim e que não era pra todo mundo ter acesso. Ela em nada se parece com os contos que eu adoro ler e nem mesmo traz conselhos, na verdade, fui eu que entendi assim e que fiquei petrificada segurando a página daquele livro . Foram os meus pensamentos que pareciam se ajustar àquelas palavras e não o contrário, como era de costume.

Tudo fazia um absurdo sentido para mim naquele momento e foi assim que me permiti perseguir o  parágrafo​ e repeti-lo como um mantra e, quando dei por mim, isso havia se tornado um hábito que eu não mais me esqueci de pôr em prática:

“Quero que daqui pra frente a vida seja hoje. A vida não é adiável.”

O contexto destas palavras era outro e como todo bom leitor, por vezes egoísta, as tomei para mim, dei de presente para o que eu sentia e encaixei seus sentidos no que antes eu não encontrava explicação.

Como um ser humano cru e visceral, tomado por alguma paixão inexplicável, se contaminando por essa doce doença que chega de mansinho, eu me apossei daquelas frases que conversaram comigo e que me mostraram o que talvez eu não quisesse ver.

Eu precisava entender que não há como viver de futuro, que é preciso experimentar cada página desse romance do qual somos personagens, nem sempre donos de nossos próprios destinos, mas completamente aptos a escolher a quem ou a que nos prender e por quanto tempo isso deve durar. Cabe a nós mesmos o basta.

A simples afirmação que encontrei entre as linhas de umas das cartas escritas por Caio Fernando Abreu – sim, essa carta era dele – me ajudou a viver, ou pelo menos tentar viver como se esse fosse o último segundo.

Talvez Caio F. também precisasse entender justamente isso naquela época e focar suas atenções ao que ele tinha de mais próximo, o momento presente e, ao escrever estas palavras, que hoje me servem como mantra, e que são um pouco do muito que ele deixou, quisesse dizer exatamente o que eu havia pensado.Que não podemos nos arriscar brincando de adivinhação, sacrificar dias e dias a espera do que não sabemos se virá ou quando virá. Cada detalhe importa e pode ser uma nova chance, possibilidades que deixamos passar se olharmos somente para o que está lá na frente.

Vez ou outra, torno a  repeti- las não apenas para mim, mas também para quem me pede algum conselho. E pensar que eu mesma quase me esqueci de que já morava em mim o que julgava estar lá fora. Passava os dias a pensar numa maneira de “passar de fase” quando, na verdade, a vida estava apenas começando a se abrir, mas era inútil tentar convencer aquela menina tola que eu era, sempre mirando o que estava longe. Mal sabia ela que seus dias estavam contados, o mês passaria, o ano passaria e então só lhe restaria o que sempre fez: olhar, o esperar sem ter vivido. Quase me perdi junto a ela, mas  o reflexo que apontava meus olhos naquela janela, me fizeram ver que eu precisava de  mais, e no mundo das palavras, me encontrei e hoje tem pressa a minha travessia, mas não é uma pressa comum. É a pressa do sentir e do não esperar pelo amanhã. Uma pressa inimiga do relógio e que contempla a existência dos seres e acontecimentos vistos como insignificantes.

O que o mundo passou a ignorar me fascina e o meu melhor sorriso é para quem enxerga o que vejo: a beleza da vida agora, o instante.

E se amanheceu chovendo como ontem, decidi que eu vou é dançar na chuva. Não tenho o porquê esperar pelo sol do céu se eu guardo um igualzinho dentro do peito e, muito além de telhados e ruas, hoje eu vou deixar que as gotas lavem a minha alma no ritmo que eu escolhi viver.

Sou capaz de me permitir pisar delicadamente no chão repleto de folhas secas, trazidas pelo outono, prestando atenção no barulho e na sensação que isso me provoca. Me sento à sombra da árvore mais bonita e assisto as pessoas passarem apressadas para o trabalho. Sinto a brisa fresca tocando o meu rosto e então desperto sabendo que também devo ir trabalhar, mas é um despertar diferente, um despertar cheio do agora e seus​ aromas. Um elixir infalível para atravessar o resto da estação sorrindo, porque é preciso sentir com a alma e colocá-la em cada detalhe do dia, mesmo que não seja tão fácil, mas com a plena certeza de que assim é mais bonito viver.

O líquido quente e negro que desce em minha garganta cotidianamente aquece não somente o corpo, mas o meu olhar sobre o dia. Nem mesmo a pessoa mais fria será capaz de me penetrar a alma, pois ofereço meu café e amor mais quentes como ingredientes​ principais no preparo de um dia que, entre seus possíveis altos e baixos, vale a pena ser vivido. Os pequenos desânimos da rotina não são capazes de amargar toda uma história, porque cada pessoa é um mundo a parte, um mundo que gira a medida em que evoluímos e nada justifica abandonar toda a imensidão do que somos por causa de expectativas não atendidas.

O vento costuma levar as folhas das árvores e dos papéis descartados pelo chão, ele não escolhe o que arrasta pela frente. Já o tempo, senhor tão implacável e sábio, escolhe muito bem as palavras que levará para o futuro, como as de Caio, atemporais, e as que se perderão pelas esquinas e isso se aplica também à jornada de cada um.

Percorremos todos os dias estradas que não sabemos onde ou quando vão terminar e é exatamente aí que está a graça em viver: o inesperado.

Que não adiemos o agora por medo do depois, também eu quero que a vida daqui pra frente seja hoje, o agora e o que não se pode adiar. Me perdoe, se isso tudo o que escrevo lhe parecer insano. Tanta gente vive esperando pelo fim de semana, pelas férias, pela resposta daquele e-mail ou por um telefonema para ser feliz que eu já nem sei mais o que é normal, mas o que eu quero eu sei muito bem. O maravilhoso agora, com todas as suas surpresas, hábitos e infinitas possibilidades que só precisam de uma chance para fazer de nós o que realmente somos capazes de nos tornar e realizar.

“A vida não é adiável” e isso é tudo o que precisamos saber para irremediavelmente viver.

Com amor, C.B.M

*A carta de Caio F. citada neste texto está presente no livro “Cartas”, uma coletânea, lançada em 2002 e organizada por Ítalo Moriconi, que traz algumas das muitas correspondências do escritor Caio Fernando Abreu.

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Camila Bertelli

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