Caminhando lentamente debaixo da chuva fina de final de fevereiro, se entregava ao sabor do chiclete que mascava devagar. Chicletes lhe traziam um pedaço do passado, uma parte boa da vida que veio antes daquela que suas escolhas lhe deram.

Era tudo cinza naquela manhã, mas não era a falta do azul do céu que lhe assombrava, nem a ausência dos pássaros nos galhos das árvores que agora balançavam com o vento, nem mesmo as pessoas que passavam por ela sem nem mesmo enxerga-la.  O que lhe causava medo era aquele dedo em riste, quase encostando em seu nariz, as ameaças, o terror que tomava sua  mente porque sabia o quanto era difícil conversar e de quanto tempo precisou para criar coragem de assumir para si mesma a situação que nem mesmo ela compreendia e sobre o quanto tinha receio de parecer maluca ou exagerada.

Aumentaram, cada vez mais grossos e fortes, os pingos que caíam do céu, agora lavavam seu cabelo e escorriam pelo rosto delicado, um rosto que pouco sorria. Havia uma enorme tela em branco na cabeça e a sensação de espera que permanecia intacta na pele. A espera inocente pelo final feliz que prometeram nos contos de fadas e pelo arrepio que aquele abraço que ela nunca mais sentiu, poderia provocar se acaso viesse.

Se essas mãos que tanto lhe abraçaram chegassem, enfim,desarmadas, poderiam fazer essa chuva cessar? Essas gotas que caíam sem dó também dentro do peito, afogando o que um dia foi bom, o que um dia já foi chamado de felicidade. Então viria o sol trazendo a luz novamente?

Tudo o que tinha agora era a chuva que a pegou de surpresa logo no início do dia, essa chuva aqui de fora que encharcava meninos e meninas, carros, cães de rua, monumentos da cidade, uma chuva para todos. Uma chuva que todo mundo podia sentir sem que fosse preciso gritar que estava frio lá dentro também, que tudo era igualmente cinza do lado de lá.

Por alguns minutos, experimentava a normalidade, vivenciava algo que todos sabiam como era sentir. Deixava a água escorrer pelos dedos, como se pudesse permitir escapar o que lhe prendia, seu espírito ainda tinha sede e gotas, cada vez mais grossas, eram necessárias para sentir certo alívio. Era possível reconhecer ali, um prazer que há muito não sentia, o gosto de liberdade.

Quando criança, tinha o hábito de beber, freneticamente, o líquido que jorrava dos céus como um viajante no deserto que, finalmente, encontra seu oásis. Era seu costume agradecer, de braços abertos, enquanto girava e girava, como num carrossel encantado, como se a vida pudesse esperar sua reação, o seu próprio tempo de lidar com o que lhe acontecia. Quando se demorava no meio do temporal, a mãe a despertava da comunhão entre céu e inocência com os gritos nervosos, demasiadamente protetora:

– Saia já dessa chuva fria! Vai se resfriar!

Então abria os olhos, como se acordasse de um sonho bom, e via que tinha um lugar quente e acolhedor para correr. Era essa a melhor lembrança da infância que habitava sua mente tão repleta de sonhos engavetados e vontades reprimidas. Ainda era capaz de se sentir como criança, ainda gostava de beber água da chuva. Ainda podia girar e girar, se ver cair e se molhar, encharcando o corpo e os pensamentos, experimentando aquela gostosa sensação de liberdade.

Era capaz de fazer tudo outra vez,principalmente de se confessar ao fluído que caía sagrado do céu para molhar seu corpo quase sempre tão febril.

Sentia que era possível deixar escorrer o passado juntos às gotas, cada vez mais poderosas e límpidas. Que era possível lavar então a sua alma, deixar cicatrizar as feridas que necessitaram de todo esse tempo para serem cicatrizadas. Bastava os braços abertos de novo e o coração de menina voltaria a bater, tudo correria com o líquido para os ralos, e se perderia para sempre. O futuro poderia brotar daquele aguaceiro.

Sentindo-se em paz e apta a enfrentar o novo, se deixou levar com o pensamento somente no barulho da água e, fechando os olhos, girou e girou novamente, como nos velhos tempos. Despertou-se, dessa vez, não com a voz preocupada da mãe, mas com o profundo silêncio de sua alma e viu que tudo estava limpo, enfim. Pelo menos, por hoje, poderia se dar ao luxo de esquecer.

Talvez ela ainda seja aquela menina que corria para a rua ou para o quintal, toda vez que via as nuvens negras chorarem, que falava sozinha pelos cantos, inventando brincadeiras e novas formas de entender o mundo, que sonhava com um futuro tranquilo e que cantava pela casa enquanto andava descalça pelo corredor. A mesma que pulava da cama e ia direto para o seu portal da fantasia: o quintal da casa que a viu crescer e guardar suas feridas, um espaço que só era grande em sua memória tão cheia de lembranças contraditórias. O chão de terra batida, junto das galinhas e patos, cachorros e pés de figo, o pai que lhe ensinou a amar os bichos e as plantas, e que zelava pelo lugar. Lá, no seu pequeno mundo, nada havia de mau, seus cortes eram curados com um beijo carinhoso e a vida parecia seguir devagar. O tempo não era medido a relógios. Esse era o seu paraíso, o refúgio da tímida criança de ontem que nunca soube crescer e que jamais imaginou que, quando isso precisasse acontecer de fato, tivesse que se esconder e lutar em uma guerra que ela nunca quis.

Ainda hoje escuta os passos, sente o cheiro da terra, e se lembra das infinitas conversas com os animais e, principalmente, de como era bom pertencer à um outro mundo. O dos inocentes e puros de coração, de quem não vê maldade em apenas ser livre.

Meninas de oito anos não pecam e isso era tudo o que ela podia dizer, meninas não imaginam o quanto um silêncio pode dificultar ainda mais suas vidas.Meninas de oito anos não são capazes de prever que o que julgarão ser amor no futuro, poderá se tornar o seu maior inimigo.

Hoje, com pouco mais de  vinte anos e uma pequena vida para proteger dentro de si, ela só tem a chuva e a  velha casa da infância.

Do muito que gostaria de esquecer, sobrava ruídos, batidas de porta, e as poucas carícias de agrado depois da briga. Depois da humilhação, depois que o efeito do álcool evaporava junto à memória de quem prometeu somente amar.

Se as feridas, realmente, escorressem com a água da chuva, curada estaria agora e ela sabe que uma nova vida não se inventa do dia pra noite, mas que pode ser construída dia após dia, no seu tempo, sem regras ou pressões alheias, somente à base de amor e esperança.Mentalizando essas palavras, tocou firmemente a campainha do lar que guardava a melhor versão de si mesma e que agora poderia ser o palco de sua redenção. Começava ali uma história que enfim, um dia, teria orgulho de contar, renascia como mulher, ainda não tão segura do futuro, mas forte como gotas de chuva em plena tempestade.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

CATEGORIA

Camila Bertelli

Tags